quinta-feira, 5 de março de 2009

Obama escreve para presidente da Rússia sobre mísseis e Irã--NYT

Pra não dizer que não falei dos espinhos e da exceção.

Obama escreve para presidente da Rússia sobre mísseis e Irã--NYT

WASHINGTON (Reuters) - O presidente dos EUA, Barack Obama, ofereceu um recuo na decisão de construir um escudo de mísseis de defesa no Leste Europeu se a Rússia ajudar na tarefa de impedir que o Irã fabrique armas nucleares, informou o jornal New York Times na segunda-feira.

Obama ofereceu o acordo em uma carta entregue nas mãos do presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, em Moscou no mês passado por altas autoridades governamentais, disse o jornal, citando membros do governo dos EUA que não quiseram se identificar.

"Nós podemos confirmar que o presidente Obama enviou uma carta para o presidente Medvedev", disse uma importante autoridade dos EUA. "A carta tratou de uma gama de assuntos, incluindo a proteção de mísseis e como isso está relacionado à ameaça iraniana."

A Rússia se opõe enfaticamente à construção de um escudo de mísseis dos EUA na Polônia e na República Tcheca. O sistema foi proposto pelo ex-presidente George W. Bush.

Moscou ainda não respondeu à oferta de Obama, disse a reportagem.

A secretária de Estado, Hillary Clinton, tem encontro marcado com o ministro do Exterior da Rússia, Sergei Lavrov, em Genebra, na sexta-feira.

Sudão e o TPI

Folha de São Paulo de 5 de março de 2009

Tribunal manda prender ditador do Sudão
Primeiro mandado do Tribunal Penal Internacional contra um chefe de Estado em exercício tem forte impacto político

Omar al Bashir é acusado de 7 crimes de guerra e contra a humanidade no conflito de Darfur; corte rejeita, porém, acusação de "genocídio"



O Tribunal Penal Internacional (TPI) expediu ontem um mandado de prisão contra o ditador do Sudão, Omar Hassan al Bashir, o primeiro contra um chefe de Estado ainda em exercício desde a sua criação, em 2002. A detenção de Bashir havia sido pedida pelo procurador do TPI, Luis Moreno-Ocampo, em julho do ano passado.
O ditador sudanês é acusado de sete crimes de guerra (ataque a civis e pilhagem) e contra a humanidade (homicídio, extermínio, deslocamento forçado, tortura e estupro) no conflito na região de Darfur. Desde 2003, até 300 mil pessoas morreram e outras 2,7 milhões foram deslocadas devido à disputa, segundo estimativa da ONU.
O painel de três juízes que expediu o mandado de prisão não acolheu, porém, a acusação de prática de genocídio por Bashir apresentada por Ocampo no pedido de prisão. Por dois votos a um, o painel argumentou não haver indícios suficientes da intenção de extermínio de uma parte ou de todo um grupo populacional específico.
O TPI, sediado em Haia (Holanda), foi criado em 2002 para investigar indivíduos acusados de crimes de guerra e contra a humanidade. O Estatuto de Roma, documento no qual se funda, já foi ratificado por 108 países, entre eles o Brasil. EUA, Rússia, China e o próprio Sudão, porém, não o assinaram.
A investigação contra Bashir no TPI foi aberta em 2005 a pedido do Conselho de Segurança da ONU, ao qual é permitido também suspender um processo em andamento. Além do CS, só Estados-membros podem pedir a abertura de investigações. Se julgado, Bashir poderá pegar prisão perpétua.
Segundo o Estatuto de Roma, o Sudão fica obrigado a entregar o seu presidente -o que Cartum já disse que não fará por não reconhecer o TPI. Os países signatários do documento também são obrigados a deter Bashir caso ele ingresse em seu território ou espaço aéreo.
A corte anunciou que pedirá também a cooperação de todos os membros da ONU não-signatários do estatuto. Mas países árabes e africanos, inclusive signatários, já anunciaram que não cumprirão a ordem, e países temerosos com a abertura de um precedente jurídico expressaram reservas.
Atualmente, o procurador Ocampo examina se vai considerar um pedido da ANP (Autoridade Nacional Palestina) para abrir investigação contra dirigentes israelenses por supostos crimes de guerra na recente ofensiva contra Gaza.

Reação e expulsão
A decisão do TPI foi de pronto rechaçada pelo governo do Sudão, que anunciou a participação de Bashir em um encontro da Liga Árabe no Qatar, no final de março. Para Cartum, o mandado de prisão é uma conspiração de países ocidentais.
"É uma decisão falha. Não a reconhecemos", disse o porta-voz do governo. Após o anúncio, centenas de pessoas dirigiram-se ao centro da capital em defesa do presidente.
O governo anunciou ainda a expulsão de seis agências de ajuda humanitária, incluindo a ONG Médicos Sem Fronteiras. Mas garantiu segurança para as tropas de manutenção de paz da ONU em Darfur (menos da metade dos 31 mil soldados inicialmente previstos).
O general Omar Hassan al Bashir, 65, chegou ao poder num golpe em 1989. Nos anos 90, flertou com o radicalismo islâmico e chegou a abrigar Osama bin Laden, expulso após pressões internacionais.
Embora o mandado de prisão seja o primeiro contra um presidente no cargo pelo TPI, decisões similares foram tomadas por outras cortes. Foram os casos do sérvio Slobodan Milosevic, no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, e do liberiano Charles Taylor, no Tribunal Especial para Serra Leoa, em parceria com a ONU.
No TPI, o único julgamento já iniciado é o de Thomas Lubanga, um líder rebelde da República Democrática do Congo. Há ainda mandados de prisão expedidos contra dois outros membros do governo sudanês.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Fed descarta recuperação na economia dos EUA antes do fim do ano

Segue abaixo notícia no site da Folha de São paulo acerca da crise econômica.



As condições econômicas dos Estados Unidos continuaram a se deteriorar entre janeiro e fevereiro deste ano, segundo o "Livro Bege", documento com dados econômicos coletados nas 12 divisões regionais do Federal Reserve (Fed, o BC americano), e divulgado nesta quarta-feira. De acordo com o documento, uma recuperação não deve ocorrer antes do fim deste ano ou do início de 2010.

Segundo o documento, dez das 12 regiões em que foram coletadas as informações apresentaram condições econômicas fracas ou quedas na atividade --as exceções foram Filadélfia e Chicago.

Leia a cobertura completa da crise nos EUA
Entenda a evolução da crise que atinge a economia dos EUA

"A deterioração foi ampla, com apenas alguns setores, tais como produção de alimentos e produtos farmacêuticos, como exceções. Olhando adiante, contatos com vários distritos classificam as perspectivas para melhora nas condições econômicas no curto prazo como fracas", diz o texto. "Uma retomada significativa não é esperada antes do fim de 2009 ou do início de 2010."

O texto destaca que, com a elevação das demissões e a interrupção em contratações, o desemprego cresceu em todas as regiões, reduzindo as pressões de elevação de salários. As pressões inflacionárias, por sua vez, continuam a diminuir em uma parte considerável nos setores de bens finais e serviços, o que reflete tanto as quedas de preços da energia e de commodities como uma queda na demanda.

Os gastos dos consumidores permaneceram fracos, emboras alguns distritos tenham apresentado melhora em janeiro e fevereiro, na comparação com a temporada de compras de fim de ano de 2008. A atividade no setor de viagens e turismo e em uma série de serviços fora do setor financeiro tiveram uma queda acentuada, diz o texto.

A atividade manufatureira também sofreu queda acentuada em alguns segmentos. O mercado imobiliário permanece em grande parte estagnado, com sinais mínimos e esparsos de estabilização em algumas regiões, enquanto a demanda por imóveis comerciais teve deterioração "significativa".

"Relatos de bancos e outras instituições financeiras indicam novas quedas na demanda por empréstimos, uma ligeira deterioração na qualidade do crédito para empresas e pessoas físicas e a continuação da escassez de crédito", diz o documento.

Os dados para o relatório foram coletados até o dia 23 de fevereiro.

Indicadores

Os dados presentes no "Livro Bege" refletem o que os indicadores econômicos americanos divulgados recentemente já sinalizaram. O setor privado, por exemplo, perdeu 697 mil empregos no mês passado, segundo divulgação da consultoria de recursos humanos ADP Employer Services.

O Departamento do Trabalho, que apura os números oficiais, vai divulgar os dados de fevereiro na sexta-feira (6). A expectativa dos analistas é de que tenham sido fechadas no mês passado 640 mil vagas e que a taxa de desemprego tenha ficado em 7,9%, contra 7,6% em janeiro --quando foram fechadas quase 600 mil vagas.

Os gastos do consumidor, segundo o Departamento do Comércio, tiveram uma alta de 0,6% em janeiro, interrompendo uma sequência de seis quedas consecutivas. No entanto, a taxa de poupança no país continuou a subir, chegando a 5% (a maior desde 1995), o que foi visto como sinal de que os gastos no mês passado foram uma exceção, e que para os próximos meses os gastos devam continuar a encolher.

Os dados sobre confiança do consumidor também apontam para uma queda no consumo: o indicador apurado pela Universidade de Michigan ficou em 56,3 pontos, contra 61,2 verificados em janeiro, e o apurado pelo instituto privado de pesquisa Conference Board caiu para 25 pontos em fevereiro, pior índice desde que a pesquisa começou a ser feita, em 1967.

A economia americana registrou uma contração de 6,2% no quarto trimestre, de acordo com a segunda estimativa de desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) do país entre outubro e dezembro do ano passado, pior desempenho desde a queda de 6,4% ocorrida no primeiro trimestre de 1982.

Recessão

A economia dos EUA está em recessão desde dezembro de 2007, segundo o Nber (Escritório Nacional de Pesquisa Econômica, na sigla em inglês). Recessão, segundo o Nber, é um significativo declínio na atividade econômica e que costuma durar mais que alguns poucos meses: ela começa quando a economia atinge um pico do ciclo econômico e termina quando atinge o ponto mais baixo. Para o Nber, a economia americana atingiu um pico em dezembro de 2007, marcando o fim do ciclo de expansão começado em novembro de 2001 e o início da recessão.

O critério mais comum para determinar se um país está em recessão ou não, no entanto, é uma sequência de dois trimestres consecutivos de desempenho negativo do PIB (Produto Interno Bruto). Nesse critério, a economia dos EUA também está em recessão --no terceiro trimestre houve uma contração de 0,5%.

terça-feira, 3 de março de 2009

O paradoxo da exceção e o governo Obama

Venho me empenhando em mostrar com alguns poucos e diretos argumentos como a administração Obama não é aquilo que os ufanistas esperam dela. A notícia abaixo fala por si.


Para EUA, é impossível fixar data para retirar tropas do Afeganistão

Washington, 3 mar (EFE).- O secretário de Defesa americano, Robert Gates, disse hoje que, por enquanto, é difícil fixar uma data para a retirada das tropas internacionais do Afeganistão.

PUBLICIDADE

"Acho que é impossível fixar uma data na qual possa dizer que todas as tropas estarão saindo", disse.


As declarações foram feitas na coletiva de imprensa concedida ao lado do ministro da Defesa francês, Hervé Morin.


Gates afirmou que gostaria que a missão no Afeganistão chegasse ao fim, e que os militares pudessem retornar a seus países. Entretanto, o secretário disse que isto não deve ocorrer em um futuro imediato.


Os EUA estão revisando sua estratégia no país asiático, avaliando seus objetivos e progressos, segundo Gates.


"Acho que teremos uma ideia muito mais clara do caminho a seguir quando completarmos esta revisão", disse.


O secretário de Defesa também garantiu que não pressionou a França para o envio de mais tropas.


Os franceses possuem 3 mil soldados em território afegão - o quarto maior contingente, ficando atrás de EUA, Reino Unido e Alemanha.


Morin, por sua vez, afirmou que a França continuará na missão "durante o tempo que for necessário", mas não pretende ficar no Afeganistão para sempre.


"Não ficaremos lá para sempre. Vamos nos retirar do Afeganistão em algum momento", disse.


Para o ministro francês, a missão deve ter duas vertentes, uma militar e uma civil.


"Precisamos ajudar o Afeganistão a assumir o controle de sua segurança, além de estabelecer metas. Também precisamos ter objetivos claramente definidos para diferentes assuntos", disse

Fonte: Yahoo

segunda-feira, 2 de março de 2009

Golpe de Estado na Guiné-Bissau


02/03/2009 - 10h09
Presidente da Guiné-Bissau é assassinado por soldados
Folha Online


O presidente da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira, foi assassinado nesta segunda-feira por soldados, horas depois do chefe do Exército do país, Na Wai, ser morto em atentado a bomba, na noite deste domingo (1º), em aparente golpe de Estado.
Vieira foi autor do primeiro golpe de Estado militar no país, em 1980, e passou cerca de duas décadas sofrendo tentativas constantes de novo golpe. Em 1994, realizou e ganhou as primeiras eleições livres do país. Cerca de cinco anos depois, em 1999, foi derrubado por rebeldes da oposição.
Em 2005, voltou ao poder reeleito nas eleições nacionais sob promessas de desenvolver a economia no país e a reconciliação nacional.
Parte da etnia Pepel, uma das menores da Guiné-Bissau, ele teve grandes discussões ao longo da vida política com políticos da etnia Balante, uma das maiores do país, da qual fazia parte Na Wai.
O regime de Vieira estabeleceu o caminho para uma economia de mercado e um sistema multipartidário, mas foi caracterizado também pela supressão da oposição política e atentados contra rivais políticos.

Nota: a prospecção de petróleo em águas profundas no mar territorial do país deverá começar em 2010, sob controle da empresa holandesa "Super Nova". Desde a década de 1960, a possível presença de petróleo no país lusófono, cuja economia é dominada pela pesca e pela produção de cereais, tem contribuído fortemente para a sua instabilidade. Análises preliminares sugerem a existência de grandes reservas. Embora o Exército negue relação com a morte de Vieira, provavelmente se trata de uma represália à morte de Na Wai, uma vez que o chefe militar de Relações Exteriores, Zamura Induta, acusou Vieira de ser o mandante do assassinato de Na Wai. A União Européia classificou o golpe de "inadmissível", mas como diria Noam Chomsky, quando um Estado ou organização internacional declara que determinado evento é "inadmissível", quer na verdade dizer exatamente o contrário, isto é, que o admite.

Tony Judt e a crise econômica

Folha de São Paulo de 2 de março de 2009

Crise econômica abala crença no modelo ocidental


Além de abalar os fundamentos do modelo ocidental, a crise econômica enfraquecerá as instituições privadas em favor dos Estados e atiçará ímpetos racistas e xenófobos. É o que previu o historiador inglês Tony Judt, em entrevista por e-mail à Folha. Para Judt, o mundo está pagando o preço de ter dirigentes que não viveram a Grande Depressão dos anos 30 e, por isso, ignoraram os riscos da desregulamentação dos mercados.




FOLHA - A crise global é parte de um "ciclo natural" de desaceleração econômica?
TONY JUDT - Não faço a menor ideia. Mas tendo a concordar com a crítica da economia neoclássica de [John Maynard] Keynes, segundo a qual os padrões econômicos resultam sempre da decisão de intervir ou não intervir. Estão, portanto, sujeitos a ações de governo não naturais de contraciclo. Prova disso é o grande salto econômico e a estabilidade que sucederam a Segunda Guerra Mundial [1939-45]. Ciclos econômicos longos estão relacionados à memória: enquanto as pessoas tinham em mente a Grande Depressão dos anos 30, elas continuaram acreditando em intervencionismo governamental como forma de garantir emprego e benefícios sociais e prevenir a volta das políticas extremistas que acompanharam a crise. Nos anos 80 e 90, a maioria das pessoas ligadas à autoridade política e econômica não tinha lembrança direta do que havia sido aquela crise e, por isso mesmo, nenhuma razão para preservar ou defender instituições políticas e sociais criadas para prevenir seu ressurgimento. É muito simbólico que a crise tenha ressuscitado agora, no rastro da onda de desregulamentação do sistema de comércio e investimento bancário da década de 90, 60 anos após o New Deal ter sido criado justamente para evitar o colapso que estamos vendo hoje.

FOLHA - As sociedades ocidentais têm alguma reação padrão quando submetidas a crises econômicas ?
JUDT - Não há rastros históricos de comportamento coletivo de populações ocidentais submetidas a crises econômicas modernas. Na recessão dos anos 70, países como a Alemanha encorajavam trabalhadores estrangeiros a voltarem para os seus países, mas praticamente não havia agressões ou racismo. Na Grande Depressão dos anos 30, populações europeias se voltaram para partidos nacionalistas e/ou fascistas que prometiam fechar as fronteiras e reservar os empregos aos nativos. Mas naquela época as sociedades europeias eram etnicamente homogêneas, com pouquíssimos imigrantes da Ásia, África ou América do Sul, e o racismo era voltado principalmente contra minorias locais, como os judeus. A crise atual causou nos EUA uma brutal perda da fé no que até pouco tempo atrás eram clichês inabaláveis sobre as virtudes do livre mercado. E a crise certamente atiçou o debate sobre os imigrantes ilegais. Mas a diversidade física do país amortece as consequências de medo e da insegurança, pois boa parte das vítimas do desemprego já são negros ou minorias. O impacto sociológico depende da cultura política mas, principalmente, da atitude dos Estados. Quando governos, como atualmente o Reino Unido, a Dinamarca e a Suíça, dão suporte retórico à ideia de que estrangeiros representam uma ameaça aos empregos locais e ao sistema de Previdência social, então a violência verbal e às vezes física contra imigrantes acaba legitimada. Mas não há correlação automática entre crise econômica e aumento das tensões sociais. Na França, a raiva e o medo estão diretamente voltados contra o governo e as empresas, não contra outras pessoas.

FOLHA - As reações populistas e demagogas de alguns governos ocidentais têm precedente histórico?
JUDT - Hoje não há, ao contrário do passado, uma guinada significativa rumo ao protecionismo e a barreiras comerciais em larga escala. Mas o protecionismo humano está em alta: não vejo nenhum país europeu em que os partidos dominantes não tenham dado corda ao discurso que pretende "limitar" a imigração, restringir os empregos locais aos trabalhadores locais etc. Esta é uma reação de defesa natural diante de uma crise tão grande. Mas é também um sinal de que as siglas de centro estão apavoradas com a perspectiva de que os novos partidos populistas tenham cada vez mais poder na medida em que a crise se alastra.

FOLHA - O racismo está em alta?
JUDT - O racismo e a xenofobia na Europa estão aumentado há muito tempo. O surgimento, no cenário pós-Guerra Fria, de partidos nacionais demagogos na maioria dos países da Europa Central e do Leste significa que há um nicho natural para políticos que querem explorar o medo da concorrência, dos estrangeiros e da mudança. Não é por acaso que os países pequenos e prósperos do oeste e do norte da Europa são palco da mudança mais visível: é na Áustria, na Suíça, na Holanda, na Dinamarca e na Suécia que os partidos antiestrangeiros mais crescem. Uma razão é que esses países permaneceram mais "brancos" e homogêneos por mais tempo e eram prósperos o bastante para garantir sistemas de Previdência social muito confortáveis. Acho que estamos à beira de um salto do sentimento anti-imigrante na Europa ocidental e central, com um paradoxo: o de que os europeus centrais, tão empenhados em manter à distância turcos e demais não-europeus, são eles mesmos vistos como uma ameaça à prosperidade europeia pelos membros mais tradicionais da UE.

FOLHA - Há países mais ou menos sujeitos a distúrbios sociais?
JUDT - Países como Portugal, EUA ou Grécia, que nunca fizeram grande coisa em termos de benefícios sociais, são menos propensos a sofrer mudanças bruscas de humor.

FOLHA - Que instituições ganham e quais perdem com a crise?
JUDT - Os protagonistas em toda crise econômica são os Estados. Instituições puramente econômicas acabam tendo um papel menor, em grande parte por serem as primeiras responsabilizadas pela bagunça. Nos próximos anos o setor privado será menos admirado e respeitado do que nas últimas décadas. Já o papel da autoridade pública na gestão dos assuntos econômicos vai aumentar pela primeira vez desde os anos 60.
Uma consequência será o fortalecimento da autoridade de países como a China e o declínio do chamado modelo anglo-saxão. Isto não é necessariamente uma boa notícia: por mais equivocada que fosse a cultura de capitalismo irrestrito praticada no Ocidente nos últimos 20 anos, ao menos ela estava historicamente associada a valores como o Estado de direito e a liberdade e à relativa equidade social. Se os chineses, para mencionar o exemplo mais óbvio, conseguirem convencer o mundo de que a incompetência econômica americana reflete um defeito estrutural no modelo ocidental, teremos motivo de preocupação.
Eu adoraria dizer que órgãos internacionais como a ONU, o Banco Mundial ou algumas ONGs se fortalecerão com o rápido colapso da supremacia econômica e moral americana. Mas não acho que será o caso. Temo, em vez disso, que estejamos entrando numa era de insegurança na qual atores nacionais e regionais se voltarão para os seus próprios interesses em detrimento de parceiros e competidores mais fracos, e no qual protagonistas econômicos como o Banco Mundial e o FMI, desacreditados por associação às ideias que vinham defendendo, perderão influência.
Pode ser uma coisa boa. Espero que tenhamos assistido ao fim das lições do FMI sobre como "outros" países deveriam equilibrar seus Orçamentos e abrir seus mercados.

domingo, 1 de março de 2009

Gianni Vattino e a morte da religião

El Pais de primeiro de março de 2009
¿Es la religión enemiga de la civilización?
En el mundo actual, las Iglesias se han convertido en un factor de conflicto y un obstáculo para la "salvación", sea eso lo que sea. Sobreviven porque sus jerarquías quieren conservar el poder y sus privilegios
Todos recordamos seguramente la famosa frase de Nietzsche sobre la muerte de Dios. Y también su cláusula: Dios seguirá proyectando su sombra en nuestro mundo durante mucho tiempo. ¿Qué pasaría si aplicáramos la frase de Nietzsche también, y sobre todo, a las religiones? En muchos sentidos, es verdad que, en gran parte del mundo contemporáneo, la religión como tal está muerta, pero todavía proyecta sus sombras en numerosos aspectos de nuestra vida privada y colectiva. Por cierto, dejemos claro que el Dios cuya muerte anunció Nietzsche no es necesariamente el Dios en el que muchos de nosotros seguimos creyendo; yo me considero cristiano, pero estoy seguro de que el Dios que estaba muerto en Nietzsche no era el Dios de Jesús. Incluso creo que, precisamente gracias a Jesús, soy ateo. El Dios que murió, como dice el propio Nietzsche en algún lugar de su obra cuando le llama "el Dios moral", es el primer principio de la metafísica clásica, la entidad suprema que se supone que es la causa del universo material y que requiere esa disciplina especial llamada teodicea, una serie de argumentos que tratan de justificar la existencia de ese Dios o esa Diosa frente a los males que vemos constantemente en el mundo.

La noticia en otros webs
webs en español
en otros idiomas
Causa escándalo que el Papa y los obispos quieran inmiscuirse en las leyes civiles de Italia

Ha llegado la hora de que las personas religiosas se alcen contra las religiones
La tesis que quiero presentar aquí es que las religiones están muertas, y merecen estar muertas, tal como Nietzsche habla de la muerte de Dios. No sólo están muertas las religiones morales, en el sentido más obvio de la palabra: desde dentro de la sociedad cristiana y católica de Europa, es fácil ver que son muy pocos los que observan los mandamientos de la moral cristiana oficial. Lo que está muerto, en un sentido más profundo, son las religiones "morales" como garantía del orden racional del mundo.

La institucionalización de las creencias, que dio origen a las Iglesias, incluyó (no sé si sólo en la práctica o como factor necesario) una reivindicación del poder histórico, en el sentido de que era casi natural y necesario que una religión moral se convirtiera en una institución temporal poderosa. Es lo que parece haber ocurrido con el catolicismo, pero se pueden ver muchos otros fenómenos similares en la historia de otras religiones. Incluso el budismo engendró un Estado, el Tíbet de los lamas, que ahora lucha por sobrevivir frente a China. En todas partes -por ejemplo, en el hinduismo-, el mismo hecho de que exista una diferencia entre clérigos y legos hace que la religión se convierta en una institución, cuyo objetivo principal es siempre su propia supervivencia. Mencionaré de nuevo el ejemplo de la Iglesia católica: si no hubiera sobrevivido a lo largo de los tiempos, yo no habría podido recibir el Evangelio, la buena nueva de la salvación. Una vez más: como en el caso de la muerte de Dios de Nietzsche, la muerte de las religiones institucionalizadas no significa que no tengan legitimidad. Sencillamente, llega un momento en el que ya no son necesarias. Y ese momento es nuestra época, porque, como puede verse en muchos aspectos de la vida actual, las religiones ya no contribuyen a una existencia humana pacífica ni representan ya un medio de salvación. La religión resulta un poderoso factor de conflicto en momentos de intercambio intenso entre mundos culturales diferentes. Por lo menos, eso es lo que ocurre hoy: en Italia, por ejemplo, existe un problema con la construcción de mezquitas, porque la población musulmana ha aumentado de forma espectacular. La hegemonía tradicional de la Iglesia católica está en peligro, pero los católicos no se sienten amenazados en absoluto por esa situación; sólo los obispos y el Papa.

La Iglesia afirma que defiende su poder (y los aspectos económicos de él) para preservar su capacidad de predicar el Evangelio. Sí; pero, como en tantas instituciones, la razón suprema de su existencia se queda muchas veces olvidada a cambio de la mera continuidad del statu quo. Lo que quiero decir es que, en el mundo actual, sobre todo en el Occidente industrial, la religión como institución se ha convertido en un factor de conflicto y un obstáculo para la "salvación", sea eso lo que sea. Quiero subrayar que hablo de la muerte de las religiones en el mismo sentido en el que acepto el anuncio de Nietzsche sobre la muerte de Dios. La religión que está muerta es la religión-institución, que contribuyó enormemente al desarrollo de la civilización pero, al final, se convirtió en un obstáculo.

Hablar de la muerte de las religiones en un sentido relacionado con el anuncio de la muerte de Dios de Nietzsche no significa, desde luego, que la religión nunca haya tenido sentido para la humanidad. Ni siquiera se puede decir que la frase de Nietzsche significa que Dios no existe. Ésa sería de nuevo una afirmación metafísica, que Nietzsche no quería pronunciar, por su rechazo general a cualquier metafísica "descriptiva". La lucha contra la supervivencia de las religiones de la que hablo tiene poco que ver con la negación racionalista de todo significado a los sentimientos religiosos. Incluso se toma muy en serio ese resurgimiento de la necesidad de una relación con la trascendencia que caracteriza numerosos aspectos de la cultura actual. Citaré de nuevo a Nietzsche, que dice que Dios está muerto y ahora queremos que existan muchos Dioses.

Mientras las religiones sigan queriendo ser instituciones temporales poderosas, son un obstáculo para la paz y para el desarrollo de una actitud genuinamente religiosa: pensemos en cuánta gente está abandonando la Iglesia católica por el escándalo que representan las pretensiones del Papa y los obispos de inmiscuirse en las leyes civiles en Italia. Los ámbitos de la ética familiar y la bioética son los más polémicos. En Estados Unidos, el anuncio reciente del presidente Obama sobre su intención de eliminar las restricciones a la libertad de las mujeres para abortar ha suscitado una amplia oposición por parte de los obispos católicos. La oposición contra cualquier forma de libertad de elección en todo lo relacionado con la familia, la sexualidad y la bioética es continua e intensa, sobre todo, en países como Italia y España. Tengamos en cuenta que la Iglesia se opone a leyes que no obligan, sino que sólo permiten la decisión personal en estos asuntos. Deberíamos preguntarnos de qué lado está la civilización.

Hace poco, el Papa repitió su idea constante de que la verdad no es negociable. ¿Ese "fundamentalismo" es sólo característico del catolicismo, o de todo el cristianismo? Quienes hablan de civilizaciones tienen la responsabilidad de tener en cuenta esta condición concreta. No hay más que ver los frecuentes diálogos interreligiones que se celebran en cualquier parte del mundo, en los que los interlocutores suelen ser "dirigentes" de las distintas confesiones. No dialogan para cambiar nada; no es más que una forma de volver a confirmar su autoridad en sus respectivos grupos. ¿Acaso sale de estos frecuentes encuentros algo útil para la paz y la mutua comprensión de los pueblos? Mientras no se elimine el aspecto autoritario y de poder de las religiones, será imposible avanzar hacia el mutuo entendimiento entre las diversas culturas del mundo.

Esta conclusión puede parecer una gran paradoja, dado que, en general, se ha considerado que la religión era un medio de educar a la humanidad hacia la caridad, la piedad y la comprensión. En muchos sentidos, la compasión parece ser la base fundamental de toda experiencia religiosa. Y es cierto, ya sea desde el punto de vista del cristianismo, el budismo, el hinduismo, el islam o el judaísmo. Hasta aquí, nada que objetar. Pero precisamente por eso es por lo que debemos reconocer que ha llegado la hora de que las personas religiosas se alcen contra las religiones. Y que afirmen tajantemente que la era de la religión-institución se ha terminado y su supervivencia sólo se debe a los esfuerzos de las jerarquías religiosas para conservar su poder y sus privilegios. El hecho de que esta tesis parezca inspirarse, en gran parte, en la experiencia cristiana (y católica) europea, no limita su validez para otras culturas. Seguramente, el veneno del universalismo se extendió por el mundo gracias a los conquistadores europeos, que son responsables de la estricta asociación entre conversión (al cristianismo; recuérdese el compelle intrare de San Agustín) e imperialismo. Ahora es el mundo latino el que debe romper esa asociación y separar la salvación de cualquier pretensión de creencia y disciplina universal como condición para alcanzarla. No es una tarea fácil.