Segue abaixo texto do filósofo e economista Jorge Grespan, exposto no site da Folha de São Paulo.
O texto faz parte do livro publicado pela folha sobre Karl Marx, e oferece importante ótica de compreensão sobre a atual crise do capitalismo.
CRISES E FINANÇAS
Durante muito tempo, Marx foi um dos raros autores que se preocupou com o fenômeno das crises econômicas, considerando-as inevitáveis e inerentes ao sistema capitalista. A maioria dos economistas insistia na capacidade harmonizadora do mercado, relegando as crises a um segundo plano, como algo apenas casual e externo. Outros - mais respeitados por Marx, como Ricardo ou o suíço Sismonde de Sismondi (1773-1842) - até reconheciam a importância delas, mas as concebiam como um limite com o qual o sistema econômico deveria saber lidar. Depois, até em todo o século 20, registra-se um movimento pendular entre fases de predomínio teórico do harmonicismo e fases em que crises violentas, como a de 1929 ou a dos anos 1970, forçaram a incorporação delas ao pensamento econômico aceito pela tradição acadêmica e de instituições oficiais.
Mesmo nesse caso, contudo, as crises se revestem de um caráter funcional, entendidas como mal necessário ou como crises de crescimento, ou ainda, na melhor das hipóteses, como indicadores da incapacidade do setor privado resolver seus problemas sem a intervenção do Estado.
Na teoria de Marx, por outro lado, elas revelam a emergência da dimensão negativa de um sistema marcado pela contradição. Ao contrário do pensamento econômico tradicional, aqui a crise está intimamente associada à crítica. Mas não a uma crítica subjetiva de alguém que analisa de fora e condena, e sim a uma crítica objetiva: desnudando a dimensão negativa no mau funcionamento do sistema, indica-se como o próprio sistema realiza uma espécie de autocrítica. Se o capital é valor que se valoriza, os momentos em que ele desvaloriza o valor existente de maneira inevitável, comprometendo assim a base de seu crescimento, são momentos em que ele mesmo se contradiz, negando as condições de sua existência.
Dito desse modo parece pouco problemático. Mas a teoria das crises de Marx permitiu leituras diversas e conflitantes até entre seus seguidores. Houve quem as atribuísse a meros desequilíbrios entre os setores da economia, ou a uma incapacidade crônica da produção criar mercados, devido às condições antagônicas da distribuição dos produtos no capitalismo; houve ainda os que as circunscreviam ao âmbito financeiro, como se o da produção já não fosse contraditório.
A controvérsia surgiu da forma complexa de apresentação das categorias na teoria de Marx. Há passagens que justificam uma ou outra das interpretações, e na seqüência a desacreditam. O problema pode ser equacionado, no entanto, levando-se em conta o todo da obra e, principalmente, o projeto de Marx desdobrar cada forma do sistema como resultado da negatividade das formas anteriores, indo do mais geral ao mais específico e intrincado.
Em primeiro lugar, então, é preciso retomar o aspecto geral. No final do capítulo 3 foi citado um texto que pode servir muito bem nesse sentido: "O capital é trabalho morto, que apenas se reanima, à maneira dos vampiros, sugando trabalho vivo e que vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga". Vimos como essa passagem sintetiza bem a contradição constitutiva do capital em sua relação com a força de trabalho. Mas um aspecto central deve agora ser acrescentado. É que, ao comprar e incorporar a força de trabalho, o capital está também se apropriando da capacidade de medir o valor, que o trabalho abstrato possui numa sociedade de troca de mercadorias. O capital adquire com isso não só a propriedade de se valorizar como a de medir essa valorização; ele se valoriza e se mede.
Mas a sua relação com a mensuração é contraditória, como também sua relação com a valorização, porque ambas derivam da oposição entre capital e trabalho. Ao mesmo tempo que integra a força de trabalho, o capital também precisa negá-la, substituindo-a por máquinas; ou seja, ao mesmo tempo que adquire a capacidade de se medir, o capital reitera que essa capacidade pertence a um agente que ele mesmo põe como seu oposto. Perde então as suas medidas.
Em todos os níveis da apresentação das categorias de O Capital, aparece essa determinação contraditória da medida e da desmedida. É por ela que vão se definindo em cada nível os distintos conceitos de crise. Se algum deles for isolado dos demais, pode parecer que oferece a única definição possível, invalidando as outras - caminho seguido por grande parte das intérpretes de Marx. Mas, de fato, também o conceito de crise obedece à forma da apresentação que vai do mais geral ao mais complexo, também ele vai enriquecendo seu conteúdo junto com o conceito de capital.
Marx faz questão de indicar a possibilidade de crise já no nível da produção e circulação de mercadorias, refutando qualquer pretensão de que o mercado pudesse ser sempre harmônico. Aqui, a medida aparece na passagem fluida entre compras e vendas, quando há correspondência entre as quantidades do que se produz e do que se demanda; a desmedida, ao contrário, é quando não ocorre tal correspondência, interrompendo o movimento.
A forma desse movimento é descrita por Marx em termos que valem também para as fases seguintes da apresentação: "[] o percurso de um processo através de duas fases opostas, sendo essencialmente, portanto, a unidade das duas fases, é igualmente a separação das mesmas e sua autonomização uma em face da outra. Como elas então pertencem uma à outra, a autonomização [] só pode aparecer violentamente, como processo destrutivo. É a crise, precisamente, na qual a unidade se efetua, a unidade dos diferentes".
A compra e a venda de mercadorias, em primeiro lugar, são as "fases opostas" do processo em que se vende para comprar. Como se realizam pela mediação do dinheiro, elas assim se "separam e autonomizam uma em face da outra", podendo não coincidir. Mas a crise não assinala simplesmente o momento negativo, da não coincidência, e sim a impossibilidade de que essa situação permaneça por muito tempo.
Como as fases de compra e venda se diferenciaram por força de um processo único, que dialeticamente tem de se realizar mediante sua diferenciação em duas fases, chega um momento em que essa autonomia não pode prosseguir. A unidade do processo se afirma, mas como reação violenta à autonomização das fases. No mercado como um todo, a discrepância possível entre compras e vendas precisa ser corrigida e, quando isso acontece, verifica-se a incompatibilidade entre os valores daquilo que se comprou e agora tem de pagar com o dinheiro de uma venda que pode não ocorrer. Segue-se um ajuste violento de contas, e valores simplesmente desaparecem.
Essa forma geral da crise se reapresenta quando a finalidade é definida pelo capital como a de "comprar para vender". A discrepância ocorre no mercado de trabalho, ou nas compras e vendas recíprocas dos vários setores em que se divide a produção entre os capitalistas, ainda mais considerando que tudo isso se realiza pela concorrência. A discrepância de valores significa então que alguns terão prejuízo, talvez grande, vindo a falir. Parte do capital existente se desvaloriza, negando o próprio conceito de valor que se valoriza.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u454646.shtml
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Crise
Mais um texto da Folha de São Paulo acerca dos reflexos da crise.
CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio
Atualizado às 9h53
O nível de emprego na indústria seguiu o ritmo da produção e caiu pelo terceiro mês consecutivo. Em dezembro, houve variação negativa de 1,8%, na comparação com o mês anterior, informou nesta segunda-feira o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Trata-se da maior retração observada desde 2001, quando a série histórica foi iniciada. Em novembro, na mesma base de comparação, a queda havia sido de 0,6%.
Em relação a igual período do ano passado, houve queda de 1,1%. Essa retração interrompeu uma série de 29 resultados positivos nessa relação. Foi o menor resultado desde janeiro de 2004, quando o empego na indústria havia recuado 1,2%.
Ao longo de 2008, o IBGE verificou crescimento de 2,1% em relação ao ano anterior. De janeiro a setembro, antes do agravamento da crise mundial, a expansão do emprego industrial havia chegado a 2,7%. No último trimestre de 2008, houve variação negativa de 1,1% na com paração com o trimestre imediatamente anterior, interrompendo série de dez trimestres com variações positivas.
O valor da folha de pagamento dos trabalhadores da indústria registrou também a terceira contração consecutiva, com queda de 0,7 % em dezembro, na comparação com o mês anterior. Em relação a dezembro de 2007, houve incremento de 4,1%, 36ª alta consecutiva. Em 2008, a folha de pagamento na indústria avançou 6%.
O IBGE indicou que, na comparação com dezembro de 2007, houve diminuição dos postos de trabalho em nove dos 18 setores pesquisados. Entre as 14 regiões avaliadas, houve queda em 11 locais, com destaque para Santa Catarina (-3,2%), Paraná (-3,1%), Região Nordeste (-2%) e São Paulo (-0,8%). Foi a primeira queda nesse indicador, na indústria paulista, desde abril de 2004.
Em Sâo Paulo e em Santa Catarina, o destaque negativo ficou por conta do setor de vestuário, com retrações de 11,3% e 14,2%, respectivamente. No Paraná, o nível de emprego na indústria madeireira caiu 21% em relação a dezembro de 2007.
No resultado fechado de 2008, o IBGE observou crescimento em 12 dos 18 ramos e em 11 dos 14 locais pesquisados. As principais influências no ano vieram de São Paulo (3%) e Minas Gerais (4,2%).
Entre os setores, destacaram-se máquinas e equipamentos (10,4%), máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (10,6%) e meios de transporte (8,5%).
Em relação a dezembro de 2007, o ganho salarial na indústria foi constatado em 12 das 14 áreas avaliadas, com destaque para São Paulo (6%), Paraná (5,4%) e Minas Gerais (4,1%).
A folha de pagamento real cresceu em 15 dos 18 ramos investigados, na comparação com dezembro de 2007. Os maiores impactos positivos vieram de meios de transporte (10,5%), produtos de metal (10,2%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (7,1%).
Ao mesmo tempo, foram constatadas quedas na folha de pagamento dos setores de vestuário (14%) e madeira (-9,9%), na comparação com dezembro de 2007.
O número de horas pagas na indústria caiu 1,7% em relação ao mês anterior. A retração foi semelhante ao que havia sido verificado em novembro, quando foi notada a, maior queda desde o início da série histórica.
Em relação a dezembro de 2007 apresentou recuo de 1,8% em dezembro, menor taxa desde dezembro de 2003, cuja retração chegara a 1,9%.
CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio
Atualizado às 9h53
O nível de emprego na indústria seguiu o ritmo da produção e caiu pelo terceiro mês consecutivo. Em dezembro, houve variação negativa de 1,8%, na comparação com o mês anterior, informou nesta segunda-feira o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Trata-se da maior retração observada desde 2001, quando a série histórica foi iniciada. Em novembro, na mesma base de comparação, a queda havia sido de 0,6%.
Em relação a igual período do ano passado, houve queda de 1,1%. Essa retração interrompeu uma série de 29 resultados positivos nessa relação. Foi o menor resultado desde janeiro de 2004, quando o empego na indústria havia recuado 1,2%.
Ao longo de 2008, o IBGE verificou crescimento de 2,1% em relação ao ano anterior. De janeiro a setembro, antes do agravamento da crise mundial, a expansão do emprego industrial havia chegado a 2,7%. No último trimestre de 2008, houve variação negativa de 1,1% na com paração com o trimestre imediatamente anterior, interrompendo série de dez trimestres com variações positivas.
O valor da folha de pagamento dos trabalhadores da indústria registrou também a terceira contração consecutiva, com queda de 0,7 % em dezembro, na comparação com o mês anterior. Em relação a dezembro de 2007, houve incremento de 4,1%, 36ª alta consecutiva. Em 2008, a folha de pagamento na indústria avançou 6%.
O IBGE indicou que, na comparação com dezembro de 2007, houve diminuição dos postos de trabalho em nove dos 18 setores pesquisados. Entre as 14 regiões avaliadas, houve queda em 11 locais, com destaque para Santa Catarina (-3,2%), Paraná (-3,1%), Região Nordeste (-2%) e São Paulo (-0,8%). Foi a primeira queda nesse indicador, na indústria paulista, desde abril de 2004.
Em Sâo Paulo e em Santa Catarina, o destaque negativo ficou por conta do setor de vestuário, com retrações de 11,3% e 14,2%, respectivamente. No Paraná, o nível de emprego na indústria madeireira caiu 21% em relação a dezembro de 2007.
No resultado fechado de 2008, o IBGE observou crescimento em 12 dos 18 ramos e em 11 dos 14 locais pesquisados. As principais influências no ano vieram de São Paulo (3%) e Minas Gerais (4,2%).
Entre os setores, destacaram-se máquinas e equipamentos (10,4%), máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (10,6%) e meios de transporte (8,5%).
Em relação a dezembro de 2007, o ganho salarial na indústria foi constatado em 12 das 14 áreas avaliadas, com destaque para São Paulo (6%), Paraná (5,4%) e Minas Gerais (4,1%).
A folha de pagamento real cresceu em 15 dos 18 ramos investigados, na comparação com dezembro de 2007. Os maiores impactos positivos vieram de meios de transporte (10,5%), produtos de metal (10,2%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (7,1%).
Ao mesmo tempo, foram constatadas quedas na folha de pagamento dos setores de vestuário (14%) e madeira (-9,9%), na comparação com dezembro de 2007.
O número de horas pagas na indústria caiu 1,7% em relação ao mês anterior. A retração foi semelhante ao que havia sido verificado em novembro, quando foi notada a, maior queda desde o início da série histórica.
Em relação a dezembro de 2007 apresentou recuo de 1,8% em dezembro, menor taxa desde dezembro de 2003, cuja retração chegara a 1,9%.
Montadora Nissan vai cortar 20 mil empregos em todo o mundo
Segue abaixo matéria da Folha de São Paulo que trata dos reflexos da crise na economia japonesa.
A montadora japonesa Nissan anunciou nesta segunda-feira que deve cortar 20 mil empregos em todo o mundo como resultado do primeiro ano de prejuízo da companhia em quase uma década. A empresa prevê uma perda de 265 bilhões de ienes (US$ 2,9 bi) para o ano fiscal de 2008-2009 (que termina em março deste ano).
"A indústria automotiva mundial está em uma crise, e a Nissan não é exceção", afirmou o executivo-chefe do grupo Renault-Nissan, o brasileiro Carlos Ghosn. De acordo com o presidente da empresa, o fechamento de vagas atingirá 8,5% de toda a força de trabalho da Nissan.
Segundo a agência de notícias Associated Press, a última vez que a Nissan registrou perdas foi em 2000, antes da fusão com a francesa Renault que colocou Ghosn para resgatar a japonesa da falência.
"Em 1999 nós estávamos sozinhos, mas em 2009 estamos todos juntos", disse Ghosn sobre a crise financeira durante a divulgação das previsões da empresa nesta segunda, em Tóquio (Japão).
Com as demissões, a Nissan se une a outras grandes companhias japonesas entre os afetados pela crise. A Toyota anunciou que deve registrar em 2008 seu primeiro prejuízo anual da história; a Panasonic planeja fechar 27 fábricas e demitir 15 mil funcionários. As montadoras Honda, Yamaha, Suzuki e Mazda também registraram perdas, assim como as companhias do setor tecnologico Sony, Toshiba e Sanyo, entre outras.
A montadora japonesa Nissan anunciou nesta segunda-feira que deve cortar 20 mil empregos em todo o mundo como resultado do primeiro ano de prejuízo da companhia em quase uma década. A empresa prevê uma perda de 265 bilhões de ienes (US$ 2,9 bi) para o ano fiscal de 2008-2009 (que termina em março deste ano).
"A indústria automotiva mundial está em uma crise, e a Nissan não é exceção", afirmou o executivo-chefe do grupo Renault-Nissan, o brasileiro Carlos Ghosn. De acordo com o presidente da empresa, o fechamento de vagas atingirá 8,5% de toda a força de trabalho da Nissan.
Segundo a agência de notícias Associated Press, a última vez que a Nissan registrou perdas foi em 2000, antes da fusão com a francesa Renault que colocou Ghosn para resgatar a japonesa da falência.
"Em 1999 nós estávamos sozinhos, mas em 2009 estamos todos juntos", disse Ghosn sobre a crise financeira durante a divulgação das previsões da empresa nesta segunda, em Tóquio (Japão).
Com as demissões, a Nissan se une a outras grandes companhias japonesas entre os afetados pela crise. A Toyota anunciou que deve registrar em 2008 seu primeiro prejuízo anual da história; a Panasonic planeja fechar 27 fábricas e demitir 15 mil funcionários. As montadoras Honda, Yamaha, Suzuki e Mazda também registraram perdas, assim como as companhias do setor tecnologico Sony, Toshiba e Sanyo, entre outras.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Amartya Sen - Estado e Mercado
El Pais de 08 de fevereiro de 2009
"Necesitamos una alianza entre el Estado y el mercado"
Nació en un campus universitario y su vida ha sido un ir y venir de universidad en universidad. Recibió sus primeras lecciones en Visva-Bharati, una escuela y universidad fundada por el filósofo y escritor Rabindranath Tagore en la que su abuelo materno enseñaba historia de India. El propio Tagore ayudó a elegir su nombre de pila, que significa "inmortal" en sánscrito. Testigo de la hambruna de 1943 en su Estado natal de Bengala Occidental (India) cuando sólo tenía 10 años, Amartya Sen ha dedicado la mayor parte de su vida a comprender, medir y combatir la pobreza. La justicia es la piedra angular de su pensamiento, que combina la economía con la filosofía. Experto también en políticas de desarrollo y globalización, contribuyó a crear el Índice de Desarrollo Humano que publica Naciones Unidas y que mide el bienestar de las naciones no por su producto interior bruto, sino por otras variables económicas y sociales. En 1998 recibió el premio Nobel de Economía por sus investigaciones sobre el bienestar económico.
La noticia en otros webs
webs en español
en otros idiomas
"En la cultura del capitalismo financiero ha faltado contención"
"La gente ha utilizado la codicia de manera imprudente"
"La disminución del gasto social va a ralentizar la lucha contra la pobreza"
"El reto de Obama será distinguir entre buenos y malos consejos"
Este hombre sabio y sencillo ha sido llamado "la conciencia de la profesión" por el fuerte acento social de su trabajo. Actualmente imparte lecciones en Cambridge y en Harvard, y asesora a gobiernos e instituciones sobre cómo afrontar las actuales turbulencias económicas. En vísperas de ser investido doctor honoris causa por la Universidad Complutense de Madrid, habló con EL PAÍS de las causas y los efectos de la crisis.
Pregunta. ¿Qué lecciones podemos aprender de la situación que estamos viviendo?
Respuesta. Podemos aprender muchas lecciones distintas. Una de ellas es que necesitamos una buena alianza entre el Estado y el mercado. No podemos depender exclusivamente de la economía de mercado; el Estado también tiene un papel que desempeñar. El origen de esta crisis está en el desmantelamiento de la regulación en EE UU bajo la presidencia de Bush y, hasta cierto punto, de las presidencias de Clinton y de Reagan. Durante esos años se eliminaron mecanismos de control que hubieran limitado la creación de activos tóxicos como los que han arruinado el sistema bancario. Esos controles hubieran sido muy importantes porque ahora existen muchos mercados secundarios, como el de derivados y otros, que permiten a quienes generan esos activos tóxicos pasarlos a otros y quitarse de encima la responsabilidad. Ha habido una enorme falta de responsabilidad y necesitamos que el Estado establezca la regulación necesaria.
P. ¿Estamos ante un fracaso de la economía de mercado?
R. El mercado puede ser un instrumento dinámico de progreso económico, eso hay que reconocerlo. No hay razón para prescindir de él, pero hay que regular su funcionamiento. Hay gente que piensa que la búsqueda del beneficio es la única clave del éxito de la economía de mercado, pero eso nunca ha sido así. La economía de mercado necesita confianza mutua, y cuando ésta se destruye, como estamos viendo ahora, es muy difícil regenerarlo. Porque lo que comenzó como una pequeña crisis ha ido agrandándose debido a la profunda desconfianza de las instituciones financieras hacia el resto de la economía. Por eso, a pesar de la inyección de dinero, el mercado de crédito continúa en su mayor parte congelado. Adam Smith, a quien se cita con frecuencia para defender la economía de mercado y la búsqueda del beneficio, habló con gran detalle de por qué es importante tener otras motivaciones además de lo que él llamaba self-love, del que la búsqueda del beneficio sería sólo una parte. También se necesitan confianza, vocación pública y generosidad. El éxito de la economía de mercado depende de un conjunto de motivaciones distintas.
P. ¿Hasta qué punto ha sido la codicia un factor desencadenante de la crisis?
R. No sirve de nada culpar sólo a la codicia del mal funcionamiento de los mercados. No pongo en duda que el interés propio haya sido un factor importante, pero mi argumento es que hay otras motivaciones. En algunas sociedades -dependiendo de las oportunidades, los incentivos y la cultura-, la gente busca el beneficio propio más que en otras, en las que hay más confianza mutua y más contención. Lo que estamos viviendo no es sólo una muestra de codicia, porque la codicia está en todas partes, sino la desaparición de otras motivaciones de las que habla Adam Smith: compasión, generosidad, vocación pública, compromiso... En la búsqueda de dinero rápido hay gente dispuesta a asumir enormes riesgos. Hablamos de gente que puede hacer daño, y eso es precisamente lo que preocupaba a Adam Smith hace 240 años. Hasta qué punto la contención la genera la cultura es un debate abierto. En algunas culturas existe, pero en la cultura norteamericana de capitalismo financiero ha estado muy poco presente.
P. ¿Es la crisis actual también una crisis moral?
R. Toda crisis humana es una crisis moral. Mi respuesta a su pregunta es sí, pero sólo hasta cierto punto. Ésta es una crisis moral en el sentido de que la gente ha utilizado la codicia de manera imprudente, haciéndose daño a sí misma y a los demás. Muchas instituciones han caído, mucha gente está en la ruina. Se trata de una crisis de prudencia, además de una crisis moral. También es una crisis de control social, ya que podía haberse evitado si hubieran existido controles.
P. La crisis ha estallado justo cuando China, India y muchos países latinoamericanos parecían entrar en una fase de crecimiento estable y de consolidación de sus clases medias. ¿Estamos ante un frenazo en la lucha contra la pobreza?
R. Hasta cierto punto, sí. El crecimiento de China, India y Brasil está ralentizándose, aunque los ritmos de crecimiento son todavía respetables. La gente con rentas bajas, cuyo número ha caído rápidamente en China y en menor medida en India, se está viendo afectada. Pero es más importante el hecho de que van a disminuir los recursos que los Gobiernos destinan a servicios sociales como la sanidad y la educación. Todo ello ralentizará la reducción de la pobreza.
P. ¿Qué efecto va a tener la crisis en la globalización?
R. Depende de lo que entendamos por globalización. ¡Hay tantas acepciones del término! La globalización de los mercados se va a reducir, pero, por otro lado, se habla mucho de pensar globalmente sobre la crisis. Va a aumentar la globalización de las ideas. El FMI, el Banco Mundial y las demás instituciones surgidas de Bretton Woods necesitan una revisión profunda, pues nacieron en la década de los cuarenta del siglo pasado y el mundo ha cambiado. En estos momentos hay intentos muy serios de reformar la arquitectura financiera. Cada vez está más claro que la estabilidad financiera es un bien común y que, por tanto, necesitamos hacer un esfuerzo coordinado para conseguirla. En resumen, al nivel de acciones gubernamentales y de ideas para la acción, habrá más globalización; en términos de comercio y de mercados, habrá menos.
P. ¿Cómo ve el cambio en la presidencia de EE UU? ¿Qué puede el mundo esperar de Obama?
R. Obama está haciendo bien muchas cosas. La economía no es su única prioridad. También tiene que hacerse cargo del problema del terrorismo en el mundo, de Afganistán, y tiene que hacer algo en Oriente Próximo, en particular con las relaciones entre israelíes y palestinos. Obama no es economista. Sé que muchos periodistas como usted piensan que los economistas no saben mucho [ríe], pero el hecho es que sí saben y que Obama es abogado, aunque un abogado muy brillante. Está buscando consejo de los expertos para manejar la crisis. Ya han surgido algunas ideas interesantes y deberán surgir más. Espero que sus asesores, que son gente inteligente, sean capaces de darle buenos consejos. El reto de Obama será, como persona inteligente que es, distinguir entre buenos y malos consejos. -
"Necesitamos una alianza entre el Estado y el mercado"
Nació en un campus universitario y su vida ha sido un ir y venir de universidad en universidad. Recibió sus primeras lecciones en Visva-Bharati, una escuela y universidad fundada por el filósofo y escritor Rabindranath Tagore en la que su abuelo materno enseñaba historia de India. El propio Tagore ayudó a elegir su nombre de pila, que significa "inmortal" en sánscrito. Testigo de la hambruna de 1943 en su Estado natal de Bengala Occidental (India) cuando sólo tenía 10 años, Amartya Sen ha dedicado la mayor parte de su vida a comprender, medir y combatir la pobreza. La justicia es la piedra angular de su pensamiento, que combina la economía con la filosofía. Experto también en políticas de desarrollo y globalización, contribuyó a crear el Índice de Desarrollo Humano que publica Naciones Unidas y que mide el bienestar de las naciones no por su producto interior bruto, sino por otras variables económicas y sociales. En 1998 recibió el premio Nobel de Economía por sus investigaciones sobre el bienestar económico.
La noticia en otros webs
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"En la cultura del capitalismo financiero ha faltado contención"
"La gente ha utilizado la codicia de manera imprudente"
"La disminución del gasto social va a ralentizar la lucha contra la pobreza"
"El reto de Obama será distinguir entre buenos y malos consejos"
Este hombre sabio y sencillo ha sido llamado "la conciencia de la profesión" por el fuerte acento social de su trabajo. Actualmente imparte lecciones en Cambridge y en Harvard, y asesora a gobiernos e instituciones sobre cómo afrontar las actuales turbulencias económicas. En vísperas de ser investido doctor honoris causa por la Universidad Complutense de Madrid, habló con EL PAÍS de las causas y los efectos de la crisis.
Pregunta. ¿Qué lecciones podemos aprender de la situación que estamos viviendo?
Respuesta. Podemos aprender muchas lecciones distintas. Una de ellas es que necesitamos una buena alianza entre el Estado y el mercado. No podemos depender exclusivamente de la economía de mercado; el Estado también tiene un papel que desempeñar. El origen de esta crisis está en el desmantelamiento de la regulación en EE UU bajo la presidencia de Bush y, hasta cierto punto, de las presidencias de Clinton y de Reagan. Durante esos años se eliminaron mecanismos de control que hubieran limitado la creación de activos tóxicos como los que han arruinado el sistema bancario. Esos controles hubieran sido muy importantes porque ahora existen muchos mercados secundarios, como el de derivados y otros, que permiten a quienes generan esos activos tóxicos pasarlos a otros y quitarse de encima la responsabilidad. Ha habido una enorme falta de responsabilidad y necesitamos que el Estado establezca la regulación necesaria.
P. ¿Estamos ante un fracaso de la economía de mercado?
R. El mercado puede ser un instrumento dinámico de progreso económico, eso hay que reconocerlo. No hay razón para prescindir de él, pero hay que regular su funcionamiento. Hay gente que piensa que la búsqueda del beneficio es la única clave del éxito de la economía de mercado, pero eso nunca ha sido así. La economía de mercado necesita confianza mutua, y cuando ésta se destruye, como estamos viendo ahora, es muy difícil regenerarlo. Porque lo que comenzó como una pequeña crisis ha ido agrandándose debido a la profunda desconfianza de las instituciones financieras hacia el resto de la economía. Por eso, a pesar de la inyección de dinero, el mercado de crédito continúa en su mayor parte congelado. Adam Smith, a quien se cita con frecuencia para defender la economía de mercado y la búsqueda del beneficio, habló con gran detalle de por qué es importante tener otras motivaciones además de lo que él llamaba self-love, del que la búsqueda del beneficio sería sólo una parte. También se necesitan confianza, vocación pública y generosidad. El éxito de la economía de mercado depende de un conjunto de motivaciones distintas.
P. ¿Hasta qué punto ha sido la codicia un factor desencadenante de la crisis?
R. No sirve de nada culpar sólo a la codicia del mal funcionamiento de los mercados. No pongo en duda que el interés propio haya sido un factor importante, pero mi argumento es que hay otras motivaciones. En algunas sociedades -dependiendo de las oportunidades, los incentivos y la cultura-, la gente busca el beneficio propio más que en otras, en las que hay más confianza mutua y más contención. Lo que estamos viviendo no es sólo una muestra de codicia, porque la codicia está en todas partes, sino la desaparición de otras motivaciones de las que habla Adam Smith: compasión, generosidad, vocación pública, compromiso... En la búsqueda de dinero rápido hay gente dispuesta a asumir enormes riesgos. Hablamos de gente que puede hacer daño, y eso es precisamente lo que preocupaba a Adam Smith hace 240 años. Hasta qué punto la contención la genera la cultura es un debate abierto. En algunas culturas existe, pero en la cultura norteamericana de capitalismo financiero ha estado muy poco presente.
P. ¿Es la crisis actual también una crisis moral?
R. Toda crisis humana es una crisis moral. Mi respuesta a su pregunta es sí, pero sólo hasta cierto punto. Ésta es una crisis moral en el sentido de que la gente ha utilizado la codicia de manera imprudente, haciéndose daño a sí misma y a los demás. Muchas instituciones han caído, mucha gente está en la ruina. Se trata de una crisis de prudencia, además de una crisis moral. También es una crisis de control social, ya que podía haberse evitado si hubieran existido controles.
P. La crisis ha estallado justo cuando China, India y muchos países latinoamericanos parecían entrar en una fase de crecimiento estable y de consolidación de sus clases medias. ¿Estamos ante un frenazo en la lucha contra la pobreza?
R. Hasta cierto punto, sí. El crecimiento de China, India y Brasil está ralentizándose, aunque los ritmos de crecimiento son todavía respetables. La gente con rentas bajas, cuyo número ha caído rápidamente en China y en menor medida en India, se está viendo afectada. Pero es más importante el hecho de que van a disminuir los recursos que los Gobiernos destinan a servicios sociales como la sanidad y la educación. Todo ello ralentizará la reducción de la pobreza.
P. ¿Qué efecto va a tener la crisis en la globalización?
R. Depende de lo que entendamos por globalización. ¡Hay tantas acepciones del término! La globalización de los mercados se va a reducir, pero, por otro lado, se habla mucho de pensar globalmente sobre la crisis. Va a aumentar la globalización de las ideas. El FMI, el Banco Mundial y las demás instituciones surgidas de Bretton Woods necesitan una revisión profunda, pues nacieron en la década de los cuarenta del siglo pasado y el mundo ha cambiado. En estos momentos hay intentos muy serios de reformar la arquitectura financiera. Cada vez está más claro que la estabilidad financiera es un bien común y que, por tanto, necesitamos hacer un esfuerzo coordinado para conseguirla. En resumen, al nivel de acciones gubernamentales y de ideas para la acción, habrá más globalización; en términos de comercio y de mercados, habrá menos.
P. ¿Cómo ve el cambio en la presidencia de EE UU? ¿Qué puede el mundo esperar de Obama?
R. Obama está haciendo bien muchas cosas. La economía no es su única prioridad. También tiene que hacerse cargo del problema del terrorismo en el mundo, de Afganistán, y tiene que hacer algo en Oriente Próximo, en particular con las relaciones entre israelíes y palestinos. Obama no es economista. Sé que muchos periodistas como usted piensan que los economistas no saben mucho [ríe], pero el hecho es que sí saben y que Obama es abogado, aunque un abogado muy brillante. Está buscando consejo de los expertos para manejar la crisis. Ya han surgido algunas ideas interesantes y deberán surgir más. Espero que sus asesores, que son gente inteligente, sean capaces de darle buenos consejos. El reto de Obama será, como persona inteligente que es, distinguir entre buenos y malos consejos. -
Advogada pede respeito à lei em Guantánamo
A Folha de São Paulo de 08 de fevereiro de 2009
Advogada pede respeito à lei em Guantánamo
Para americana descendente de afegãos que trabalhou na prisão em base militar dos EUA, maioria dos detentos é inocente
Uma das poucas capazes de falar com os presos em sua língua, Mahvish Khan diz que tribunais imparciais devem julgar detentos
"Havia alguns homens muito maus na baía de Guantánamo", conta a jovem advogada norte-americana de ascendência afegã Mahvish Rukhsana Khan em seu "Diário de Guantánamo".
E lista os exemplos de Khaled Sheik Mohammad, considerado o cérebro dos ataques de 11 de Setembro, e Ramzi Binalshibh, colega de quarto do líder do sequestro dos aviões na ocasião, Mohammad Atta.
Porém, os primeiros detentos com quem teve contato, ao ser aceita como advogada num grupo que representava prisioneiros do campo americano em Cuba, não pareciam uma ameaça aos EUA ou ao mundo.
Entre as histórias que recolheu, estão a do pediatra que trabalhara na reconstrução política do Afeganistão com o regime de Hamid Karzai e a de um idoso que mal conseguia se movimentar, mas, ainda assim, era mantido algemado ao chão.
Os pais de Khan, 30, são afegãos residentes nos EUA, e ela foi criada de modo conservador. Apesar de ter nascido em Michigan e cursado direito na Universidade de Miami, seguia as tradições que regram a vida das mulheres no país dos pais.
Idealista, interessou-se em ver de perto Guantánamo para investigar até que ponto o governo de seu país desrespeitava os direitos humanos ao manter ali presos sem julgamento.
Juntou-se a um grupo de advogados e iniciou uma série de visitas à prisão. Entre eles, destacava-se por ser praticamente a única pessoa que podia falar com os detentos afegãos, pois dominava a língua pashtu.
Percebeu que um dos principais problemas do lugar era que, justamente, ninguém se entendia. Nem oficiais e prisioneiros, tampouco estes e seus advogados. Sua atuação, assim, foi muito importante em diversos processos. Agora, ela conta algumas de suas histórias em livro recém-lançado no Brasil pela Larousse.
Leia abaixo trechos da entrevista que ela concedeu à Folha.
FOLHA - Além da vigilância e da desconfiança por parte do Exército dos EUA, os advogados americanos que trabalham em Guantánamo ainda têm de fazer com que os detentos confiem neles. O que há de gratificante nesse duplo esforço?
MAHVISH RUKHSANA KHAN - É natural que os presos, inicialmente, não confiem em alguém que é pago para defendê-los pelo mesmo governo que os mantêm ali. Muitos estão há mais de sete anos sendo interrogados e torturados por indivíduos do mesmo país de onde nós viemos. Há os que inclusive creem que seus advogados são interrogadores disfarçados.
O esforço vale a pena. Não só porque nós, advogados, sejamos, talvez, a única face positiva da América e do Ocidente que esses homens vão encontrar em suas vidas. Mas também porque podemos convencê-los de que nosso trabalho é a única chance que têm de fazer suas histórias serem ouvidas fora do campo e de questionar sua detenção ilegal.
FOLHA - Por que você se interessou em trabalhar com Guantánamo?
KHAN - Quando estudava direito, me chamou a atenção o processo por meio do qual Washington desviara tecnicamente de princípios constitucionais para criar o campo de detenção. Meu senso de indignação com relação ao fato de que ali pessoas eram presas sem serem formalmente acusadas foi crescendo. Percebi que era algo criminoso e medieval.
A cadeia foi construída em Cuba para excluí-la do território em que os fundamentos da América vigoram. Tornou-se um buraco negro.
Eu não sabia se os homens ali eram bons ou maus, mas tinha a convicção de que não deveriam ser tratados fora da lei, com desrespeito aos direitos humanos. Apenas um julgamento imparcial pode separar uns dos outros.
FOLHA - Ter ascendência afegã e falar pashtu a fez mais sensível que os ocidentais ao julgar a situação? Ou a proximidade cultural pode ter comprometido seu senso crítico?
KHAN - Minha percepção sobre a inocência ou a culpa dos detentos não foi influenciada por minha origem. Fui a Guantánamo esperando encontrar terroristas. Na primeira viagem, em 2006, estava assustada. Achava que veria fabricantes de bombas, membros da Al Qaeda e do Taleban. Porém, o primeiro homem com quem falei era um pediatra que estava tão nervoso quanto eu. Era Ali Shah Mousovi, 43. Os militares alegavam que ele era do Taleban, embora houvesse provas de que ele tinha trabalhado para a ONU na instalação do regime democrático de Hamid Karzai.
Mousovi era xiita (minoria muçulmana perseguida pelo Taleban) e ainda assim era acusado de ter ligações com o Taleban. Sua mulher era uma economista e ambos tinham três crianças pequenas que haviam levado para o Irã quando fugiram justamente do regime opressor do Taleban. Depois de três anos em Guantánamo, ele foi solto sem jamais receber uma condenação.
Minha proximidade cultural e linguística me permitiu interagir de modo mais pessoal com os prisioneiros. Mas, assim como os outros advogados, meu interesse não era descobrir quem era culpado ou inocente. Só pedíamos que todos os prisioneiros fossem levados a julgamento. Nenhum dos presos que encontrei em Guantánamo foi formalmente acusado. A prisão tinha cerca de 770 em seu momento mais ativo [hoje são 245]. Deles, apenas 20 foram realmente condenados.
FOLHA - Por que você considera que provavelmente a maioria dos presos de Guantánamo é inocente?
KHAN - A questão das recompensas oferecidas pelos militares americanos é um fato que não pode ser subestimado. Foram jogados sobre o Afeganistão milhares de anúncios que ofereciam US$ 25 mil para quem indicasse alguém que tivesse relação com a Al Qaeda ou o Taleban. É uma quantia assombrosa para a economia de uma família afegã média.
Criou-se logo um mercado negro de denúncias, agravado pelo fato de que se trata de um país que tem um histórico de lutas tribais antigo. Quase nunca o Exército americano investigava as acusações. Só 5% dos presos em Guantánamo resultam de investigações dos serviços de inteligência dos EUA.
Essas informações me levaram a concluir que grande parte dos presos lá é inocente.
FOLHA - Que conselho você daria a Barack Obama para fechar a prisão? KHAN - Eu diria que ele deve seguir a lei, só isso. Julgar e condenar os culpados e libertar os inocentes. Os condenados devem ser julgados por tribunais imparciais, e não por militares. E não se deve temer realizar esses processos em solo americano.
FOLHA - Se todos os prisioneiros de Guantánamo forem soltos hoje, sem julgamento, qual a chance imediata de novos atentados?
KHAN - Um pequeno número responde a acusações de atividades criminosas. Sem julgamento, os bons estão injustamente detidos, e há risco de se libertarem criminosos.
Advogada pede respeito à lei em Guantánamo
Para americana descendente de afegãos que trabalhou na prisão em base militar dos EUA, maioria dos detentos é inocente
Uma das poucas capazes de falar com os presos em sua língua, Mahvish Khan diz que tribunais imparciais devem julgar detentos
"Havia alguns homens muito maus na baía de Guantánamo", conta a jovem advogada norte-americana de ascendência afegã Mahvish Rukhsana Khan em seu "Diário de Guantánamo".
E lista os exemplos de Khaled Sheik Mohammad, considerado o cérebro dos ataques de 11 de Setembro, e Ramzi Binalshibh, colega de quarto do líder do sequestro dos aviões na ocasião, Mohammad Atta.
Porém, os primeiros detentos com quem teve contato, ao ser aceita como advogada num grupo que representava prisioneiros do campo americano em Cuba, não pareciam uma ameaça aos EUA ou ao mundo.
Entre as histórias que recolheu, estão a do pediatra que trabalhara na reconstrução política do Afeganistão com o regime de Hamid Karzai e a de um idoso que mal conseguia se movimentar, mas, ainda assim, era mantido algemado ao chão.
Os pais de Khan, 30, são afegãos residentes nos EUA, e ela foi criada de modo conservador. Apesar de ter nascido em Michigan e cursado direito na Universidade de Miami, seguia as tradições que regram a vida das mulheres no país dos pais.
Idealista, interessou-se em ver de perto Guantánamo para investigar até que ponto o governo de seu país desrespeitava os direitos humanos ao manter ali presos sem julgamento.
Juntou-se a um grupo de advogados e iniciou uma série de visitas à prisão. Entre eles, destacava-se por ser praticamente a única pessoa que podia falar com os detentos afegãos, pois dominava a língua pashtu.
Percebeu que um dos principais problemas do lugar era que, justamente, ninguém se entendia. Nem oficiais e prisioneiros, tampouco estes e seus advogados. Sua atuação, assim, foi muito importante em diversos processos. Agora, ela conta algumas de suas histórias em livro recém-lançado no Brasil pela Larousse.
Leia abaixo trechos da entrevista que ela concedeu à Folha.
FOLHA - Além da vigilância e da desconfiança por parte do Exército dos EUA, os advogados americanos que trabalham em Guantánamo ainda têm de fazer com que os detentos confiem neles. O que há de gratificante nesse duplo esforço?
MAHVISH RUKHSANA KHAN - É natural que os presos, inicialmente, não confiem em alguém que é pago para defendê-los pelo mesmo governo que os mantêm ali. Muitos estão há mais de sete anos sendo interrogados e torturados por indivíduos do mesmo país de onde nós viemos. Há os que inclusive creem que seus advogados são interrogadores disfarçados.
O esforço vale a pena. Não só porque nós, advogados, sejamos, talvez, a única face positiva da América e do Ocidente que esses homens vão encontrar em suas vidas. Mas também porque podemos convencê-los de que nosso trabalho é a única chance que têm de fazer suas histórias serem ouvidas fora do campo e de questionar sua detenção ilegal.
FOLHA - Por que você se interessou em trabalhar com Guantánamo?
KHAN - Quando estudava direito, me chamou a atenção o processo por meio do qual Washington desviara tecnicamente de princípios constitucionais para criar o campo de detenção. Meu senso de indignação com relação ao fato de que ali pessoas eram presas sem serem formalmente acusadas foi crescendo. Percebi que era algo criminoso e medieval.
A cadeia foi construída em Cuba para excluí-la do território em que os fundamentos da América vigoram. Tornou-se um buraco negro.
Eu não sabia se os homens ali eram bons ou maus, mas tinha a convicção de que não deveriam ser tratados fora da lei, com desrespeito aos direitos humanos. Apenas um julgamento imparcial pode separar uns dos outros.
FOLHA - Ter ascendência afegã e falar pashtu a fez mais sensível que os ocidentais ao julgar a situação? Ou a proximidade cultural pode ter comprometido seu senso crítico?
KHAN - Minha percepção sobre a inocência ou a culpa dos detentos não foi influenciada por minha origem. Fui a Guantánamo esperando encontrar terroristas. Na primeira viagem, em 2006, estava assustada. Achava que veria fabricantes de bombas, membros da Al Qaeda e do Taleban. Porém, o primeiro homem com quem falei era um pediatra que estava tão nervoso quanto eu. Era Ali Shah Mousovi, 43. Os militares alegavam que ele era do Taleban, embora houvesse provas de que ele tinha trabalhado para a ONU na instalação do regime democrático de Hamid Karzai.
Mousovi era xiita (minoria muçulmana perseguida pelo Taleban) e ainda assim era acusado de ter ligações com o Taleban. Sua mulher era uma economista e ambos tinham três crianças pequenas que haviam levado para o Irã quando fugiram justamente do regime opressor do Taleban. Depois de três anos em Guantánamo, ele foi solto sem jamais receber uma condenação.
Minha proximidade cultural e linguística me permitiu interagir de modo mais pessoal com os prisioneiros. Mas, assim como os outros advogados, meu interesse não era descobrir quem era culpado ou inocente. Só pedíamos que todos os prisioneiros fossem levados a julgamento. Nenhum dos presos que encontrei em Guantánamo foi formalmente acusado. A prisão tinha cerca de 770 em seu momento mais ativo [hoje são 245]. Deles, apenas 20 foram realmente condenados.
FOLHA - Por que você considera que provavelmente a maioria dos presos de Guantánamo é inocente?
KHAN - A questão das recompensas oferecidas pelos militares americanos é um fato que não pode ser subestimado. Foram jogados sobre o Afeganistão milhares de anúncios que ofereciam US$ 25 mil para quem indicasse alguém que tivesse relação com a Al Qaeda ou o Taleban. É uma quantia assombrosa para a economia de uma família afegã média.
Criou-se logo um mercado negro de denúncias, agravado pelo fato de que se trata de um país que tem um histórico de lutas tribais antigo. Quase nunca o Exército americano investigava as acusações. Só 5% dos presos em Guantánamo resultam de investigações dos serviços de inteligência dos EUA.
Essas informações me levaram a concluir que grande parte dos presos lá é inocente.
FOLHA - Que conselho você daria a Barack Obama para fechar a prisão? KHAN - Eu diria que ele deve seguir a lei, só isso. Julgar e condenar os culpados e libertar os inocentes. Os condenados devem ser julgados por tribunais imparciais, e não por militares. E não se deve temer realizar esses processos em solo americano.
FOLHA - Se todos os prisioneiros de Guantánamo forem soltos hoje, sem julgamento, qual a chance imediata de novos atentados?
KHAN - Um pequeno número responde a acusações de atividades criminosas. Sem julgamento, os bons estão injustamente detidos, e há risco de se libertarem criminosos.
Ustra e as torturas na Bahia
Folha de São Paulo de 08 de fevereiro de 2009
Ex-presos dizem que Ustra chefiou ação com tortura na BA
Segundo militantes do PCB, tidos como pacíficos pelo governo, coronel reformado do Exército liderou Operação Acarajé, em 75
Documentos sigilosos do antigo SNI contabilizam 42 prisões na operação e 14 condenados em 1ª instância; Ustra nega as acusações
No seu livro "Rompendo o Silêncio" (Editerra Editorial, 1987), o hoje coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, 76, escreveu: "Nossos acusadores reclamam com frequência de nossos interrogatórios. Alegam que presos inocentes eram mantidos horas sob tensão, sem dormir, sendo interrogados".
Segue: "Reclamam, também, de nossas "invasões de lares", sem mandados judiciais. É necessário explicar, porém, que não se consegue combater o terrorismo amparado nas leis normais, eficientes para um cidadão comum. Os terroristas não eram cidadãos comuns".
Ustra é associado -por partidários seus e por detratores- ao combate às organizações armadas de oposição à ditadura.
Agora, ex-presos políticos da Bahia o acusam de participação em um episódio no qual eles relatam invasão de lares, interrogatórios com espancamento e sessões de tortura com choque. O chefe da operação, afirmam, foi Ustra, que teria usado o codinome "doutor Luiz Antônio".
Acontece que nenhum dos presos na ação denominada Operação Acarajé era ligado à então já exterminada guerrilha -na expressão adotada por Ustra, ao terrorismo.
Eram militantes e simpatizantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro), também oposicionista e de esquerda, mas avesso ao emprego de armas e violência contra o regime militar -como o próprio governo da época reconhecia.
Documentos sigilosos do antigo SNI (Serviço Nacional de Informações), hoje sob guarda do Arquivo Nacional, contabilizam 42 prisões -inclusive um vereador do MDB- na Operação Acarajé e 14 condenados em primeira instância. Alguns passaram quase dois anos na cadeia pelo crime de reorganizar um partido proscrito.
As diligências ficaram a cargo do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações -Centro de Operações de Defesa Interna) da 6ª Região Militar. Na época, conclui-se pelo cruzamento de dados dos dois livros de Ustra (o outro é "A Verdade Sufocada", Editora Ser, 2007), o oficial chefiava a Seção de Operações do CIE (Centro de Informações do Exército). Cumpria missões também fora da base, Brasília.
De setembro de 1970 a janeiro de 1974, ele comandou o DOI-Codi do 2º Exército, em São Paulo. Era conhecido como "Tibiriçá". No período, ao menos 40 pessoas foram mortas naquele local, conforme o jornalista Elio Gaspari no livro "A Ditadura Encurralada" (Companhia das Letras, 2004).
No ano passado, a Justiça paulista declarou Ustra, em decisão de primeira instância, responsável por tortura e sequestro em 1972 e 1973. A ação que originou a sentença é declaratória -não implica pena ou indenização. Ustra nega as acusações e afirma que nunca torturou. Ele apelou ao Tribunal de Justiça.
"Cara de Silvio Santos"
Os detidos de 1975 contam que foram levados por homens que se apresentaram como policiais, algemaram-nos e os encapuzaram. Deram em um lugar que os militantes pensam ficar em Alagoinhas, a cerca de 120 km de Salvador.
O engenheiro Luiz Contreras, 85, teve uma costela partida pelo que ele narra ter sido um soco. Contreras diz que os torturadores prendiam fios elétricos nas suas orelhas, nos pés e no peito. "Quando gira a manivela dá uma descarga que parece que você vai desaparecer."
O operário petroquímico José Ivan Dias Pugliese, 58, lembra de ter levado choques duas vezes e de ter sido espancado.
Seu então cunhado Carlos Augusto Marighella, 60, também trabalhador da indústria petroquímica, diz que os militares jogavam água no chão para "potencializar os choques".
Filho do líder guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969), o hoje advogado Carlos Augusto permaneceu no PCB, sem aderir à luta armada.
Maria Nazaré de Lima, 58, era dirigente estudantil. Presa com a filha de um ano, ela ficou dias sem ver a menina, depois entregue a parentes. Nazaré recorda que os detidos, entre os quais seu marido, foram amarrados a uma corda única, feito caranguejos. "Se um ia defecar, todos iam. Era humilhante."
Os presos entrevistados pela Folha, separadamente, dizem que estavam de capuz durante a tortura, mas julgam não terem sido agredidos pelo "doutor Luiz Antônio". Sustentam, contudo, que ele dava os ordens mais importantes e chegava a decidir o momento em que cada um seria torturado.
Eles associaram o "doutor Luiz Antônio" a Ustra em 1985, quando o coronel foi apontado pela então deputada Bete Mendes como sendo o "Tibiriçá" do DOI-Codi. O ex-presos contam ter visto o rosto do captor nos momentos em que lhes permitiram tirar os capuzes.
Afirmam que nunca organizaram uma denúncia coletiva pública, entre outros motivos, porque em 1985 estavam politicamente distantes.
"Todo mundo o reconheceu em 1985", diz Pugliese. "Antes eu não tinha nenhuma informação para ligar o nome à pessoa. Na época, Ustra era parecidíssimo com o Silvio Santos. Ele se apresentou pela primeira vez oferecendo cigarro e conhaque. Disse: "Nós podemos tratar as coisas civilizadamente ou como na Idade da Pedra"."
"Era o Ustra", concorda Contreras. Marighella acrescenta: "Ele tem um rosto marcante e sotaque sulista". "Uma vez falou: "Quero dizer para vocês que o presidente Geisel virou a mesa. Nesse momento, em todo o Brasil, todos os corruptos e comunistas foram presos. Essa será a noite de São Bartolomeu". É como se fosse a ordem do dia. A gente imaginou que fosse uma noite de tortura, sevícias, por aí afora."
Ex-presos dizem que Ustra chefiou ação com tortura na BA
Segundo militantes do PCB, tidos como pacíficos pelo governo, coronel reformado do Exército liderou Operação Acarajé, em 75
Documentos sigilosos do antigo SNI contabilizam 42 prisões na operação e 14 condenados em 1ª instância; Ustra nega as acusações
No seu livro "Rompendo o Silêncio" (Editerra Editorial, 1987), o hoje coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, 76, escreveu: "Nossos acusadores reclamam com frequência de nossos interrogatórios. Alegam que presos inocentes eram mantidos horas sob tensão, sem dormir, sendo interrogados".
Segue: "Reclamam, também, de nossas "invasões de lares", sem mandados judiciais. É necessário explicar, porém, que não se consegue combater o terrorismo amparado nas leis normais, eficientes para um cidadão comum. Os terroristas não eram cidadãos comuns".
Ustra é associado -por partidários seus e por detratores- ao combate às organizações armadas de oposição à ditadura.
Agora, ex-presos políticos da Bahia o acusam de participação em um episódio no qual eles relatam invasão de lares, interrogatórios com espancamento e sessões de tortura com choque. O chefe da operação, afirmam, foi Ustra, que teria usado o codinome "doutor Luiz Antônio".
Acontece que nenhum dos presos na ação denominada Operação Acarajé era ligado à então já exterminada guerrilha -na expressão adotada por Ustra, ao terrorismo.
Eram militantes e simpatizantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro), também oposicionista e de esquerda, mas avesso ao emprego de armas e violência contra o regime militar -como o próprio governo da época reconhecia.
Documentos sigilosos do antigo SNI (Serviço Nacional de Informações), hoje sob guarda do Arquivo Nacional, contabilizam 42 prisões -inclusive um vereador do MDB- na Operação Acarajé e 14 condenados em primeira instância. Alguns passaram quase dois anos na cadeia pelo crime de reorganizar um partido proscrito.
As diligências ficaram a cargo do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações -Centro de Operações de Defesa Interna) da 6ª Região Militar. Na época, conclui-se pelo cruzamento de dados dos dois livros de Ustra (o outro é "A Verdade Sufocada", Editora Ser, 2007), o oficial chefiava a Seção de Operações do CIE (Centro de Informações do Exército). Cumpria missões também fora da base, Brasília.
De setembro de 1970 a janeiro de 1974, ele comandou o DOI-Codi do 2º Exército, em São Paulo. Era conhecido como "Tibiriçá". No período, ao menos 40 pessoas foram mortas naquele local, conforme o jornalista Elio Gaspari no livro "A Ditadura Encurralada" (Companhia das Letras, 2004).
No ano passado, a Justiça paulista declarou Ustra, em decisão de primeira instância, responsável por tortura e sequestro em 1972 e 1973. A ação que originou a sentença é declaratória -não implica pena ou indenização. Ustra nega as acusações e afirma que nunca torturou. Ele apelou ao Tribunal de Justiça.
"Cara de Silvio Santos"
Os detidos de 1975 contam que foram levados por homens que se apresentaram como policiais, algemaram-nos e os encapuzaram. Deram em um lugar que os militantes pensam ficar em Alagoinhas, a cerca de 120 km de Salvador.
O engenheiro Luiz Contreras, 85, teve uma costela partida pelo que ele narra ter sido um soco. Contreras diz que os torturadores prendiam fios elétricos nas suas orelhas, nos pés e no peito. "Quando gira a manivela dá uma descarga que parece que você vai desaparecer."
O operário petroquímico José Ivan Dias Pugliese, 58, lembra de ter levado choques duas vezes e de ter sido espancado.
Seu então cunhado Carlos Augusto Marighella, 60, também trabalhador da indústria petroquímica, diz que os militares jogavam água no chão para "potencializar os choques".
Filho do líder guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969), o hoje advogado Carlos Augusto permaneceu no PCB, sem aderir à luta armada.
Maria Nazaré de Lima, 58, era dirigente estudantil. Presa com a filha de um ano, ela ficou dias sem ver a menina, depois entregue a parentes. Nazaré recorda que os detidos, entre os quais seu marido, foram amarrados a uma corda única, feito caranguejos. "Se um ia defecar, todos iam. Era humilhante."
Os presos entrevistados pela Folha, separadamente, dizem que estavam de capuz durante a tortura, mas julgam não terem sido agredidos pelo "doutor Luiz Antônio". Sustentam, contudo, que ele dava os ordens mais importantes e chegava a decidir o momento em que cada um seria torturado.
Eles associaram o "doutor Luiz Antônio" a Ustra em 1985, quando o coronel foi apontado pela então deputada Bete Mendes como sendo o "Tibiriçá" do DOI-Codi. O ex-presos contam ter visto o rosto do captor nos momentos em que lhes permitiram tirar os capuzes.
Afirmam que nunca organizaram uma denúncia coletiva pública, entre outros motivos, porque em 1985 estavam politicamente distantes.
"Todo mundo o reconheceu em 1985", diz Pugliese. "Antes eu não tinha nenhuma informação para ligar o nome à pessoa. Na época, Ustra era parecidíssimo com o Silvio Santos. Ele se apresentou pela primeira vez oferecendo cigarro e conhaque. Disse: "Nós podemos tratar as coisas civilizadamente ou como na Idade da Pedra"."
"Era o Ustra", concorda Contreras. Marighella acrescenta: "Ele tem um rosto marcante e sotaque sulista". "Uma vez falou: "Quero dizer para vocês que o presidente Geisel virou a mesa. Nesse momento, em todo o Brasil, todos os corruptos e comunistas foram presos. Essa será a noite de São Bartolomeu". É como se fosse a ordem do dia. A gente imaginou que fosse uma noite de tortura, sevícias, por aí afora."
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Beck e a crise econômiva internacional
O Prof. Carlos Bruno envia-nos o seguinte artigo publicado no jornal El País de 03 de fevereiro de 2009.
ULRICH BECK
La nueva 'realpolitik' es cosmopolita
Es necesario que la humanidad sobreviva al siglo XXI sin volver a caer en la barbarie. Para eso hay que liberarse de los corsés del Estado nación y establecer los "grilletes de oro" de alianzas transnacionales
ULRICH BECK 03/02/2009
Parece que el mundo se está yendo a pique. Lo oímos hasta la saciedad. Pero esto ocurrirá, si es que ocurre, porque no es seguro, pasado mañana o el otro. En cambio, lo que sí es relativamente seguro hoy es que esta anticipación de posibles catástrofes humanas (cambio climático, crisis financiera, autodestrucción atómica...) abre una oportunidad histórica que debemos comprender y asumir: ¡una nueva realpolitik cosmopolita está en el aire!
Para que una crítica realista de las relaciones de poder pueda derivarse del concepto de cosmopolitismo, que pertenece a la tradición filosófico-política de la civilización occidental como muy tarde desde Kant, éste primero tiene que ser aclarado. Con "cosmopolita" no me refiero al concepto idealista y elitista que sirve de punta de lanza ideológica a las pretensiones de las élites y organizaciones transnacionales. Lo que está en el aire es algo totalmente distinto.
A comienzos del tercer milenio, la máxima de la realpolitik nacional, según la cual los intereses nacionales tienen que perseguirse nacionalmente, debe ser sustituida por la máxima de la realpolitik cosmopolita: cuanto más cosmopolita sea nuestra política, más nacional y exitosa será. Y cuanto más nacional sea, más condenada al fracaso estará.
Si esta crisis económica tan amenazadora no existiese, tendría que inventarse para que la canciller alemana, Angela Merkel, y su ministro de Finanzas, Peer Steinbrück, aprendieran al fin lo que sus colegas en Londres, París y Madrid, pero también el equipo del estadounidense Obama, han adoptado como consigna: quien elige el camino del nacionalismo económico actúa antipatrióticamente; se perjudica en principio a sí mismo pero al final también perjudica a todos los demás. Ésta es la dolorosa lección que aprendimos de la Gran Depresión y de la consiguiente Segunda Guerra Mundial. Así que quien crea, como la canciller alemana, que para proteger la economía alemana y los puestos de trabajo en Alemania hay que escoger entre la soberanía nacional y la ampliación política de la Unión Europea en cuestiones de mercado económico y de trabajo, no sólo establece una falsa alternativa, sino que comete, como enseña la historia de la Gran Depresión, un grave error.
En esta época de crisis y de riesgos globales sólo funciona la política de "los grilletes de oro": la creación de una densa red de alianzas y mutuas dependencias transnacionales para recuperar la soberanía nacional post-nacional y la prosperidad económica. Sólo cuando a Europa le va bien, también le va bien a Alemania. Sólo cuando al mundo le va bien, puede el primer exportador mundial que es Alemania vender sus productos. No hay ningún otro país en el que, si lo pensamos honestamente, el realismo cosmopolita coincida tan claramente con los propios intereses nacionales bien entendidos. Sencillamente no entiendo por qué esto es tan difícil de concebir. ¿Por qué, por ejemplo, la repentina liquidación, objeto de burla de todas las ideologías, de cualquier respuesta europea a la crisis económica mundial no despierta justamente en Alemania las ganas de criticar y el gusto por la ironía de los comentaristas políticos? ¿Dónde está la voz de los europeos alemanes en este momento tan decisivo?
Atravesamos la situación que Nietzsche predijo hace más de 100 años: vivimos en la edad de la comparación. Corrientes culturales contrapuestas confluyen en un mismo espacio y se mezclan, las más de las veces de manera conflictiva. El doble lenguaje, eso es, la capacidad de deshacerse de las ataduras de lo familiar; la ubicuidad de la existencia; la capacidad de interactuar más allá de las fronteras; todo esto crea una compleja maraña de lealtades fragmentadas, sin que éstas se revelen como identidades vividas espontáneamente. Sentar raíces y tener alas; unir lo provinciano con la riqueza de vivencias de una ciudadanía cosmopolita experimentada y particular; éste podría ser el denominador común civilizatorio de sociedades culturalmente heterogéneas, que serviría así para responder a la insistente pregunta elemental que todos nos hacemos: ¿qué orden requiere el mundo?
Semejante reconocimiento de la diferencia, que no hay que confundir con el multiculturalismo recetado por los Estados nacionales, abre un espacio de posibilidades multidimensional, que, sin embargo, no carece de contradicciones internas. No se trata sólo de superar los abismos entre ricos y pobres, entre norte y sur, entre los nichos de bienestar social y la depauperación. Hay más. Tampoco se trata sólo de la posibilidad o imposibilidad de un mini Estado social a escala global, un "keysenianismo globalizado", aunque éste siga limitándose a las necesidades elementales. Se trata de mucho más. El realismo cosmopolita tiene que ver con la apertura por abajo y por dentro de las instituciones de base de los Estados nacionales para los desafíos de la época global, y en cómo se lleva a cabo este proceso. Tiene que ver con el trato que reciben las minorías, los extranjeros, los marginados. Con el problema que plantean los derechos humanos de los distintos grupos tanto en la consolidación como en la reforma de la democracia en el espacio transnacional. Y, sobre todo, con la cuestión de cómo pueden evitarse los estallidos de violencia que surgen de las decepciones y la degradación de las personas.
El realismo cosmopolita une así el respeto por la dignidad de la diferencia cultural con el interés por la supervivencia de cada individuo. La realpolitik cosmopolita, entendida de ese modo, es la siguiente gran idea que cabe ensayar tras las ideas históricamente desgastadas del nacionalismo, el comunismo, el socialismo y el neoliberalismo. Podría hacer posible lo improbable: que la humanidad sobreviva al siglo XXI sin recaer en la barbarie.
En este contexto, el problema principal de las ciencias sociales es que plantean las preguntas equivocadas. Las preguntas directrices de las teorías sociales están la mayoría de ellas orientadas a la estabilidad y a la configuración del orden, y no a lo que estamos experimentando y, por lo tanto, debemos comprender: un cambio epocal y discontinuo de la sociedad en la modernidad.
Llamar retrospectivamente primera modernidad a la totalidad del mundo de las ideas sobre la economía, la sociedad y la política fundadas con el Estado nación, y separarla de una todavía desdibujada segunda modernidad -que se define por las crisis económicas y ecológicas globales, las cada vez más agudas desigualdades, la individualización, el frágil trabajo retribuido y precisamente los desafíos de la globalización cultural, política y militar-, sirve para el objetivo de superar el "reflejo proteccionista", que paraliza intelectual y políticamente a Europa tras el desmoronamiento del orden mundial bipolar.
Habría que descifrar cómo se transforman las supuestamente tan estables ideas directrices y coordenadas del cambio, a la vez que las bases y conceptos fundamentales del poder y la dominación, la legitimación y la violencia, la economía, el Estado y la política. Hasta ahora ha sido válida la idea de que los poderosos crearon la globalización para ir en contra de los pobres. No se han impulsado interacciones entre distintas sociedades y religiones que abarquen a la totalidad de las culturas, sino que se ha impuesto una en particular en contra de las demás. El imaginario cosmopolita representa el interés universal de la humanidad en sí mismo. Es el intento de repensar la interdependencia y la reciprocidad más allá de los axiomas y la arrogancia nacionales, y concretamente en el sentido de un realismo cosmopolita, que nos abra y agudice la mirada para las desconocidas, interrelacionadas e interdependientes sociedades en las que vivimos y actuamos.
ULRICH BECK
La nueva 'realpolitik' es cosmopolita
Es necesario que la humanidad sobreviva al siglo XXI sin volver a caer en la barbarie. Para eso hay que liberarse de los corsés del Estado nación y establecer los "grilletes de oro" de alianzas transnacionales
ULRICH BECK 03/02/2009
Parece que el mundo se está yendo a pique. Lo oímos hasta la saciedad. Pero esto ocurrirá, si es que ocurre, porque no es seguro, pasado mañana o el otro. En cambio, lo que sí es relativamente seguro hoy es que esta anticipación de posibles catástrofes humanas (cambio climático, crisis financiera, autodestrucción atómica...) abre una oportunidad histórica que debemos comprender y asumir: ¡una nueva realpolitik cosmopolita está en el aire!
Para que una crítica realista de las relaciones de poder pueda derivarse del concepto de cosmopolitismo, que pertenece a la tradición filosófico-política de la civilización occidental como muy tarde desde Kant, éste primero tiene que ser aclarado. Con "cosmopolita" no me refiero al concepto idealista y elitista que sirve de punta de lanza ideológica a las pretensiones de las élites y organizaciones transnacionales. Lo que está en el aire es algo totalmente distinto.
A comienzos del tercer milenio, la máxima de la realpolitik nacional, según la cual los intereses nacionales tienen que perseguirse nacionalmente, debe ser sustituida por la máxima de la realpolitik cosmopolita: cuanto más cosmopolita sea nuestra política, más nacional y exitosa será. Y cuanto más nacional sea, más condenada al fracaso estará.
Si esta crisis económica tan amenazadora no existiese, tendría que inventarse para que la canciller alemana, Angela Merkel, y su ministro de Finanzas, Peer Steinbrück, aprendieran al fin lo que sus colegas en Londres, París y Madrid, pero también el equipo del estadounidense Obama, han adoptado como consigna: quien elige el camino del nacionalismo económico actúa antipatrióticamente; se perjudica en principio a sí mismo pero al final también perjudica a todos los demás. Ésta es la dolorosa lección que aprendimos de la Gran Depresión y de la consiguiente Segunda Guerra Mundial. Así que quien crea, como la canciller alemana, que para proteger la economía alemana y los puestos de trabajo en Alemania hay que escoger entre la soberanía nacional y la ampliación política de la Unión Europea en cuestiones de mercado económico y de trabajo, no sólo establece una falsa alternativa, sino que comete, como enseña la historia de la Gran Depresión, un grave error.
En esta época de crisis y de riesgos globales sólo funciona la política de "los grilletes de oro": la creación de una densa red de alianzas y mutuas dependencias transnacionales para recuperar la soberanía nacional post-nacional y la prosperidad económica. Sólo cuando a Europa le va bien, también le va bien a Alemania. Sólo cuando al mundo le va bien, puede el primer exportador mundial que es Alemania vender sus productos. No hay ningún otro país en el que, si lo pensamos honestamente, el realismo cosmopolita coincida tan claramente con los propios intereses nacionales bien entendidos. Sencillamente no entiendo por qué esto es tan difícil de concebir. ¿Por qué, por ejemplo, la repentina liquidación, objeto de burla de todas las ideologías, de cualquier respuesta europea a la crisis económica mundial no despierta justamente en Alemania las ganas de criticar y el gusto por la ironía de los comentaristas políticos? ¿Dónde está la voz de los europeos alemanes en este momento tan decisivo?
Atravesamos la situación que Nietzsche predijo hace más de 100 años: vivimos en la edad de la comparación. Corrientes culturales contrapuestas confluyen en un mismo espacio y se mezclan, las más de las veces de manera conflictiva. El doble lenguaje, eso es, la capacidad de deshacerse de las ataduras de lo familiar; la ubicuidad de la existencia; la capacidad de interactuar más allá de las fronteras; todo esto crea una compleja maraña de lealtades fragmentadas, sin que éstas se revelen como identidades vividas espontáneamente. Sentar raíces y tener alas; unir lo provinciano con la riqueza de vivencias de una ciudadanía cosmopolita experimentada y particular; éste podría ser el denominador común civilizatorio de sociedades culturalmente heterogéneas, que serviría así para responder a la insistente pregunta elemental que todos nos hacemos: ¿qué orden requiere el mundo?
Semejante reconocimiento de la diferencia, que no hay que confundir con el multiculturalismo recetado por los Estados nacionales, abre un espacio de posibilidades multidimensional, que, sin embargo, no carece de contradicciones internas. No se trata sólo de superar los abismos entre ricos y pobres, entre norte y sur, entre los nichos de bienestar social y la depauperación. Hay más. Tampoco se trata sólo de la posibilidad o imposibilidad de un mini Estado social a escala global, un "keysenianismo globalizado", aunque éste siga limitándose a las necesidades elementales. Se trata de mucho más. El realismo cosmopolita tiene que ver con la apertura por abajo y por dentro de las instituciones de base de los Estados nacionales para los desafíos de la época global, y en cómo se lleva a cabo este proceso. Tiene que ver con el trato que reciben las minorías, los extranjeros, los marginados. Con el problema que plantean los derechos humanos de los distintos grupos tanto en la consolidación como en la reforma de la democracia en el espacio transnacional. Y, sobre todo, con la cuestión de cómo pueden evitarse los estallidos de violencia que surgen de las decepciones y la degradación de las personas.
El realismo cosmopolita une así el respeto por la dignidad de la diferencia cultural con el interés por la supervivencia de cada individuo. La realpolitik cosmopolita, entendida de ese modo, es la siguiente gran idea que cabe ensayar tras las ideas históricamente desgastadas del nacionalismo, el comunismo, el socialismo y el neoliberalismo. Podría hacer posible lo improbable: que la humanidad sobreviva al siglo XXI sin recaer en la barbarie.
En este contexto, el problema principal de las ciencias sociales es que plantean las preguntas equivocadas. Las preguntas directrices de las teorías sociales están la mayoría de ellas orientadas a la estabilidad y a la configuración del orden, y no a lo que estamos experimentando y, por lo tanto, debemos comprender: un cambio epocal y discontinuo de la sociedad en la modernidad.
Llamar retrospectivamente primera modernidad a la totalidad del mundo de las ideas sobre la economía, la sociedad y la política fundadas con el Estado nación, y separarla de una todavía desdibujada segunda modernidad -que se define por las crisis económicas y ecológicas globales, las cada vez más agudas desigualdades, la individualización, el frágil trabajo retribuido y precisamente los desafíos de la globalización cultural, política y militar-, sirve para el objetivo de superar el "reflejo proteccionista", que paraliza intelectual y políticamente a Europa tras el desmoronamiento del orden mundial bipolar.
Habría que descifrar cómo se transforman las supuestamente tan estables ideas directrices y coordenadas del cambio, a la vez que las bases y conceptos fundamentales del poder y la dominación, la legitimación y la violencia, la economía, el Estado y la política. Hasta ahora ha sido válida la idea de que los poderosos crearon la globalización para ir en contra de los pobres. No se han impulsado interacciones entre distintas sociedades y religiones que abarquen a la totalidad de las culturas, sino que se ha impuesto una en particular en contra de las demás. El imaginario cosmopolita representa el interés universal de la humanidad en sí mismo. Es el intento de repensar la interdependencia y la reciprocidad más allá de los axiomas y la arrogancia nacionales, y concretamente en el sentido de un realismo cosmopolita, que nos abra y agudice la mirada para las desconocidas, interrelacionadas e interdependientes sociedades en las que vivimos y actuamos.
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