domingo, 5 de abril de 2009

A questão urbana no século XVI e em Bauaman

Folha de São Paulo de 05 de abril de 2009

Um lugar pra chamar de seu
DOIS ESTUDOS INVESTIGAM OS SENTIDOS SOCIAL, PSICOLÓGICO E CULTURAL DAS CIDADES NO RENASCIMENTO E NO SÉCULO 21

As cidades estão na ordem do dia, sobretudo as grandes cidades. Qual será a explicação, ou melhor, as explicações para esse protagonismo?
Uma hipótese, entre outras, é que as cidades possuem atributos concretos por meio dos quais é possível avaliar as fortes e abrangentes transformações que estão em andamento em todas as esferas da organização da sociedade.
É no interior das cidades que estão se reorganizando as atividades produtivas, cujas dimensões espaciais, sociais e culturais ganham forma.
Seu caráter intrinsecamente ambivalente e material é, justamente, o tema de dois livros que se situam no interior de um grande arco de tempo que tem o ponto de partida no século 15 e o de chegada na primeira década do século 21.
Estão aí presentes cinco séculos decisivos para a história da cidade.
Nos dois extremos desse percurso situam-se "A Cidade do Primeiro Renascimento", de Donatella Calabi, arquiteta e professora no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, e "Confiança e Medo na Cidade", do sociólogo Zigmunt Bauman.
Professor nas universidades de Leeds e Varsóvia, é um dos mais profícuos autores da atualidade, com 17 livros já publicados no Brasil.

Pontos distintos
Embora muito diferentes nas suas abordagens, ambos se situam em pontos distintos de um processo marcado por mudanças no quadro físico que as cidades experimentaram.
Numa ponta situa-se o período identificado como primeiro Renascimento, patrocinado por príncipes que entenderam e exerceram com energia o poder a partir da edificação de espaços urbanos "mais organizados" no século 15.
Na outra, os espaços da cidade contemporânea, que Bauman aponta como pós-moderna, regidos por príncipes multinacionais e globalizados cujas manifestações iniciais ocorreram no final do século 20.
Enquanto Calabi utiliza instrumentos de análise que destacam a articulação entre os aspectos físicos e ideológicos das operações urbanas praticadas no século 15 europeu, Bauman aponta para a experiência desprovida de urbanidade que caracteriza a vida na cidade contemporânea.
Entretanto, é indiscutível que ambos analisam de forma distinta um mesmo tema: as relações entre cidade e a sociedade. Nos dois casos fica evidente o acerto da análise de Manuel Castells [sociólogo espanhol] quando diz que a cidade não pode nunca ser vista como mero reflexo da sociedade, mas o seu principal instrumento de realização.
Percorrendo os dois livros em sentido cronológico inverso, isto é, do texto de Bauman para o de Calabi, somos obrigados a constatar o malogro no modo de organização e de vida nas cidades.
Os temas atuais abordados por Bauman -o medo, a dificuldade de convívio entre indivíduos diferentes, a mixofobia, entre outros- revelam o considerável fracasso do "modus convivendi" nas cidades contemporâneas. Bauman apoia seus argumentos em importantes contribuições teóricas que procuram apreender a natureza da cidade contemporânea.
Ele apenas aflora conceitos centrais da vida urbana contemporânea, elaborados por autores do porte de Manuel Castells, Richard Sennett, Robert Castel, Peter Hall e muitos outros, produzindo um inteligente texto ensaístico de divulgação.
Calabi segue um modelo distinto para apresentar os elementos que compõem a cidade e o ideário urbano e político utilizado no século 15.
Ela descreve o remanejamento de velhas estruturas medievais e as adaptações que inauguram as manifestações da cidade moderna. Deixa bem claro, embora enfatize a dimensão urbana, o quanto naquele momento a cidade foi "uma razão de Estado", como aponta Walter Benjamin.
Comprometida com uma abordagem acadêmica, Calabi explora os atributos físicos, espaciais, simbólicos e teóricos que presidiram a construção da cidade da primeira fase da Renascença.

Técnicas de construção
Acompanhamos no seu texto a história dos modos de utilização das técnicas construtivas em favor da vida urbana.
No interior do perímetro das muralhas medievais, cuja função se extinguiu com a invenção da pólvora, ganha força um conjunto de transformações físicas que modificavam profundamente a organização urbana.
Retificação e alargamento das tortuosas ruas medievais, abertura de praças e edificação de pontes abrem espaço para a vida coletiva, reorganizam o tecido urbano medieval, buscando torná-lo mais representativo da organização pós-medieval. Isso implicou a criação de uma monumentalidade que colocava toda a cidade em evidência, deixando claro que ela não é apenas a imagem da vontade do príncipe, mas um poderoso instrumento de seu exercício de poder.

Ambivalência
Apesar dos poucos pontos em comum no que se refere ao método de abordagem, nos dois textos há questões que os conduzem a um mesmo objetivo: entender o sentido da urbanidade, concebida como experiência social, psicológica e cultural que nasce dentro do espaço concreto das cidades.
O caráter ambivalente da cidade grafado no título do livro de Bauman nasce justamente da necessidade de colocar a grande cidade no centro do debate sobre o mundo contemporâneo, admitindo todos os seus problemas.
Afinal, a confiança nelas, como defende Bauman, nasce justamente da possibilidade de reestruturá-las como ocorreu no século 15, quando se organizaram as primeiras manifestações da cidade moderna, almejando formas de convívio mais harmônicas

Francisco de Oliveira e a crise econômica

Profa Graça Freitas envia a seguinte noticia




Carta Maior, 05 de Abril de 2009


Carta Maior lança debate: o Marxismo e o Século XXI

A Carta Maior lança a partir de hoje um seminário virtual sobre a obra de Karl Marx
e os problemas que afetam a humanidade neste início do século XXI. Diante da grave
crise econômica, política e social, decorrente das políticas do modelo neoliberal
implementado nas últimas décadas no mundo, o pensamento do autor alemão voltou à
ordem do dia. A nova editoria terá a curadoria do professor Francisco de Oliveira,
que escreverá e convidará, mensalmente, intelectuais para abordar o tema num debate
que se estenderá até o final do ano e procurará ofecerer respostas à pergunta: o que
Marx tem a dizer sobre os problemas do século XXI?

Francisco de Oliveira - Texto de apresentação

O marxismo seguramente foi a doutrina mais importante do século XX, no amplo sentido
de um "campo" (Bourdieu) ou ainda no sentido de ideologia (Gramsci) e não no dos
próprios Marx e Engels.(como doutrina dominante da classe dominante.) A tal ponto
que se pode dizer que o século XX foi o século do marxismo.

A partir das formulações originais da dupla Marx-Engels, o marxismo foi se
constituindo numa concepção de história, numa visão de mundo, numa prática de luta,
numa política, diretamente na crítica ao capitalismo, seu inimigo figadal. Desde o
século XIX, formações partidárias nitidamente operárias criaram-se inspiradas nas
idéias da dupla, tais como o prestigioso Partido Social-Democrata alemão, do qual o
próprio Engels foi militante e dirigente, e o Partido Socialista Operário Espanhol.
Todos os demais partidos de origem operária na Europa Ocidental, e mesmo na Índia,
tinham o marxismo como sua orientação teórico-prática mais consistente.

Deve-se dizer, sem apologia acrítica, que esse vasto campo construiu-se cheio de
contradições, que fizeram sua riqueza, até que a mão pesada do Partido Bolchevique,
vitorioso na Revolução de 1917, em seguida Partido Comunista da URSS, converteu o
marxismo num dogma, e matou, em grande medida, sua capacidade criadora, que requer,
antes de tudo, sua própria autocrítica. O marxismo havia chegado à Rússia pelas mãos
de teóricos do calibre de Plekhanov, e deu origem imediatamente a um movimento
político que tomou explicitamente a forma de partido lutando pela Revolução e pelo
poder, com seus dirigentes que se transformaram em condotiere mundiais, Lênin e
Trotsky, para citar apenas estes.

Todos os partidos de origem operária o tinham como sua referência principal, salvo,
talvez, e ironicamente, o Partido Trabalhista britânico onde o fabianismo e a
rejeição à revolução logo dominaram a cena trabalhista inglesa, na contramão de Marx
que havia pensado que o crescimento do operariado faria aparecer um pensamento e uma
prática revolucionárias. Mas nunca deixou de haver não só uma fração de trabalhistas
ingleses marxistas, como uma tradição teórica sobretudo na área da História, como o
prova até hoje, Hobsbawm, e ontem, Laski, na teoria política. Mas a contribuição do
velho Labour para a formação das políticas do Estado do Bem-Estar talvez tenha sido
a mais importante. Esse vasto movimento chegou até às ex-colônias. O Brasil conheceu
a formação de seu Partido Comunista já em 1922.

Mesmo refluindo das posições revolucionárias, os partidos de origem social-democrata
mais que influenciar, de fato, inseriram as lutas sociais para sempre na política.
Todo o vasto movimento do Estado do Bem-Estar radicou na capacidade de operação dos
partidos de origem operária, a socialização da política a que aludia Gramsci, o que
elevou o nível de vida nos países do Ocidente capitalista a níveis que deixaram o
programa inicial de Lênin como mero exercício teórico. Aliás, o "pequeno grande
sardo" é um dos marxistas mais originais e criativos, que contribuiu poderosamente
para que o próprio marxismo entendesse e explicasse as democracias ocidentais.

Recusando-se a fazer da política uma dedução da economia - o que, infelizmente,
ocorre hoje - Gramsci, nos cárceres do fascismo mussolinista, deu as diretrizes que
tornaram o então Partido Comunista Italiano o mais original e o mais capacitado a
dirigir a nova Itália democrática. Aqui, mais uma vez, a história pregou uma peça: o
progresso italiano, de que o partido de Gramsci foi o avalista em parceria - o
"compromisso histórico" - com os cristãos do Partido da Democracia Cristã, terminou
por solapar as bases sociais de ambos, e o PCI mergulhou numa longa decadência da
qual há apenas vestígios em meio às ruínas das grandezas de Roma.

Mas o marxismo carrega nas costas o pesado fardo do estalinismo e do terror
soviético, sem que os marxistas tenham, até hoje, revelado a capacidade de explicar,
marxisticamente, a tragédia em que desembocou a revolução mais radical da era
moderna. Não é suficiente a explicação materialista-vulgar de que todas as grandes
revoluções comeram seus próprios filhos; tampouco justificar a cruel ditadura do
georgiano - que na verdade já se ensaiava sob Lenin - pelas realizações
técnico-científicas da ex-URSS: todos os marxistas nunca deveriam esquecer a lição
do próprio Marx e dos frankfurtianos de que "progresso e barbárie" sempre formaram
na história universal uma terrível unidade.

A partir de certo momento, ficou muito evidente que o "marxismo soviético" (a
expressão é de Marcuse) não era outra coisa senão uma doutrina de grande potência
arrogantemente usurpadora das tradições marxistas. Mesmo a crítica trotkysta, que
cedo viu a "degeneração burocrática" do Partido, e a também ainda mais precoce
crítica de Rosa Luxemburgo, junto com a postura de Kautsky, não foram suficientes -
nem o poderiam ser, já que o terror estalinista mal havia mostrado suas garras já
sob a criação da temível e terrível Cheka sob Lênin.

Nos fins do século que acabou, talvez nas pegadas da explicação de Perry Anderson
para o que ele chamou de "marxismo ocidental", a combinação da desestruturação
produtiva, com a revolução técnico-científica e paradoxalmente o próprio progresso
levado a cabo pelo Estado do Bem-Estar desbarataram a própria classe operária e seus
partidos social-democratas e comunistas; o "marxismo ocidental" descolou a reflexão
teórica da perspectiva revolucionária. Deixou de influenciar a política e, pois, a
luta de classe organizada, e refugiou-se nos trabalhos acadêmico-científicos. Mesmo
assim, na universidade, que apenas durante um curto período - uns 40 anos , se tanto
- abriu-se para o marxismo, o movimento também refluiu.

Mas, surpreendentemente, a força criadora do marxismo abriu novas fronteiras , mesmo
em terrenos que lhe eram anteriormente hostis e com os quais, ele mesmo, teve
relações conflitivas e lhes dirigiu anátemas dogmáticos. É o caso das religiões-
antes o "ópio do povo", da psicanálise ,-uma ciência do inconsciente da justificação
burguesa dos seus próprios crimes -, da própria literatura (nos caminhos já
originalmente pensados por Lukacs), na critica da cultura e da modernidade - os
frankfurtianos - da hegemonia norte-americana, Gramsci e seu "americanismo e
fordismo". Esses terrenos todos foram imensamente fecundados pelo marxismo, que lhes
ampliou os horizontes.

A pergunta que essa curadoria quer fazer é direta: e o século XXI e no século XXI ?
O que o marxismo pode vir a ser, o que o marxismo tem a dizer? O século abriu-se com
a maior crise econômica, mundial, global, desde os dias da Grande Depressão de
Trinta. Mesmo sobre esta, o que o marxismo disse "no calor da hora" não honrou muito
as tradições da economia política marxista, que é seu terreno e sua certidão de
nascimento. Economistas como Ievguin Varga passaram a certidão de óbito do
capitalismo na crise de 1929. E agora, que crise é esta? François Chesnais tem dado
orientações teóricas muito férteis, sobre a transição para um regime de acumulação à
dominância financeira. E que mais ?

Não há marxismo sem marxistas; estes não são muitos, hoje, no Ocidente. No Brasil,
às vezes tem-se a impressão de que o marxismo floresce sobretudo na universidade, na
área de humanas, e ilumina muitos nichos da crítica. Mas nos partidos de esquerda, o
marxismo é quase sempre um indesejado e no operariado ele é mais, é desconhecido.
Operariado aliás, hoje multifacetado, reduzido nos locais produtivos, abundante nos
locais de serviço, milhões nos trabalhos informais, uma grande classe não-classe.
Será possível combinar reflexão criadora, novas interpretações do mundo, descoladas
do trabalho?

As explorações sobre essas intrigantes questões não se farão com um marxismo
ensimesmado, sectário e doutrinário; mas não se trata de proclamar um ecletismo
despolitizado: as interrogações partem da tomada de posição de que o marxismo pode
ainda alimentar as lutas pela transformação social e política, senão com a
transcendência e abrangência mostradas no século XX, pelo menos com uma postura
crítica que não se deixará seduzir nem pelo apocalipse nem pelo conformismo. Em
suma, um marxismo dialógico e dialético.


Crise financeira?

Teoricamente, temos uma crise clássica na interpretação marxista: é de realização
do valor, mas aqui está sua novidade: a produção do valor se dá na China e sua
realização nos EUA. É no que pode dar a assimetria entre os 10% de crescimento da
China e os modestos 3 a 4% dos EUA. Nos últimos vinte anos, o capitalismo
experimenta uma violentíssima expansão: 800 milhões de trabalhadores foram
transformados em operários entre a Índia e a China, e em todos os países do arco
asiático. Uma ampliação quase sem precedentes na história mundial das fronteiras
da mais-valia. A análise é de Francisco de Oliveira.

Francisco de Oliveira

Tornou-se dominante interpretar a atual crise econômica mundial como financeira,
inclusive nos arraiais marxistas, seguindo-se as indicações elaboradas por
François Chesnais sobre os regimes de acumulação à dominância financeira. E as
evidências empíricas levam água ao moinho dessa explicação, haja visto que foi o
estouro das chamadas hipotecas subprime, que acendeu, finalmente, a luz vermelha
de uma intervenção urgente e profunda. Bush ainda brincou, e deixou o Lehmann
Brothers ir à breca, bem no receituário liberal. Mas o tsunami não perdeu o poder
destrutivo e agora o elegante Barack Obama tenta domá-lo, sem muito êxito, até
aqui.

A crise que aí está é a primeira da globalização, não a primeira global, pois de
há muito todas as crises produzidas no centro do sistema propagam-se
imediatamente. Uma crise da globalização é diferente: ela pode ser gestada nas
periferias do sistema, atingir o centro e daí propagar-se. Teoricamente, ela é uma
crise clássica na interpretação marxista: é de realização do valor, mas aqui está
sua novidade: a produção do valor se dá na China e sua realização nos EUA. É no
que pode dar a assimetria entre os 10% de crescimento da China e os modestos 3 a
4% dos EUA. Nos últimos vinte anos, o capitalismo mundial experimenta uma
violentíssima expansão: 800 milhões de trabalhadores foram transformados em
operários entre a Índia e a China, e em todos os países do vastíssimo arco
asiático. Ficaram de fora nessa verdadeira revolução capitalista, a África, como
sempre, e praticamente toda a América Latina.

Uma ampliação quase sem precedentes na história mundial das fronteiras da
mais-valia. Descentralidade do trabalho? Vade retro! Com certeza, quem escreve e
quem lê estão calçando um tênis e usando um relógio digital produzidos nessa nova
fronteira. Isto quer dizer em teoria do valor que o custo de reprodução da força
de trabalho nos países que importam tais bens de consumo foi drasticamente
reduzido, sem a contrapartida de um aumento do salário monetário das suas classes
trabalhadoras; Robert Kurz já os chamou, faz tempo, "sujeitos monetários sem
dinheiro". Flynt (GM), Dearborn (Ford) e toda Detroit são hoje cidades fantasmas,
casas abandonadas, com desempregos duas vezes superiores à taxa nacional
norte-americana, e uma cena medieval diária, inimaginavel na América das
oportunidades: trabalhadores em filas recebendo refeições; ao invés de Lutero e
Calvino, São Francisco de Assis..

Atenção: esta revolução nos mercados de trabalho mundiais não poderia ter sido
feita sem uma pesada mudança técnico-científica nos métodos e produtos. O relógio
digital que se descarta é banal porque produzido por uma enorme infra-estrutura
técnico-científica que tornou as imensas reservas de mão-de-obra baratíssimas. A
China hoje tem mais estudantes de curso universitário que os EUA, e mais
pós-graduandos que o total de estudantes universitários do Brasil.

Nos EUA isto significou que a não-contrapartida em salário monetário deixou um
buraco nas contas dos consumidores e das famílias, que no boom da especulação
imobiliária tinham adquirido a casa dos seus sonhos. Cujos empréstimos os
norte-americanos imediatamente deixam de pagar, abandonam as casas e vão morar nos
trailers de seus carrões, estacionados à noite nos parkings, onde dormem. E os
bancos e financeiras hipotecárias deixaram até de cobrar, porque o crédito novo,
obtido através do FED e dos empréstimos chineses, era mais barato do que cobrar
dos inadimplentes.

A oferta de dinheiro barato, as subprimes, veio das aplicações chinesas em títulos
do tesouro americano, cujo FED deixou os bancos privados expandirem o crédito para
além de qualquer critério. Já em março de 2005, Ben Bernanke, então importante
economista de Princeton, alertava para o risco da utilização dos empréstimos
chineses para financiar os pesados gastos das famílias norte-americanas, em
hipotecas de casas e carros. Ben é hoje o todo-poderoso presidente do FED, e de
crítico converteu-se em administrador da bancarrota (citado em Mark Landler,
"Somente os bolsos chineses se enchiam" Folha de S.Paulo, 5/jan/2009, artigos
selecionados do The New York Times).

Francisco de Oliveira é Professor Emérito da FFLCH-USP.

Os sindicatos na França e a crise econômica

Folha de São Paulo, domingo, 05 de abril de 2009


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Crise radicaliza ação de sindicatos na França
Desesperados, funcionários de empresas em dificuldades sequestram altos executivos para tentar evitar onda de demissões

Especialista prevê agravamento de tensões; desemprego no país atinge 2,38 milhões de pessoas, ou 8,5% da população ativa

ANA CAROLINA DANI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

Na última terça-feira, cinco executivos de uma filial francesa do grupo norte-americano Caterpillar foram tomados como reféns e passaram a noite retidos nos escritórios da empresa, instalada na região de Grenoble, no sul da França.
Eles não foram vítimas de nenhum comando terrorista e muito menos atacados por sequestradores. Os executivos, entre eles o diretor-geral da fábrica na França, Nicolas Polutnik, foram retidos pelos próprios empregados, que protestavam contra o plano de demissões anunciado pela empresa.
Segundo os sindicatos, a decisão foi tomada porque a direção se negava a negociar as condições de saída e o valor das indenizações que seriam repassadas aos assalariados.
Em janeiro deste ano, o grupo Caterpillar anunciou a supressão de 25 mil postos de trabalho em todo o mundo, sendo 733 na fábrica de Grenoble. Os sindicatos tentavam negociar melhores indenizações e pediam a redução do número de demissões.
O exemplo da Caterpillar, que está longe de ser um caso isolado, ilustra o clima de crescente tensão social que vive o país. Também na última terça-feira, cerca de cem empregados das redes Fnac e Conforama, filiais do grupo PPR, bloquearam por quase uma hora o táxi que transportava o presidente do grupo, François-Henri Pinault.
O empresário, à frente do segundo maior grupo de luxo do mundo, somente pôde seguir viagem após a intervenção da polícia. Os empregados também protestavam contra o plano de restruturação, anunciado no dia 18 de fevereiro, que prevê a redução de 1.200 postos de trabalho nas duas empresas.
Na semana anterior, no dia 25 de março, executivo de uma fábrica de remédios na França, filial do grupo norte-americano 3M, também foi feito refém por mais de 24 horas. Poucas semanas antes, no dia 13 de março, o presidente da Sony no país, Serge Foucher, já havia sido retido por mais de um dia por empregados da fábrica de Pontonx-sur-l'Adour, na região dos Landes, sudoeste da França.
Os assalariados tentavam uma última cartada para evitar o fechamento do local, previsto para o próximo dia 17 de abril.

Tensão
"A multiplicação dos anúncios de supressão de empregos em um contexto de grave crise econômica levou a uma evidente radicalização dos movimentos e das relações sociais", avalia Guy Groux, sociólogo, especialista em movimento sociais e professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris.
Segundo ele, ações radicais como sequestros de empresários, barricadas em estradas ou ocupação de fábricas devem se tornar mais frequentes nos próximos meses.
Desde que a crise financeira mundial se transformou em crise econômica, não se passa uma semana sem que uma empresa na França anuncie planos de reestruturação, muitos deles prevendo demissões.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee), somente nos seis primeiros meses deste ano, 387 mil empregos devem desaparecer no setor privado francês.
Com isso, a taxa nacional de desemprego tem crescido. Somente no mês de fevereiro, cerca de 80 mil pessoas ficaram desempregadas, registrando o segundo mês consecutivo de aumento da desocupação, que atinge 2,384 milhões de pessoas, ou o equivalente a 8,5 % da população ativa.
Para o especialista em relações sociais Hubert Landier, a crise econômica é a principal causa da radicalização das ações dos sindicatos e dos trabalhadores, mas não a única. "Na França, as relações sociais são fundadas muito mais na confrontação do que na busca do compromisso, como é o caso na Alemanha e nos países do norte da Europa", afirma.
Landier também aposta no agravamento da tensão social no país. "Muitas empresas que puderam até o momento resistir com medidas como férias coletivas ou suspensão temporária da produção serão obrigadas a demitir nos próximos meses, o que deve contribuir para novas ações violentas", afirma.
Segundo ele, é necessário evitar comparações simplistas. "São trabalhadores, e não criminosos, que optaram por um tipo de ação radical, por desespero e para chamar a atenção da opinião pública e do governo", conclui.
Desde o inicio deste ano, duas greves paralisaram parcialmente a França. A mais recente, no dia 19 de março, reuniu entre 1,2 milhão e 3 milhões de pessoas, em várias cidades. Ante o aumento do desemprego e da pressão social, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou na semana passada a nomeação de um secretário para a reindustrialização, a fim de coordenar ações do governo nas regiões industriais mais afetadas pela crise.
O governo também decidiu proibir a atribuição de bônus e de opções conversíveis em ações a executivos de empresas ajudadas pelo governo.

sábado, 4 de abril de 2009

Guerra sem fim

Otan mandará mais 5 mil soldados ao Afeganistão, diz Obama
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da Folha Online

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, confirmou neste domingo que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) ofereceu cerca de 5 mil soldados extras para enviar ao Afeganistão.

"Durante tempo demais nossos esforços no Afeganistão não tiveram os recursos necessários para conseguir nossas metas" nesse país, disse ele em coletiva de imprensa após a cúpula da Otan em Estrasburgo (França), que comemorou os 60 anos da aliança militar.

Durante a reunião, a Otan decidiu manter seus compromissos para apoiar a estabilização do Afeganistão. Desta forma, a aliança segue com tropas no país --o que estava em discussão porque havia a sensação para alguns países-membros de que a medida não estava dando o efeito desejado.

Os EUA, lembrou, já tomaram medidas para se reforçar e enviará cerca de 21 mil soldados a mais além dos 36 mil que já mantém, mas o país "não pode enfrentar este desafio sozinho".

Obama se declarou satisfeito com as ofertas dos aliados --que, segundo informações, inclui o envio de 3 mil soldados para apoiar a segurança diante das eleições de 20 de agosto no Afeganistão.

Além disso, disse, também serão enviados 300 efetivos para ajudar no treinamento das forças afegãs. Os aliados prometeram também um fundo de US$ 100 milhões, dos quais US$ 57 milhões procederão da Alemanha, para custear as tarefas de formação destas forças.

"Esta não era uma conferência de doadores, e, no entanto, recebemos o tipo de compromisso que historicamente não se recebe em conferências como esta", disse Obama, que insistiu em que o valor prometido é "significativo".

Segundo o presidente americano, parte do sucesso obtido ao conseguir o compromisso dos aliados se deve a que "não tentamos passar por cima das dificuldades" da missão.

Neste sentido, reconheceu que o envio de mais soldados ao Afeganistão "representa um esforço da população em um momento muito difícil", devido à crise econômica mundial.


Fonte: Folha de São Paulo

A França - laboratório da crise econômica

Prof Farlei Martins, da Ucam, doutorando de direito da puc-rio envia a seguinte notícia




Le Monde, 04.04.2009

Après 1789, 2009 ?
Sophie Wahnich

La Révolution française, vingt ans après le bicentenaire, affleure à nouveau
dans les discours publics. Le président de la République de reconnaître que
ce n'est pas facile de gouverner un "pays régicide". Alain Minc de mettre en
garde ses "amis de la classe dirigeante" en rappelant que 1789 a commencé en
1788 et qu'il faut sans doute savoir renoncer à certains privilèges.
Jean-François Copé de déplorer "la tentation naturelle de refaire en
permanence 1793".


Ces énoncés témoignent pour le moins d'une inquiétude : le peuple français
ne se laisse pas si facilement gouverner, il a su et saurait peut-être à
nouveau devenir révolutionnaire, voire coupeur de têtes. Parler de la
Révolution française vise soit à la congédier en affirmant qu'on ne laissera
pas faire à nouveau, soit à en faire le lieu d'une expérience utile pour ne
pas répéter les erreurs passées. La violence doit aujourd'hui pouvoir rester
symbolique et ne pas atteindre les corps. Pour ce faire, il faut savoir d'un
côté la retenir, et de l'autre tarir les sources de son surgissement.

Retenir la violence, c'est là l'exercice même du maintien de l'ordre. Or il
n'appartient pas aux seules "forces de l'ordre". Les révolutionnaires
conscients des dangers de la fureur cherchent constamment des procédures
d'apaisement. Lorsque les Parisiens, le 17 juillet 1791, réclament le
jugement du roi, ils sont venus pétitionner au Champ-de-Mars sans armes et
sans bâtons. L'épreuve de force est un pique-nique, un symbole dans l'art de
la politique démocratique.

Aujourd'hui, les mouvements sont non violents, ils inventent, comme de 1790
à 1792, des formes qui permettent de dire la colère tout en retenant la
violence. Les manifestations et les grèves encadrées par les syndicats et
les coordinations relèvent de cette tradition, mais on peut aussi voir des
occupations avec pique-nique, un "printemps des colères" qui propose en même
temps une guinguette. On lit La Princesse de Clève dans un vaste relais de
voix devant un théâtre public.

Or ces outils de l'auto-retenue de la violence peuvent être mis à mal par
les forces de l'ordre quand elles usent de la violence répressive sur les
corps. Ici encore, ce n'est pas sans rappeler la violence exécutive qui
surgit contre les corps désarmés de la foule. Le 17 juillet 1791, certains
sont morts dans une fusillade sans sommation, aujourd'hui certains perdent
un oeil dans un passage à tabac, des enfants rentrent chez eux traumatisés,
des manifestants sont interpellés et jugés pour rébellion.

Enfin cette auto-retenue peut céder si ceux à qui est adressée la demande de
nouvelles lois n'entendent pas ces émotions disruptives que sont la colère,
l'indignation et même l'effroi lié à la crise. Le désir de lois protectrices
est au fondement du désir de droit. Le gouvernement joue avec le feu en
refusant de traduire dans les faits cette demande populaire. Elle incarne un
mode spécifique de la souveraineté en France : la souveraineté en actes. La
disqualifier au nom de la seule démocratie représentative, c'est fragiliser
encore davantage un pacte social d'unité déjà exsangue.

En effet, plus on s'éloigne de l'élection présidentielle, et plus la
nécessité pour un président de la République de représenter le pays tout
entier, réuni après la division électorale, semble négligée, voire méprisée.

Loin de tenir compte des attentes du camp adverse, notre gouvernement n'a
pas non plus tenu compte de son propre camp, à qui il avait promis un
meilleur niveau de vie. Aujourd'hui, la crise s'installe. Les effets sociaux
et politiques du bouclier fiscal sont devenus lisibles. On assiste à une
volonté de réformer le système éducatif français sans concertation et les
réformes sont vécues comme des démantèlements purs et simples. Une dette
d'honneur et de vie pourrait opposer frontalement deux groupes sociaux
antagonistes et diviser profondément la société.

Dette d'honneur, car l'électorat a été trompé par un usage sans vergogne du
registre démagogique et que, maintenant, il le sait. Dette d'honneur, car le
refus de concertation prend appui sur la valeur supposée des résultats
électoraux en démocratie. Effectivement, Nicolas Sarkozy a été bien élu, et
la valeur donnée au rituel se retourne contre ceux mêmes qui y ont cru, dans
toutes les catégories sociales révoltées. Enfin, "dette de vie", car
aujourd'hui le travail et l'éducation nationale sont vécus comme des "points
de vie" qui semblent disparaître sans que les plus riches semblent s'en
soucier, avouant une absence totale de solidarité dans la crise.

Le mot d'ordre qui circule "nous ne paierons pas votre crise" met en
évidence cette division sociale entre un "nous", les opprimés, et un "vous",
les oppresseurs. Mais elle a surgi également dans l'enceinte de Sciences Po
Paris. Des étudiants de l'université étaient venus chercher des alliés dans
cette maison. Ils ont été éconduits et parfois insultés, qualifiés de futurs
chômeurs dont les étudiants de Sciences Po auraient à payer le RMI. Cette
violence symbolique traverse déjà donc différents segments de la société et
ne peut qu'attiser la rébellion de ceux qui se sentent ainsi bafoués par une
nouvelle morgue aristocratique. Les étudiants venaient chercher des alliés,
ils ont rencontré des ennemis.

Mais le "nous" des opprimés n'est pas constitué uniquement des précaires,
chômeurs, ou futurs chômeurs, il est constitué des classes moyennes qui sont
précarisées, des classes lettrées qui manifestent et se mettent en grève
pour défendre une certaine conception de l'université et des savoirs. Il est
constitué de tous ceux qui, finalement, se sentent floués et réclament
"justice". A ce titre, les mouvements sociaux de cet hiver et de ce
printemps sont déjà dans la tentation naturelle de refaire 1793. Ils veulent
plus de justice et pour l'obtenir affirment que, malgré les résultats
électoraux, ils incarnent le souverain légitime.

Cette tentation naturelle du point de vue du président de la République,
c'est celle de "l'égalitarisme", terme disqualifiant le fondement même de la
démocratie : l'égalité. Ce supposé égalitarisme viserait à empêcher ceux qui
ont le mieux réussi en termes de gains de richesse, de pouvoir pleinement
bénéficier de cette richesse. Le bouclier fiscal serait une loi protectrice
contre l'égalitarisme. Ici, refaire 1793 supposerait de refuser ce faux
débat. Pendant la Révolution française, l'épouvantail brandi par les riches
s'appelle "loi agraire", une volonté supposée de redistribuer toutes les
terres. Robespierre, le 24 avril 1793, en rejette l'idée : "Vous devez
savoir que cette loi agraire dont vous avez tant parlé n'est qu'un fantôme
créé par les fripons pour épouvanter les imbéciles ; il ne fallait pas une
révolution pour apprendre à l'univers que l'extrême disproportion des
fortunes est la source de bien des maux et de bien des crimes. Mais nous
n'en sommes pas moins convaincus que l'égalité des biens est une chimère. Il
s'agit bien plus de rendre la pauvreté honorable que de proscrire
l'opulence".

Le 17 juin 1793, il s'oppose à l'idée que le peuple soit dispensé de
contribuer aux dépenses publiques qui seraient supportées par les seuls
riches : "Je suis éclairé par le bon sens du peuple qui sent que l'espèce de
faveur qu'on veut lui faire n'est qu'une injure. Il s'établirait une classe
de prolétaires, une classe d'ilotes, et l'égalité et la liberté périraient
pour jamais."

Une loi, aujourd'hui, a été votée pour agrandir cette classe d'ilotes, mais
le gouvernement refuse que l'impôt sur les immenses richesses puisse venir
en aide aux "malheureux". Le pacte de la juste répartition des richesses
prélevées par l'Etat semble avoir volé en éclats quand les montants des
chèques donnés aux nouveaux bénéficiaires du paquet fiscal ont été connus :
les 834 contribuables les plus riches (patrimoine de plus de 15,5 millions
d'euros) ont touché chacun un chèque moyen de 368 261 euros du fisc, "soit
l'équivalent de trente années de smic". Une dette de vies.

Lorsque Jérôme Cahuzac, député du Lot-et-Garonne, affirme qu'il est
"regrettable que le gouvernement et sa majorité soient plus attentifs au
sort de quelques centaines de Français plutôt qu'aux millions d'entre eux
qui viennent de manifester pour une meilleure justice sociale", il retrouve
en effet le langage révolutionnaire. Ainsi le cahier de doléances du
Mesnil-Saint-Germain (actuellement en Essonne) affirme : "La vie des pauvres
doit être plus sacrée qu'une partie de la propriété des riches."

Certains, même à droite, semblent en avoir une conscience claire quand ils
réclament, effectivement, qu'on légifère contre les bonus, les stock-options
et les parachutes dorés. Ils ressemblent à un Roederer qui, le 20 juin 1792,
rappelle que le bon représentant doit savoir retenir la violence plutôt que
l'attiser. Si le gouvernement est un "M. Veto" face à ces lois attendues,
s'il poursuit des politiques publiques déstabilisatrices, alors la
configuration sera celle d'une demande de justice dans une société divisée,
la justice s'appelle alors vengeance publique "qui vise à épurer cette dette
d'honneur et de vie. Malheureuse et terrible situation que celle où le
caractère d'un peuple naturellement bon et généreux est contraint de se
livrer à de pareilles vengeances".

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Texto sobre a crise

Segue abaixo texto de Vinicius Torres Freire publicado na FOlha de São Paulo de hoje


VINICIUS TORRES FREIRE

Erros, mentiras e omissões do G20

Reunião não fracassou, mas não teve sucesso, apesar de clima político bom, e inexiste o tal US$ 1 trilhão prometido


A REUNIÃO do G20 poderia ter sido um fracasso, mas não foi um sucesso. As mentiras foram várias, algumas vergonhosas, e houve omissões sem vergonha.
Não há pacote de US$ 1,1 trilhão. Não houve, talvez nem pudesse haver por lá, ideia prática a respeito do que fazer da podridão bancária. Não houve acordo nem sobre como deverá ser discutido o problema de bancos que criam crises e quebram de modo transnacional, mas são mal e mal fiscalizadas e socorridas por governos nacionais, como hoje.
Para piorar, a ironia da história fez coincidir o discurso do G20 sobre "maior transparência" de balanços bancários com uma decisão americana de permitir que seus bancos possam maquiar balanços, dando preços de fantasia para papéis que deveriam ser "marcados a mercado" (em tese, o preço na praça).
De positivo, afora o clima político não ter desandado, como se previa, saiu algum dinheiro para socorrer países falidos ou contagiados, como os do Leste Europeu, que ameaçam levar bancos europeus à breca.
Houve um acordo para criar uma entidade parecida com aquela que faz alertas de tsunamis pelo mundo, mas agora dedicada a avisar que o caldo financeiro vai entornar -o Conselho de Estabilidade Financeira (CEF), composto pelo G20 e convidados, que trabalharia com o FMI. O CEF, porém, nem arranha a soberania regulatória de país algum.
Houve um compromisso de vigiar e/ou regular "hedge funds" e derivativos de balcão. Como fazê-lo sem regra ou acordo internacional? E os parlamentos nacionais, sob o lobby da finança, vão aprovar tais coisas?
Prometeram punir paraísos fiscais que não abrirem as contas de bancos e clientes picaretas ("A era do segredo bancário acabou"). Vão acabar com a Suíça? Disseram ainda que vão regular as agências que dão notas para a qualidade de crédito (como S&P, Moody's e Fitch), cúmplices da mentira de que o papelório ora podre era quase à prova de calote. Não adianta nada, se não houver punição para essas agências.
Há confusão geral sobre como se chegou ao "US$ 1,1 trilhão". Há certeza sobre o fato de que não há US$ 1,1 trilhão. Houve um acordo para que os países coloquem até mais US$ 500 bilhões no FMI. Parte desse dinheiro já havia sido ofertada pelo Japão no ano passado e, para piorar, o programa começa com US$ 250 bilhões. Os EUA devem bancar parte relevante do dinheiro novo -não se sabe quanto.
Ademais, o FMI vai poder "imprimir" US$ 250 bilhões de sua "moeda" (equivalente a uma cesta de dólares, euros, libras, ienes) Houve acordo para colocar mais US$ 100 bilhões em instituições financeiras multilaterais, tais como o Banco Mundial e seus equivalentes continentais, como o BID, da América, que emprestam a países pobres.
O braço financeiro do Banco Mundial (IFC) deve oferecer, diz um dos anexos do "communiqué" do G20, US$ 50 bilhões para financiar o comércio mundial (empréstimos que pagam antecipadamente a produção e/ou venda de exportações). Isso nos próximos três anos e com "significativo apoio do setor privado". Por ora, os países arrumaram apenas de "US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões". Os US$ 250 bilhões do comércio são puro "wishful thinking".