domingo, 29 de maio de 2011
Eis o link para o acesso ao direito achado na rua
http://redeglobo.globo.com/videos/globouniversidade/v/direito-achado-na-rua/1520688/
terça-feira, 24 de maio de 2011
CTNBio e os transgênicos
CTNBio reduz prazo para a liberação de transgênico no país
Mauro Zanatta | Valor
23/05/2011 8:02Text Resize
Texto:-A +A CompartilharImprimirEnviar por e-mail BRASÍLIA - A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou, sem fazer alarde, uma alteração em seu regimento interno para acelerar a aprovação de organismos geneticamente modificados no país. Hoje, existem 28 variedades de sementes transgênicas aprovadas pelo colegiado, mas outras oito ainda aguardam na fila pelo sinal verde.
A comissão reduziu de 90 para 30 dias o prazo máximo permitido para a análise dos processos. O rito de tramitação foi alterado a partir de uma determinação judicial que impunha à CTNBio a mudança das regras de sigilo nos processos, cobrando mais transparência nos procedimentos. "Eles aproveitaram isso para alterar os prazos. Tínhamos 90 dias prorrogáveis, e já era apertado. Agora, passou a 30 dias, com um máximo de 90 dias", afirmou o engenheiro Leonardo Melgarejo, representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Para o especialista, os membros que buscam fazer uma "análise mais detalhada" serão prejudicados. "Como apenas um dos três pareceres da setorial será suficiente para aprovar na plenária. Isso acelera a liberação porque para rejeitar precisa de muito mais tempo".
O secretário de Políticas e Programas do Ministério da Ciência e Tecnologia, Carlos Nobre, defendeu o chamado "princípio da precaução" nas votações da CTNBio. "Esse colegiado trabalha de forma a dar espaço e promover as discussões necessárias, ouvindo todas as partes até que todos os membros estejam conscientes para votar", disse, em nota. Os reflexos das decisões tomadas hoje, segundo ele, serão sentidos nas próximas décadas. A reportagem não conseguiu contato com o presidente da CTNBio para esclarecer a questão.
As organizações que acompanham as reuniões da CTNBio avaliaram de forma negativa a alteração. "É um procedimento que, no Congresso, é chamado de contrabando legislativo", afirmou Gabriel Fernandes, da ONG AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia.
A motivação original para a alteração do regimento - ou seja, as mudanças nas regras de sigilo - também foi contemplada. Por decisão da maioria, foi instituída a obrigação de assinatura, pelos relatores de cada processo, de um "termo de compromisso" de sigilo. O objetivo é evitar a divulgação de dados sensíveis contidos nos documentos enviados à CTNBio.
"É um vexame porque o sigilo está intrínseco no nosso trabalho", afirmou Leonardo Melgarejo. A partir de agora, cada relator receberá a documentação sem alguns trechos de caráter sigiloso. Antes, recebia os processos sem a íntegra de documentos importantes para o todo do processo. "Mas o sigilo só é justificado quando a informação pode resultar em vantagem comparativa. A avaliação do impacto de um produto em determinada região não pode ser considerada sigilosa. Isso a sociedade tem direito de saber", disse ele.
A polêmica reunião da CTNBio foi precedida por divergências em torno da liberação comercial de um feijão transgênico da Embrapa. O dirigente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), Werner Fuchs, afirmou que o produto é desnecessário, aético e ameaça a segurança alimentar. Houve "torcida" no auditório da Embrapa e o processo deixou em aberto os porquês de apenas dois dos 22 testes (entre mais de 50 variedades) terem manifestado resistência ao vírus. Além disso, a Embrapa apresentou só três páginas sobre "fluxo gênico" do feijão, um dos aspectos mais importantes para avaliar a biossegurança do produto.
(Mauro Zanatta | Valor)
CompartilharImprimirEnviar por e-mail Empresas: Notícias deste editoria Todas as noticias
Notícias Relacionadas
23/05/2011 - 20:26 - Apex cria marca para promover equipamentos médicos no exterior 23/05/2011 - 19:19 - Professores da rede estadual de SC mantêm greve por piso nacional
Mauro Zanatta | Valor
23/05/2011 8:02Text Resize
Texto:-A +A CompartilharImprimirEnviar por e-mail BRASÍLIA - A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou, sem fazer alarde, uma alteração em seu regimento interno para acelerar a aprovação de organismos geneticamente modificados no país. Hoje, existem 28 variedades de sementes transgênicas aprovadas pelo colegiado, mas outras oito ainda aguardam na fila pelo sinal verde.
A comissão reduziu de 90 para 30 dias o prazo máximo permitido para a análise dos processos. O rito de tramitação foi alterado a partir de uma determinação judicial que impunha à CTNBio a mudança das regras de sigilo nos processos, cobrando mais transparência nos procedimentos. "Eles aproveitaram isso para alterar os prazos. Tínhamos 90 dias prorrogáveis, e já era apertado. Agora, passou a 30 dias, com um máximo de 90 dias", afirmou o engenheiro Leonardo Melgarejo, representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Para o especialista, os membros que buscam fazer uma "análise mais detalhada" serão prejudicados. "Como apenas um dos três pareceres da setorial será suficiente para aprovar na plenária. Isso acelera a liberação porque para rejeitar precisa de muito mais tempo".
O secretário de Políticas e Programas do Ministério da Ciência e Tecnologia, Carlos Nobre, defendeu o chamado "princípio da precaução" nas votações da CTNBio. "Esse colegiado trabalha de forma a dar espaço e promover as discussões necessárias, ouvindo todas as partes até que todos os membros estejam conscientes para votar", disse, em nota. Os reflexos das decisões tomadas hoje, segundo ele, serão sentidos nas próximas décadas. A reportagem não conseguiu contato com o presidente da CTNBio para esclarecer a questão.
As organizações que acompanham as reuniões da CTNBio avaliaram de forma negativa a alteração. "É um procedimento que, no Congresso, é chamado de contrabando legislativo", afirmou Gabriel Fernandes, da ONG AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia.
A motivação original para a alteração do regimento - ou seja, as mudanças nas regras de sigilo - também foi contemplada. Por decisão da maioria, foi instituída a obrigação de assinatura, pelos relatores de cada processo, de um "termo de compromisso" de sigilo. O objetivo é evitar a divulgação de dados sensíveis contidos nos documentos enviados à CTNBio.
"É um vexame porque o sigilo está intrínseco no nosso trabalho", afirmou Leonardo Melgarejo. A partir de agora, cada relator receberá a documentação sem alguns trechos de caráter sigiloso. Antes, recebia os processos sem a íntegra de documentos importantes para o todo do processo. "Mas o sigilo só é justificado quando a informação pode resultar em vantagem comparativa. A avaliação do impacto de um produto em determinada região não pode ser considerada sigilosa. Isso a sociedade tem direito de saber", disse ele.
A polêmica reunião da CTNBio foi precedida por divergências em torno da liberação comercial de um feijão transgênico da Embrapa. O dirigente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), Werner Fuchs, afirmou que o produto é desnecessário, aético e ameaça a segurança alimentar. Houve "torcida" no auditório da Embrapa e o processo deixou em aberto os porquês de apenas dois dos 22 testes (entre mais de 50 variedades) terem manifestado resistência ao vírus. Além disso, a Embrapa apresentou só três páginas sobre "fluxo gênico" do feijão, um dos aspectos mais importantes para avaliar a biossegurança do produto.
(Mauro Zanatta | Valor)
CompartilharImprimirEnviar por e-mail Empresas: Notícias deste editoria Todas as noticias
Notícias Relacionadas
23/05/2011 - 20:26 - Apex cria marca para promover equipamentos médicos no exterior 23/05/2011 - 19:19 - Professores da rede estadual de SC mantêm greve por piso nacional
sábado, 21 de maio de 2011
A nova cultura alemã
De la Escuela de Fráncfort a los nuevos narradores
LUIS FERNANDO MORENO CLAROS 21/05/2011 El Pais
Dieciséis pensadores, novelistas, poetas, dibujantes y dramaturgos que representan la cultura alemana. Herederos de clásicos como Goethe, Schiller, Hesse y Böll, y contemporáneos como Grass y Sebald
Jürgen Habermas
(Düsseldorf, 1929)
Es el filósofo de la era "posmetafísica". Colaborador de los míticos Adorno y Horkheimer, sus ideas continúan la labor crítica de la denominada Escuela de Fráncfort. Heredero del 68 pero crítico con los radicalismos ("jamás entendí de dogmatismos"), el autor de Teoría de la acción comunicativa se declaró "filósofo atípico" ya que jamás ha pretendido aportar una visión unívoca y cerrada del mundo, sostenida sobre una sola verdad irrefutable, sino la de un mundo abierto que se sostiene sobre "pequeñas verdades". En 1968 apareció su obra señera Conocimiento e interés, difícil pero decisiva, con la que Habermas pretendía continuar el proyecto de la Modernidad sin dogmatismos ni ideas fijas y en perpetuo diálogo con la realidad; proseguir la lucha ilustrada por la libertad a ultranza, a escala política e individual. LUIS FERNANDO MORENO CLAROS
Hans Magnus Enzensberger
(Kaufbeuren, 1929)
El más versátil y cosmopolita de los escritores de la generación de posguerra entró en el panorama literario alemán como poeta, si bien despliega su máxima potencia en el ensayo político (Política y delito; Perspectivas de guerra civil; El perdedor radical). A partir de los años sesenta, más que un escritor alemán, será un escritor europeo, gracias a su vocación de viajero-lector plurilingüe y su capacidad de aglutinar el pensamiento contemporáneo de los más diversos países. Está familiarizado tanto con las literaturas escandinavas como con la española y las latinoamericanas (traduce, entre otros, a Alberti y Vallejo). Su novela biográfica El corto verano de la anarquía. Vida y muerte de Durruti marcó a generaciones de lectores. Su labor de mediador literario entre España y Alemania le valió en 2002 el Premio Príncipe de Asturias. CECILIA DREYMÜLLER
Alexander Kluge
(Halberstadt, 1932)
Director y productor de cine, artífice de un demoledor programa satírico en la televisión alemana, escritor, abogado y hombre de negocios sin afán de lucro, Alexander Kluge es el intelectual entre los cineastas alemanes y el más cinematográfico entre los escritores. Tras doctorarse en Derecho, Kluge sigue el consejo del filósofo Theodor W. Adorno y estudia cine, convirtiéndose en asistente de Fritz Lang. Su primer largometraje, Una muchacha sin historia, gana un León de Plata en el Festival de Venecia (al que seguirían otros dos Leones de Oro). Títulos emblemáticos de su filmografía son: La patriota, Alemania en otoño, El poder de los sentimientos; entre sus libros río -compuestos de cientos de relatos cortos "de la vida posible"- destacan El hueco que deja el diablo e Historias del cine (ambos en Anagrama). C. DREYMÜLLER
Volker Braun
(Dresde, 1939)
Poeta del pueblo y crítico observador de la realidad política y social primero de la RDA -donde recibió todos los honores, también el de ser observado por los servicios secretos- y después en la Alemania reunificada, Volker Braun, el defensor empedernido de la utopía socialista, estudió Filosofía y trabajó de obrero industrial. Desde que en 1966 publicó su primer poemario en la editorial Suhrkamp, Cosas provisionales, publicó paralelamente en la RDA y la RFA. En la década de los setenta y ochenta, sus obras de teatro, como La historia inacabada, son representadas en toda Europa. Entre sus poemarios destacan El lento crujir de la madrugada, Jardín de recreo, Prusia y A las hermosas farsas. En 1988 recibió el Gran Premio del Estado de la RDA; en 2000, el Premio Georg Büchner. C. DREYMÜLLER
Reinhard Jirgl
(Berlín, 1953)
Cronista de los traumas sociales y las tragedias individuales de la división y reunificación de Alemania, Reinhard Jirgl adopta la baja perspectiva de los perdedores de la historia. Para reproducir el lenguaje de sus inadaptados radicales Jirgl inventa una escritura fonética con sistema ortográfico propio. Solo tras la caída del Muro, se publican y se galardonan con una docena de premios las novelas guardadas en el cajón. Tanto su trilogía de la RDA, Genealogía del matar, como la novela generacional, Los incompletos (2003), sobre el destino de los sudetes expulsados de Checoslovaquia, certifican a Jirgl como un pertinaz y cáustico cronista del pasado y presente de Alemania. En 2005 publica Renegado. Novela de la época nerviosa; en 2009 su gran saga familiar El silencio. En 2010 recibe el Premio Georg Büchner. C. DREYMÜLLER
Cornelia Funke
(Dorsten, 1958)
Cornelia Funke es la heredera del gran Michael Ende en el reino de la fantasía. A raíz de la publicación de su trilogía Mundo de Tinta (Corazón de Tinta, Sangre de Tinta, Muerte de Tinta, Siruela, 2004-2008), se convirtió en una de las autoras de referencia del género que ha dominado la literatura infantil y juvenil en la última década. Con medio centenar de títulos publicados, entre cuentos para niños y novelas juveniles, varios de ellos adaptados al cine, en 2005 fue elegida por la revista Time como "una de las personas más influyentes del mundo". En 2010 apareció, con un espectacular lanzamiento simultáneo en 12 países, Reckless. Carne de piedra, primer título de su último y ambicioso proyecto literario: Mundo Espejo, una transgresora e inquietante serie inspirada en los cuentos de hadas tradicionales. VICTORIA FERNÁNDEZ
Kathrin Schmidt
(Gotha, 1958)
Kathrin Schmidt, la autora de la exuberante novela feminista La expedición Gunnar-Lennefsen (Tusquets), estudió Psicología y ha trabajado como psicóloga infantil, periodista y socióloga. Conocida primero como poeta, desde que en 1993 ganó el Premio Leonce-und-Lena de poesía, se ha hecho también un nombre como novelista con Los gatos negros de Seebach, que trata del acoso de los servicios secretos de la RDA, y Los hijos de Koenig, que aborda el desarraigo que experimentaron muchos ciudadanos de la RDA tras la caída del Muro. En 2009 ganó el Premio del Libro Alemán a la mejor novela con su relato autobiográfico sobre la paulatina recuperación de la memoria tras un coma clínico, No morirás. Libros recientes: el poemario Abejas ciegas y el tomo de relatos Finito. Pasemos página.C. DREYMÜLLER
Ralf König
(Soest, 1960)
Aprendiz de carpintero, el cómic se cruzó en su vida hasta convertirse en su profesión. Primero desde la historieta más alternativa, donde contaba las peripecias del colectivo gay alemán en revistas minoritarias para, casi de forma súbita, pasar al éxito popular con dos obras: El condón asesino y El Hombre Deseado. Desde entonces, su vitriólica visión de las relaciones humanas transciende los límites de la orientación sexual, con cómics que son siempre agudas reflexiones sobre el ser humano sin perder nunca de vista una militancia estricta en defensa de los derechos del colectivo gay que no evita la autocrítica más mordaz. Sus cómics pasean tanto por el costumbrismo como por peculiares y atrevidas adaptaciones queer de clásicos de la literatura griega (Lysistrata), Shakespeare o incluso la Biblia. ÁLVARO PONS
Uwe Timm
(Hamburgo, 1940)
Tras cursar estudios de filosofía y germanística, participó como miembro destacado en el movimiento estudiantil alemán de 1968. Varias de sus novelas son idóneas para comprender esta época. Escritor sociopolítico de izquierdas (pero crítico con la RDA), arremetió contra los prejuicios de la generación que abrazó el nazismo -¿por qué los alemanes de la época de Hitler secundaron los delirios de grandeza del dictador?-. Entre sus numerosas obras destaca Tras la sombra de mi hermano (Destino), una novela singular en forma de reportaje en la que investiga la personalidad de su hermano mayor, alistado a los 19 años en las SS y miembro de un batallón de exterminio de judíos. En castellano contamos también con La noche de San Juan (Alfaguara), un entretenido relato sobre la caótica reunificación alemana. L. F. MORENO CLAROS
Monika Maron
(Berlín, 1941)
El tema principal de la alemana oriental Monika Maron es la relación entre las dos Alemanias antes y después de la Unificación de 1990. Cenizas Volantes, publicado en la República Federal en 1981, es el primer libro que denunció los problemas medioambientales provocados por la industria pesada de la República Democrática Alemana (RDA). Se fue del país un año antes de que cayera el muro de Berlín, ya muy alejada de la ideología oficial del Estado. Vive en Berlín, donde nació en 1941. A Monika Maron, hijastra del que fuera ministro de Interior de la RDA Karl Maron, le pasó con la Stasi (la temida policía política de la RDA) algo parecido a lo de Günter Grass con la SS nazi: tras pasar años criticando en público a sus colaboradores, reconoció que ella también había trabajado para ellos. JUAN GÓMEZ
Botho Strauss
(Naumburg an der Saale, 1944)
Es uno de los dramaturgos alemanes de mayor éxito y proyección. En los setenta, piezas teatrales como Los hipocondríacos y Trilogía del reencuentro lo colocaron entre las primeras espadas de la literatura en alemán. No ha rehuido nunca la polémica, ni en el teatro ni en la narrativa. En los ochenta fue blanco de numerosas críticas por sus escritos narrativos, tachados de reaccionarios y antimodernos. Muy influido por pensadores como Heidegger, su crítica a la sociedad burguesa lo ha llevado, según sus críticos, a asumir posturas radicalmente conservadoras. Él dice no tener en mucha consideración ese concepto, porque "a fin de cuentas, toda la épica surge del pensamiento: los tiempos gloriosos son siempre pasados". La decadencia, por tanto, "siempre estuvo aquí". J. GÓMEZ
Rüdiger Safranski
(Rottweil, 1945)
Es el ensayista (e historiador de las ideas) de mayor impacto dentro y fuera de Alemania. Sus brillantes y asequibles biografías de E.T.A. Hoffmann, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger o Schiller le han granjeado cientos de miles de lectores en todo el mundo. Safranski rastrea todo lo que se conoce sobre sus biografiados y, en una forma muy particular de aproximarse a sus vidas, sus obras y las circunstancias históricas que las rodearon, consigue libros amenos y plenos de información sabiamente dosificada que seducen tanto a un público culto como al más especializado. Uno de sus recientes éxitos ha sido Romanticismo (Tusquets), obra en la que mediante breves biografías enlazadas traza una visión de este movimiento tan alemán. En castellano aparecerá pronto su último trabajo sobre la amistad entre Goethe y Schiller. L. F. MORENO CLAROS
Ingo Schulze
(Dresde, 1962)
Autor "revelación" surgido de la extinta RDA. Sus primeras novelas abordan el derrumbe de aquel Estado sovietizado, mentiroso y dictatorial, con un lenguaje renovado y punzante. El impacto de la política en el ciudadano corriente debido a la caída del muro de Berlín y la Unión Soviética son sus temas predilectos. En su exitoso debut literario, 33 momentos de felicidad (Destino), traza un mosaico humano de situaciones desternillantes, grotescas y tragicómicas que describen una Rusia trastocada sin el comunismo. En Historias simples, al igual que en su último libro, En línea (lo dos en Destino), trata de las desilusiones de individuos inmersos en un mundo que ha perdido su sentido, ya sea el de la antigua Alemania del Este o el dominado por la tiranía del teléfono móvil. L. F. MORENO CLAROS
Richard David Precht
(Solingen, 1964)
Tanto por su fama como por su valía, es hoy un punto de referencia en el panorama cultural alemán. Tras alguna publicación anterior, como La herencia de Noé (2000), en defensa de los animales; de su novela Los cosmonautas (2002), de amor y muerte, o de su libro autobiográfico Lenin llegó sólo hasta Lüdenscheid (2005), el gran éxito le llegó con ¿Quién soy y... cuántos? (Ariel, 2009), una especie de "viaje filosófico". Sigue su éxito con Amor. Un sentimiento desordenado (próximamente en Siruela), y en 2010 con El arte de no ser egoísta, lo que podíamos calificar como la ética de Precht. Tanto desde la filosofía, la sociología y la psicología como desde la ciencia (neurología, genética o evolución), Precht va iluminando temas de máximo interés de un modo atractivo y accesible. Un divulgador nada vulgar, un intelectual comprensible. ISIDORO REGUERA
Ulf K.
(Oberhausen, 1969)
Autor de dibujo limpio y cristalino, la obra de Ulf K. destaca por ser una forma de poesía gráfica personal, que trabaja el simbolismo de la fábula para captar al lector desde la nostalgia infantil y trasladarlo a un entorno de apariencia amable que esconde reflexiones sobre los aspectos más oscuros de la trascendencia humana. La muerte y el amor se alzan como elementos recurrentes de poemas visuales de un romanticismo melancólico travestido de surrealismo en claroscuro, representados perfectamente por el personaje de Hyeronimus B., (editado por Dibbuks) oficinista condenado a vivir una vida gris de la que sólo puede escapar a través del sueño de la utopía. El delicado trazo del autor suaviza el radical expresionismo de Frans Masereel, pero mantiene intacta la fuerza de su mensaje. Á. PONS
Daniel Kehlmann
(Múnich, 1975)
Con apenas 30 años, Daniel Kehlmann alcanzó un éxito inusitado con La medición del mundo. Vendió más de un millón y medio de ejemplares novelando las biografías del naturalista y científico Alexander von Humboldt y el matemático Carl Friedrich Gauß. Dos hombres de principios del Ochocientos con vidas antagónicas y personalidades paralelas. Su nada desdeñable aspiración era "enfrentarse de forma satírica y lúdica a lo que significa ser alemán" contando las vidas de estas dos personalidades señeras del preludio de la fundación de la Alemania moderna. En 2009 se publicó su última obra, Gloria, donde abandona el estilo lacónico del superventas de 2005 y se abre a la experimentación con los temas y la estructura. Dividida en nueve partes, es la historia de un escritor que sueña con una novela sin protagonista. J. GÓMEZ
LUIS FERNANDO MORENO CLAROS 21/05/2011 El Pais
Dieciséis pensadores, novelistas, poetas, dibujantes y dramaturgos que representan la cultura alemana. Herederos de clásicos como Goethe, Schiller, Hesse y Böll, y contemporáneos como Grass y Sebald
Jürgen Habermas
(Düsseldorf, 1929)
Es el filósofo de la era "posmetafísica". Colaborador de los míticos Adorno y Horkheimer, sus ideas continúan la labor crítica de la denominada Escuela de Fráncfort. Heredero del 68 pero crítico con los radicalismos ("jamás entendí de dogmatismos"), el autor de Teoría de la acción comunicativa se declaró "filósofo atípico" ya que jamás ha pretendido aportar una visión unívoca y cerrada del mundo, sostenida sobre una sola verdad irrefutable, sino la de un mundo abierto que se sostiene sobre "pequeñas verdades". En 1968 apareció su obra señera Conocimiento e interés, difícil pero decisiva, con la que Habermas pretendía continuar el proyecto de la Modernidad sin dogmatismos ni ideas fijas y en perpetuo diálogo con la realidad; proseguir la lucha ilustrada por la libertad a ultranza, a escala política e individual. LUIS FERNANDO MORENO CLAROS
Hans Magnus Enzensberger
(Kaufbeuren, 1929)
El más versátil y cosmopolita de los escritores de la generación de posguerra entró en el panorama literario alemán como poeta, si bien despliega su máxima potencia en el ensayo político (Política y delito; Perspectivas de guerra civil; El perdedor radical). A partir de los años sesenta, más que un escritor alemán, será un escritor europeo, gracias a su vocación de viajero-lector plurilingüe y su capacidad de aglutinar el pensamiento contemporáneo de los más diversos países. Está familiarizado tanto con las literaturas escandinavas como con la española y las latinoamericanas (traduce, entre otros, a Alberti y Vallejo). Su novela biográfica El corto verano de la anarquía. Vida y muerte de Durruti marcó a generaciones de lectores. Su labor de mediador literario entre España y Alemania le valió en 2002 el Premio Príncipe de Asturias. CECILIA DREYMÜLLER
Alexander Kluge
(Halberstadt, 1932)
Director y productor de cine, artífice de un demoledor programa satírico en la televisión alemana, escritor, abogado y hombre de negocios sin afán de lucro, Alexander Kluge es el intelectual entre los cineastas alemanes y el más cinematográfico entre los escritores. Tras doctorarse en Derecho, Kluge sigue el consejo del filósofo Theodor W. Adorno y estudia cine, convirtiéndose en asistente de Fritz Lang. Su primer largometraje, Una muchacha sin historia, gana un León de Plata en el Festival de Venecia (al que seguirían otros dos Leones de Oro). Títulos emblemáticos de su filmografía son: La patriota, Alemania en otoño, El poder de los sentimientos; entre sus libros río -compuestos de cientos de relatos cortos "de la vida posible"- destacan El hueco que deja el diablo e Historias del cine (ambos en Anagrama). C. DREYMÜLLER
Volker Braun
(Dresde, 1939)
Poeta del pueblo y crítico observador de la realidad política y social primero de la RDA -donde recibió todos los honores, también el de ser observado por los servicios secretos- y después en la Alemania reunificada, Volker Braun, el defensor empedernido de la utopía socialista, estudió Filosofía y trabajó de obrero industrial. Desde que en 1966 publicó su primer poemario en la editorial Suhrkamp, Cosas provisionales, publicó paralelamente en la RDA y la RFA. En la década de los setenta y ochenta, sus obras de teatro, como La historia inacabada, son representadas en toda Europa. Entre sus poemarios destacan El lento crujir de la madrugada, Jardín de recreo, Prusia y A las hermosas farsas. En 1988 recibió el Gran Premio del Estado de la RDA; en 2000, el Premio Georg Büchner. C. DREYMÜLLER
Reinhard Jirgl
(Berlín, 1953)
Cronista de los traumas sociales y las tragedias individuales de la división y reunificación de Alemania, Reinhard Jirgl adopta la baja perspectiva de los perdedores de la historia. Para reproducir el lenguaje de sus inadaptados radicales Jirgl inventa una escritura fonética con sistema ortográfico propio. Solo tras la caída del Muro, se publican y se galardonan con una docena de premios las novelas guardadas en el cajón. Tanto su trilogía de la RDA, Genealogía del matar, como la novela generacional, Los incompletos (2003), sobre el destino de los sudetes expulsados de Checoslovaquia, certifican a Jirgl como un pertinaz y cáustico cronista del pasado y presente de Alemania. En 2005 publica Renegado. Novela de la época nerviosa; en 2009 su gran saga familiar El silencio. En 2010 recibe el Premio Georg Büchner. C. DREYMÜLLER
Cornelia Funke
(Dorsten, 1958)
Cornelia Funke es la heredera del gran Michael Ende en el reino de la fantasía. A raíz de la publicación de su trilogía Mundo de Tinta (Corazón de Tinta, Sangre de Tinta, Muerte de Tinta, Siruela, 2004-2008), se convirtió en una de las autoras de referencia del género que ha dominado la literatura infantil y juvenil en la última década. Con medio centenar de títulos publicados, entre cuentos para niños y novelas juveniles, varios de ellos adaptados al cine, en 2005 fue elegida por la revista Time como "una de las personas más influyentes del mundo". En 2010 apareció, con un espectacular lanzamiento simultáneo en 12 países, Reckless. Carne de piedra, primer título de su último y ambicioso proyecto literario: Mundo Espejo, una transgresora e inquietante serie inspirada en los cuentos de hadas tradicionales. VICTORIA FERNÁNDEZ
Kathrin Schmidt
(Gotha, 1958)
Kathrin Schmidt, la autora de la exuberante novela feminista La expedición Gunnar-Lennefsen (Tusquets), estudió Psicología y ha trabajado como psicóloga infantil, periodista y socióloga. Conocida primero como poeta, desde que en 1993 ganó el Premio Leonce-und-Lena de poesía, se ha hecho también un nombre como novelista con Los gatos negros de Seebach, que trata del acoso de los servicios secretos de la RDA, y Los hijos de Koenig, que aborda el desarraigo que experimentaron muchos ciudadanos de la RDA tras la caída del Muro. En 2009 ganó el Premio del Libro Alemán a la mejor novela con su relato autobiográfico sobre la paulatina recuperación de la memoria tras un coma clínico, No morirás. Libros recientes: el poemario Abejas ciegas y el tomo de relatos Finito. Pasemos página.C. DREYMÜLLER
Ralf König
(Soest, 1960)
Aprendiz de carpintero, el cómic se cruzó en su vida hasta convertirse en su profesión. Primero desde la historieta más alternativa, donde contaba las peripecias del colectivo gay alemán en revistas minoritarias para, casi de forma súbita, pasar al éxito popular con dos obras: El condón asesino y El Hombre Deseado. Desde entonces, su vitriólica visión de las relaciones humanas transciende los límites de la orientación sexual, con cómics que son siempre agudas reflexiones sobre el ser humano sin perder nunca de vista una militancia estricta en defensa de los derechos del colectivo gay que no evita la autocrítica más mordaz. Sus cómics pasean tanto por el costumbrismo como por peculiares y atrevidas adaptaciones queer de clásicos de la literatura griega (Lysistrata), Shakespeare o incluso la Biblia. ÁLVARO PONS
Uwe Timm
(Hamburgo, 1940)
Tras cursar estudios de filosofía y germanística, participó como miembro destacado en el movimiento estudiantil alemán de 1968. Varias de sus novelas son idóneas para comprender esta época. Escritor sociopolítico de izquierdas (pero crítico con la RDA), arremetió contra los prejuicios de la generación que abrazó el nazismo -¿por qué los alemanes de la época de Hitler secundaron los delirios de grandeza del dictador?-. Entre sus numerosas obras destaca Tras la sombra de mi hermano (Destino), una novela singular en forma de reportaje en la que investiga la personalidad de su hermano mayor, alistado a los 19 años en las SS y miembro de un batallón de exterminio de judíos. En castellano contamos también con La noche de San Juan (Alfaguara), un entretenido relato sobre la caótica reunificación alemana. L. F. MORENO CLAROS
Monika Maron
(Berlín, 1941)
El tema principal de la alemana oriental Monika Maron es la relación entre las dos Alemanias antes y después de la Unificación de 1990. Cenizas Volantes, publicado en la República Federal en 1981, es el primer libro que denunció los problemas medioambientales provocados por la industria pesada de la República Democrática Alemana (RDA). Se fue del país un año antes de que cayera el muro de Berlín, ya muy alejada de la ideología oficial del Estado. Vive en Berlín, donde nació en 1941. A Monika Maron, hijastra del que fuera ministro de Interior de la RDA Karl Maron, le pasó con la Stasi (la temida policía política de la RDA) algo parecido a lo de Günter Grass con la SS nazi: tras pasar años criticando en público a sus colaboradores, reconoció que ella también había trabajado para ellos. JUAN GÓMEZ
Botho Strauss
(Naumburg an der Saale, 1944)
Es uno de los dramaturgos alemanes de mayor éxito y proyección. En los setenta, piezas teatrales como Los hipocondríacos y Trilogía del reencuentro lo colocaron entre las primeras espadas de la literatura en alemán. No ha rehuido nunca la polémica, ni en el teatro ni en la narrativa. En los ochenta fue blanco de numerosas críticas por sus escritos narrativos, tachados de reaccionarios y antimodernos. Muy influido por pensadores como Heidegger, su crítica a la sociedad burguesa lo ha llevado, según sus críticos, a asumir posturas radicalmente conservadoras. Él dice no tener en mucha consideración ese concepto, porque "a fin de cuentas, toda la épica surge del pensamiento: los tiempos gloriosos son siempre pasados". La decadencia, por tanto, "siempre estuvo aquí". J. GÓMEZ
Rüdiger Safranski
(Rottweil, 1945)
Es el ensayista (e historiador de las ideas) de mayor impacto dentro y fuera de Alemania. Sus brillantes y asequibles biografías de E.T.A. Hoffmann, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger o Schiller le han granjeado cientos de miles de lectores en todo el mundo. Safranski rastrea todo lo que se conoce sobre sus biografiados y, en una forma muy particular de aproximarse a sus vidas, sus obras y las circunstancias históricas que las rodearon, consigue libros amenos y plenos de información sabiamente dosificada que seducen tanto a un público culto como al más especializado. Uno de sus recientes éxitos ha sido Romanticismo (Tusquets), obra en la que mediante breves biografías enlazadas traza una visión de este movimiento tan alemán. En castellano aparecerá pronto su último trabajo sobre la amistad entre Goethe y Schiller. L. F. MORENO CLAROS
Ingo Schulze
(Dresde, 1962)
Autor "revelación" surgido de la extinta RDA. Sus primeras novelas abordan el derrumbe de aquel Estado sovietizado, mentiroso y dictatorial, con un lenguaje renovado y punzante. El impacto de la política en el ciudadano corriente debido a la caída del muro de Berlín y la Unión Soviética son sus temas predilectos. En su exitoso debut literario, 33 momentos de felicidad (Destino), traza un mosaico humano de situaciones desternillantes, grotescas y tragicómicas que describen una Rusia trastocada sin el comunismo. En Historias simples, al igual que en su último libro, En línea (lo dos en Destino), trata de las desilusiones de individuos inmersos en un mundo que ha perdido su sentido, ya sea el de la antigua Alemania del Este o el dominado por la tiranía del teléfono móvil. L. F. MORENO CLAROS
Richard David Precht
(Solingen, 1964)
Tanto por su fama como por su valía, es hoy un punto de referencia en el panorama cultural alemán. Tras alguna publicación anterior, como La herencia de Noé (2000), en defensa de los animales; de su novela Los cosmonautas (2002), de amor y muerte, o de su libro autobiográfico Lenin llegó sólo hasta Lüdenscheid (2005), el gran éxito le llegó con ¿Quién soy y... cuántos? (Ariel, 2009), una especie de "viaje filosófico". Sigue su éxito con Amor. Un sentimiento desordenado (próximamente en Siruela), y en 2010 con El arte de no ser egoísta, lo que podíamos calificar como la ética de Precht. Tanto desde la filosofía, la sociología y la psicología como desde la ciencia (neurología, genética o evolución), Precht va iluminando temas de máximo interés de un modo atractivo y accesible. Un divulgador nada vulgar, un intelectual comprensible. ISIDORO REGUERA
Ulf K.
(Oberhausen, 1969)
Autor de dibujo limpio y cristalino, la obra de Ulf K. destaca por ser una forma de poesía gráfica personal, que trabaja el simbolismo de la fábula para captar al lector desde la nostalgia infantil y trasladarlo a un entorno de apariencia amable que esconde reflexiones sobre los aspectos más oscuros de la trascendencia humana. La muerte y el amor se alzan como elementos recurrentes de poemas visuales de un romanticismo melancólico travestido de surrealismo en claroscuro, representados perfectamente por el personaje de Hyeronimus B., (editado por Dibbuks) oficinista condenado a vivir una vida gris de la que sólo puede escapar a través del sueño de la utopía. El delicado trazo del autor suaviza el radical expresionismo de Frans Masereel, pero mantiene intacta la fuerza de su mensaje. Á. PONS
Daniel Kehlmann
(Múnich, 1975)
Con apenas 30 años, Daniel Kehlmann alcanzó un éxito inusitado con La medición del mundo. Vendió más de un millón y medio de ejemplares novelando las biografías del naturalista y científico Alexander von Humboldt y el matemático Carl Friedrich Gauß. Dos hombres de principios del Ochocientos con vidas antagónicas y personalidades paralelas. Su nada desdeñable aspiración era "enfrentarse de forma satírica y lúdica a lo que significa ser alemán" contando las vidas de estas dos personalidades señeras del preludio de la fundación de la Alemania moderna. En 2009 se publicó su última obra, Gloria, donde abandona el estilo lacónico del superventas de 2005 y se abre a la experimentación con los temas y la estructura. Dividida en nueve partes, es la historia de un escritor que sueña con una novela sin protagonista. J. GÓMEZ
Espanha e o movimento dos indignados - democracia real
Dominio público
Opinión a fondoDemocracia real y formal20 may 2011Compartir: Etiquetas: Ignacio Sánchez-Cuenca Anuncios Google
Anuncio Único
Abrindo Sua Empresa?Crie Sua Logomarca, Mascote, Cartão e Trabalhos de Web Design. Conheça!
www.wedologos.com.br
IGNACIO SÁNCHEZ-CUENCA
Ya han surgido críticas por el empleo de la expresión “democracia real” en el manifiesto del nuevo movimiento de protesta formado por los colectivos más afectados por la crisis. Algunos se escandalizan de que pueda contraponerse la democracia real a la formal. ¿Acaso la democracia de la que disfrutamos no es real? ¿Qué quiere decir entonces “real”? ¿Es que la democracia es algo más que las reglas que la constituyen y que garantizan la igualdad política de todos los ciudadanos y la celebración periódica de elecciones?
En una democracia, todo el mundo tiene el mismo derecho a participar en la esfera política. Además, los derechos de reunión, asociación y libre expresión permiten que los ciudadanos puedan organizarse políticamente, puedan expresarse y protestar y puedan recibir información libremente. La principal decisión colectiva que toma el pueblo es la elección de sus representantes que, a su vez, se encargan de formar un gobierno.
Todo en este sistema institucional está encaminado a que los representantes actúen según las preferencias mayoritarias en la sociedad. Eso es el autogobierno: que las decisiones políticas se tomen en función de lo que la gente quiere y no de lo que quieren los sabios, los poderosos, los aristócratas o cualquier otra élite. Si el autogobierno no tuviese valor alguno, se podría elegir a los representantes mediante sorteo.
La democracia formal es aquella en la que funcionan las reglas institucionales que definen el sistema, pero que no produce autogobierno. Hay elecciones, hay partidos con posiciones ideológicas diversas y se garantizan los derechos políticos básicos, mas el Gobierno no es capaz de gobernar siguiendo el parecer de la mayoría social.
Creo que, en el fondo, la protesta que está produciéndose estos días se dirige al déficit de autogobierno que padece nuestra sociedad. Este déficit es causado por dos factores muy distintos.
Por un lado, la corrupción, que tiene un efecto corrosivo brutal, sobre todo en tiempos de crisis en los que tanta gente pasa penurias. La corrupción rompe el vínculo representativo, pues el político actúa en beneficio propio o en el de su partido y no en beneficio de la sociedad. Es cierto que la corrupción está hoy enquistada en el nivel autonómico y municipal y no en el Gobierno central, pero teniendo en cuenta los recursos y competencias de los gobiernos autonómicos, esta constatación sirve de poco consuelo.
En la medida en que los partidos hagan la vista gorda ante los casos de corrupción que tienen en sus filas o no tomen medidas efectivas para evitar estos fenómenos, se produce un desafecto que se traduce en decepción con la “clase política”. Se supone que otros políticos, con otros niveles de exigencia, actuarían de forma distinta. Hay algo de ilusorio en esa pretensión, pues los políticos reaccionan sobre todo a los incentivos que tienen. Si la ciudadanía se vuelve más severa y se informa mejor y si se reducen las posibilidades de incurrir en prácticas corruptas mediante reformas institucionales adecuadas, esta misma clase política que hoy tenemos se volvería algo más “virtuosa”.
Por otro lado, hay también déficit de autogobierno porque los gobiernos del área euro se han quedado sin margen de maniobra para responder a la crisis. La política monetaria está en manos del BCE, que es independiente, pero responde sobre todo a los intereses de Alemania. Los países no pueden devaluar. Y el déficit público y la deuda que se genera como consecuencia de la caída de ingresos producida por la crisis no son sostenibles dado el perverso diseño institucional de la Unión Monetaria. Todo esto se traduce en políticas de ajuste dañinas que se imponen como un dictado en los países afectados. Otros países fuera del área euro, como Gran Bretaña,
Estados Unidos y Japón, tienen dificultades parecidas o incluso mayores en términos de déficit y deuda pero no están sometidos a los ajustes que requiere el sistema de gobierno de la Unión Monetaria.
En este sentido, da igual qué partido esté en el gobierno, socialdemócrata o conservador. No es un problema de “clase política”. El problema, más bien, es que no hay margen para hacer otra política que no consista en planes de ajuste destinados a frenar los ataques especulativos contra la deuda pública nacional, ataques que por lo demás son incentivados por el diseño institucional del euro. Es imposible imaginar ahora en España que un partido llegara al poder y pudiera hacer una política económica y social muy distinta, dadas las restricciones a las que se enfrentaría.
En estas condiciones, en las que España y otros países de su entorno parecen atrapados en situaciones imposibles como las que han experimentado muchos países emergentes en el pasado, no puede sorprender que surja la protesta por la pérdida de autogobierno democrático. Nos metimos en la aventura del euro. El experimento no ha funcionado como se esperaba, pero en lugar de reformar el sistema de gobierno del euro se obliga a los países de la Unión Monetaria a llevar a cabo planes de ajuste y reformas liberales que perjudican a grandes capas de la sociedad. Es lógico que en estas condiciones se reclame una “democracia real”, una democracia en la que el autogobierno vuelva a ser efectivo.
Ignacio Sánchez Cuenca es profesor de Sociología en la Universidad Complutense y autor de ‘Más democracia, menos liberalismo’
Opinión a fondoDemocracia real y formal20 may 2011Compartir: Etiquetas: Ignacio Sánchez-Cuenca Anuncios Google
Anuncio Único
Abrindo Sua Empresa?Crie Sua Logomarca, Mascote, Cartão e Trabalhos de Web Design. Conheça!
www.wedologos.com.br
IGNACIO SÁNCHEZ-CUENCA
Ya han surgido críticas por el empleo de la expresión “democracia real” en el manifiesto del nuevo movimiento de protesta formado por los colectivos más afectados por la crisis. Algunos se escandalizan de que pueda contraponerse la democracia real a la formal. ¿Acaso la democracia de la que disfrutamos no es real? ¿Qué quiere decir entonces “real”? ¿Es que la democracia es algo más que las reglas que la constituyen y que garantizan la igualdad política de todos los ciudadanos y la celebración periódica de elecciones?
En una democracia, todo el mundo tiene el mismo derecho a participar en la esfera política. Además, los derechos de reunión, asociación y libre expresión permiten que los ciudadanos puedan organizarse políticamente, puedan expresarse y protestar y puedan recibir información libremente. La principal decisión colectiva que toma el pueblo es la elección de sus representantes que, a su vez, se encargan de formar un gobierno.
Todo en este sistema institucional está encaminado a que los representantes actúen según las preferencias mayoritarias en la sociedad. Eso es el autogobierno: que las decisiones políticas se tomen en función de lo que la gente quiere y no de lo que quieren los sabios, los poderosos, los aristócratas o cualquier otra élite. Si el autogobierno no tuviese valor alguno, se podría elegir a los representantes mediante sorteo.
La democracia formal es aquella en la que funcionan las reglas institucionales que definen el sistema, pero que no produce autogobierno. Hay elecciones, hay partidos con posiciones ideológicas diversas y se garantizan los derechos políticos básicos, mas el Gobierno no es capaz de gobernar siguiendo el parecer de la mayoría social.
Creo que, en el fondo, la protesta que está produciéndose estos días se dirige al déficit de autogobierno que padece nuestra sociedad. Este déficit es causado por dos factores muy distintos.
Por un lado, la corrupción, que tiene un efecto corrosivo brutal, sobre todo en tiempos de crisis en los que tanta gente pasa penurias. La corrupción rompe el vínculo representativo, pues el político actúa en beneficio propio o en el de su partido y no en beneficio de la sociedad. Es cierto que la corrupción está hoy enquistada en el nivel autonómico y municipal y no en el Gobierno central, pero teniendo en cuenta los recursos y competencias de los gobiernos autonómicos, esta constatación sirve de poco consuelo.
En la medida en que los partidos hagan la vista gorda ante los casos de corrupción que tienen en sus filas o no tomen medidas efectivas para evitar estos fenómenos, se produce un desafecto que se traduce en decepción con la “clase política”. Se supone que otros políticos, con otros niveles de exigencia, actuarían de forma distinta. Hay algo de ilusorio en esa pretensión, pues los políticos reaccionan sobre todo a los incentivos que tienen. Si la ciudadanía se vuelve más severa y se informa mejor y si se reducen las posibilidades de incurrir en prácticas corruptas mediante reformas institucionales adecuadas, esta misma clase política que hoy tenemos se volvería algo más “virtuosa”.
Por otro lado, hay también déficit de autogobierno porque los gobiernos del área euro se han quedado sin margen de maniobra para responder a la crisis. La política monetaria está en manos del BCE, que es independiente, pero responde sobre todo a los intereses de Alemania. Los países no pueden devaluar. Y el déficit público y la deuda que se genera como consecuencia de la caída de ingresos producida por la crisis no son sostenibles dado el perverso diseño institucional de la Unión Monetaria. Todo esto se traduce en políticas de ajuste dañinas que se imponen como un dictado en los países afectados. Otros países fuera del área euro, como Gran Bretaña,
Estados Unidos y Japón, tienen dificultades parecidas o incluso mayores en términos de déficit y deuda pero no están sometidos a los ajustes que requiere el sistema de gobierno de la Unión Monetaria.
En este sentido, da igual qué partido esté en el gobierno, socialdemócrata o conservador. No es un problema de “clase política”. El problema, más bien, es que no hay margen para hacer otra política que no consista en planes de ajuste destinados a frenar los ataques especulativos contra la deuda pública nacional, ataques que por lo demás son incentivados por el diseño institucional del euro. Es imposible imaginar ahora en España que un partido llegara al poder y pudiera hacer una política económica y social muy distinta, dadas las restricciones a las que se enfrentaría.
En estas condiciones, en las que España y otros países de su entorno parecen atrapados en situaciones imposibles como las que han experimentado muchos países emergentes en el pasado, no puede sorprender que surja la protesta por la pérdida de autogobierno democrático. Nos metimos en la aventura del euro. El experimento no ha funcionado como se esperaba, pero en lugar de reformar el sistema de gobierno del euro se obliga a los países de la Unión Monetaria a llevar a cabo planes de ajuste y reformas liberales que perjudican a grandes capas de la sociedad. Es lógico que en estas condiciones se reclame una “democracia real”, una democracia en la que el autogobierno vuelva a ser efectivo.
Ignacio Sánchez Cuenca es profesor de Sociología en la Universidad Complutense y autor de ‘Más democracia, menos liberalismo’
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Nye e a ordem internacional
Eentrevista: Que papel os países ricos e emergentes vão desempenhar num mundo globalizado, com crise econômica, conflitos étnicos e terrorismo? O professor de Harvard Joseph Nye, uma das principais autoridades em relações internacionais, responde.
O poder muda de mãos
João Villaverde | De São Paulo
20/05/2011
Para Nye, assassinato de Bin Laden contribui para "esvaziar o mito de invencibilidade usado por ele desde o 11 de Setembro"A China vai alcançar os EUA, em termos econômicos, em algum momento desta década. Mas ainda vai demorar outras três décadas para se equiparar aos americanos na divisão per capita da riqueza produzida pelo país. O problema é que os chineses não desfrutam, como os americanos, de uma capacidade para atingir corações e mentes, o "soft power", aquele poder suave capaz de liderar o mundo no campo das ideias e dos costumes. Essa é a avaliação de Joseph Nye, cientista político, professor da Universidade de Harvard e ex-consultor do Departamento de Estado dos EUA, para quem o Brasil conta com um bônus estratégico na correlação de forças no campo das ideias - o fato de crescer rápido sob um regime democrático, com alternância de poder e eleições livres.
"Imagine o México e o Canadá conspirando com a China para reduzir o poder dos EUA. É exatamente o que ocorre com Japão, Vietnã e Coreia do Sul, que buscam os americanos para contrabalançar o poder chinês na Ásia", afirma Nye, em entrevista, por telefone, ao Valor. "Quando falamos de 'soft power', é isso."
Nye obteve reconhecimento internacional em dois momentos muito distintos. No primeiro, em 1977, o cientista político americano desenvolveu o termo neoliberalismo para denominar os ideias dos economistas da Universidade de Chicago, então proeminentes no debate público americano e cujo líder, Milton Friedman, levara o Prêmio Nobel de Economia em 1976. Segundo Nye, os neoliberais defendiam uma política econômica que perseguia a redução do aparato estatal - dos investimentos às agências públicas, passando pela regulação dos negócios - e viam no mercado, especialmente o financeiro, a saída mais razoável para os problemas econômicos.
Já em 2004, seu livro "Soft Power: The Means to Success in World Politics" (Poder suave: a maneira de fazer sucesso na política global, em tradução livre) trouxe para o debate internacional uma atualização da teoria do italiano Antonio Gramsci (1891-1937), que dividia as nações entre as que exerciam um poder de hegemonia dirigente - no campo da cultura e das ideias - e os que exerciam hegemonia dominante - pela via militar.
"Não vejo o declínio americano. O que há é uma ascensão do resto. Em termos absolutos, os Estados Unidos vão ficar bem"
Para Nye, o "soft power", mais eficaz no domínio de uma nação sobre outras mais pobres, era exercido de maneira exemplar pelos Estados Unidos - de onde emanavam os filmes de Hollywood, as celebridades musicais, os políticos carismáticos. Ao mesmo tempo, o "hard power" americano também era forte - o dólar como moeda universal, o poderio militar, a chefia do grupo dos sete países mais ricos do mundo (G-7) e a influência por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Hoje, o neoliberalismo perdeu força diante da emergência de países onde o Estado tem grande influência - como China, Brasil e Índia, em diferentes escalas - e o "soft power" americano é ameaçado pela crise mundial e pelo vazamento de grampos nas embaixadas americanas por parte do WikiLeaks.
Para Nye, que acaba de publicar o livro "The Future of Power" (O futuro do poder, em tradução livre), o Brasil desenvolveu um modelo exportável para outras nações, ao combinar crescimento e democracia, mas não pode deixar a inflação escapar do controle. Ao mesmo tempo, a ideia de uma teoria para suceder ao neoliberalismo, que alguns economistas chamam de capitalismo de Estado, precisa ser colocada em perspectiva. Tal qual ocorreu com o neoliberalismo, diz Nye, "hoje vivemos outra supersimplificação ideológica na economia, que vê no Estado grande uma solução universal para o capitalismo".
A seguir, trechos da entrevista:
Valor: Em 2004, quando o senhor desenvolveu a teoria do "soft" e do "hard power", o mundo vivia o século americano. A China não era estudada com a mesma intensidade de hoje, eram poucos os governos de esquerda com discurso antiamericano na América Latina e as guerras no Afeganistão e no Iraque tinham grande apoio. Depois da crise de 2008, não apenas passamos a ver países como China, Índia e Brasil ganharem mais espaço no noticiário, como o Estado, antes enxugado, passou a ter predominância nas discussões econômicas. O poder está mudando de mãos?
Ruy Baron/Valor
Dilma Roussef: para o professor de Harvard, presidente dá sinais de que seguirá a trilha do progresso de seus antecessores Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso
Joseph Nye: Definitivamente, os países emergentes estão aumentando seu "soft power" com uma rapidez sem precedentes. Mas há nuanças entre eles. O "soft power" vem de valores e da cultura e de como as políticas de cada governo são percebidas por outros países, isto é, o jeito como os governantes se vendem. Então, há uma certa atração por países como Brasil, Índia e China, que nasce do sucesso recente. Mas acho que Brasil e Índia têm um bônus, pois são democráticos. A China, por exemplo, gastou muito dinheiro, alguns bilhões de dólares, para aumentar seu "soft power", com seus institutos confucianos e exposição da marca China no mundo inteiro, mas, ao mesmo tempo, prendeu Liu Xiaobo [escritor e ativista dos direitos humanos chinês, preso pelo governo e ganhador do Prêmio Nobel da Paz]. Esse tipo de atitude, perante os holofotes globais, corta rapidamente seus investimentos em "soft power". Já o Brasil, com suas eleições democráticas, a troca de pessoas nos governos, atrai muita atenção, como a Índia. Acho que sim, o "soft power" dos emergentes está aumentando, mas penso que a China tem uma tarefa muito mais complexa do que o Brasil em virtude de seu regime autoritário.
Valor: E o "hard power" dos emergentes, cresce mais rápido que o "soft power"?
Nye: Com 10% de crescimento econômico anual e com orçamento militar crescendo ainda mais rápido que o PIB anualmente, o "hard power" da China está crescendo forte e rápido. Mas sempre que o "hard power" de alguma nação cresce forte, ela pode acabar assustando seus vizinhos. E se você assusta seus vizinhos demais - e não tem seu "soft power" para contrabalançar -, podem surgir coalizões contra você. Se olharmos com atenção, as relações atuais da China com Corea do Sul, Japão, Vietnã e Índia estão piores do que estavam há dois anos. Preste atenção: todos esses países querem a presença americana para contrabalançar o poder chinês.
Valor: E os americanos têm disposição ou dinheiro para isso?
Nye: Certamente podem equilibrar o poder chinês desse jeito. O governo americano tem quase 50 mil tropas no Japão, e os japoneses dão muito suporte financeiro a essas expedições. Não há um grande custo para o orçamento americano. O que os americanos têm de repensar em sua estratégia militar é outra coisa. Deveriam seguir o conselho que [Dwight] Einsenhower [presidente dos EUA entre 1953 e 1961] fez 50 anos atrás: "Não se envolva territorialmente na Ásia". Embora a guerra no Afeganistão esteja nos custando algo como US$ 100 bilhões ao ano, manter tropas no Japão não nos custa muito, não sei quanto exatamente, mas é pouco comparativamente. Os americanos podem pagar por essas operações, que aumentam sua influência em terras estrangeiras? Podem, porque os outros nos querem lá. É quando você não é desejado, como no Afeganistão, que fica caro.
Valor: Quer dizer que o incremento no "hard power" chinês acaba sendo positivo para os Estados Unidos?
AP
Barack Obama: discurso do presidente, segundo Nye, propõe uma política externa mais aberta e colaboradora
Nye: Exatamente. Imagine o México e o Canadá conspirando com a China para reduzir o poder dos EUA. É o que ocorre com Japão, Vietnã e Coreia do Sul, que buscam os americanos para contrabalançar o poder chinês na Ásia. A diferença é que os Estados Unidos têm muito "soft power" no Canadá e no México, e a China não tem muito em Tóquio ou em Nova Déli.
Valor: Para o estrategista Michael Mandelbaum, a geração dos "baby boomers" [os nascidos entre 1946 e 1964, nos EUA] está envelhecendo e, ao mesmo tempo, os EUA estão tendo de lidar com a crise. Haverá dinheiro para pagar aposentadorias e recuperar a economia?
Nye: Se olhar a comissão que Barack Obama destacou para debater o futuro da solvência americana, muitas propostas poderiam resolver os problemas de maneira bem razoável. A questão não é se determinada proposta é pagável, mas se politicamente conseguiremos construir um consenso de forma a trabalhar em torno de um objetivo único. Vemos o início dessas discussões, mas os políticos ainda vão demorar cerca de dois anos para determinar um caminho único.
Valor: Por que algum país ficaria atraído pelos americanos no século XXI, após a explosão da crise econômica mundial?
Nye: Em meu novo livro, "The Future of Power", há um capítulo para discutir isso, ou seja, o futuro dos EUA. Argumento que não vejo o declínio americano. O que há é uma ascensão do resto. Em termos absolutos, acho que os americanos vão ficar relativamente bem, mas, em termos relativos, países como China, Índia, Brasil, estão se aproximando dos EUA e continuarão fazendo isso. Não necessariamente eles ultrapassarão os EUA, mas estão chegando perto. Nesse mundo, os americanos vão precisar de uma estratégia de cooperação e colaboração com os outros. Além disso, é um mundo em que muitas questões vão ficar mais sérias. Temas como mudança climática, segurança cibernética, estabilidade financeira, tudo isso requer cooperação, nenhum país sozinho conseguirá resolvê-los. Os americanos vão ficar com uma política externa mais colaboradora, mais aberta, e isso é muito positivo, mas vai demorar um tempo para que atinjamos esse processo. E acho que Obama está dirigindo-se nessa direção.
Valor: Por quê?
Nye: Não sei se ele está efetivamente se dirigindo à maior cooperação, mas certamente seu discurso e sua figura como presidente vão nessa direção.
Valor: O assassinato de Osama Bin Laden pode desarticular o discurso da "guerra antiterrorismo" e, de certa forma, reverter a perda de hegemonia dos EUA?
Nye: O terrorismo depende de drama e narrativa para capturar a atenção da mídia e impor uma agenda mundial, ou seja, não necessariamente americana, mas de praticamente todos os países. O assassinato de Bin Laden contribui para esvaziar o mito de invencibilidade que ele usou para definir a agenda desde o episódio do 11 de Setembro de 2001. Não é o fim do terrorismo, mas o início de uma série de reveses para a Al Qaeda.
Valor: Na América Latina, assistimos à ascensão de governos que renegam o passado recente de seus países, quando a participação americana era muito grande. Vê espaço para os americanos ampliarem seu "soft power" aqui?
Nye: Não acho que Venezuela e Equador são a onda do futuro, sinceramente. Se perguntar aos países do continente se todos querem seguir a risca esses modelos, não tenho certeza que encontrará a maioria respondendo que sim. Acho que o Brasil é, obviamente, mais importante. Temos visto grande progresso no Brasil. Basta verificar o que fizeram [Fernando Henrique] Cardoso, [Luiz Inácio] Lula [da Silva] e agora Dilma [Rousseff], que também segue o mesmo caminho. São com países como o Brasil que os EUA podem trabalhar muito bem.
Valor: A crise de 2008 reduziu o ímpeto da teoria neoliberal e do Consenso de Washington. Com o recrudescimento do papel do Estado, seja absorvendo empresas e bancos falidos nos países ricos, seja ampliando os investimentos e gastos com pessoal nos países emergentes, o senhor vê uma nova teoria econômica surgindo?
Nye: Algumas pessoas denominam esse modelo pós-crise de capitalismo de Estado, dizendo que esta teoria será majoritária no futuro. Isso é simplista. Da mesma forma que o Consenso de Washington era supersimplificado. Não acho que há um tipo de capitalismo, mas vários. Na Europa, é possível encontrar diferentes modelos de capitalismo: o praticado por escandinavos, outro pelos alemães, outro pelos franceses e outro pelos ingleses. As pessoas esquecem que havia discordâncias entre os teóricos que participaram daquela reunião que gerou o Consenso de Washington.
Valor: Poderia haver alguma divisão, mas, ao fim, era um consenso, não?
Nye: O que caracteriza o Consenso de Washington foi uma simplificação grosseira de que os mercados poderiam resolver tudo e que não precisavam do Estado para nada ou muito pouco. Os tempos de mudança, naquela época, permitiram aquilo. Como ocorre agora, não é? Vivemos hoje outra supersimplificação, de que o Estado capitalista resolve tudo. Mas há nuanças entre China, Índia e Brasil, ou a atuação e o tamanho do Estado nesses países é igual? É claro que não.
Valor: Como o senhor vê os países europeus vivendo a atual situação de dívidas enormes e uma economia de fraco crescimento?
Nye: A Europa vive um período diferente em termos de problemas com dívida soberana. Mas quando se olha alguns anos à frente, sem toda essa urgência do momento, penso que os europeus vão se sair bem. Nada é garantido, claro, podemos ver novos problemas ou surpresas no meio do caminho. Mas acho que a União Europeia vai sobreviver, e, ainda que não vejamos crescimento rápido entre os europeus, podemos esperar algum crescimento, o que já seria ótimo. Penso que, em algum momento, deverá haver uma reestruturação de dívida na Grécia, Portugal, Irlanda ou Espanha, que são os mais problemáticos.
Valor: E nos Estados Unidos?
Nye: Vai depender muito se atingirmos um acordo, nos próximos dois ou três anos, em torno do que fazer e dar prioridade no orçamento. Penso que conseguiremos, mas isso passará pela formação de uma grande aliança. Se olhar os fundamentos de nossa economia, ela ainda é razoavelmente forte. Os EUA, de acordo com o mais recente Fórum Econômico Mundial, ainda é a quarta economia mais competitiva do mundo. Isso diz muito, não? A China é a 27ª.
Valor: Os Estados Unidos ainda poderão ser reconhecidos pela inovação e criatividade?
Nye: Se olhar novas tecnologias, como biotecnologia e nanotecnologia, os Estados Unidos estão na primeira fila da inovação. Ainda que tenhamos problemas para pagar pelo comportamento da última década, não somos uma economia em colapso. É bom lembrar que apenas 12 anos atrás, os Estados Unidos tinham superávit orçamentário. Mas Bush concedeu desonerações fiscais aos mais ricos e entrou em duas guerras que não foram pagas. Esse é um problema sério. Se seremos capazes de resolvê-lo, não sei. Isso depende da política. Mas economicamente é plausível.
Valor: O xadrez geopolítico mudou rapidamente: era um, poucos anos atrás, e outro muito distinto hoje, com EUA e Europa em crise, países emergentes ganhando capa de revistas importantes e revoluções populares em antigas ditaduras árabes. Como será esta década?
Nye: Ainda teremos crescimento rápido em países como Índia, Brasil e China. Acho que a economia americana vai melhorar e caminhar para crescimento de 2% a 3% ao ano, além de considerar bem difícil uma crise em "W". O tamanho da economia chinesa será equivalente à americana em algum momento desta década, em termos de PIB. Mas é importante entender que, mesmo tendo certa equivalência no tamanho da economia, não haverá a mesma qualidade na composição desse crescimento. A China ainda conviverá com grandes bolsões de pobreza e ineficiência. Você mede isso pelo PIB per capita. Nesse caso, a China não será equivalente aos EUA pelas próximas duas ou três décadas.
Valor: Vivemos no Brasil algo relativamente parecido com os EUA dos anos 50, só que sem a União Soviética. Quer dizer, formamos uma classe média, que está por trás do crescimento econômico puxado por mercado doméstico aquecido. O senhor considera esse um modelo exportável?
Nye: Se os brasileiros conseguirem manter a inflação sob controle, a resposta é sim. No Brasil, sob FHC, vocês conseguiram manter a inflação sob controle e Lula foi hábil para continuar aquela política fiscal razoavelmente apertada, especialmente no começo. Ao mesmo tempo, Lula lançou mão do Bolsa Família para fazer algo pela desigualdade. Minha impressão é que se o Brasil continuar com essas linhas, com inflação baixa e queda dos indicadores de pobreza, não há dúvidas que vocês terão um modelo que outros países vão admirar, e eventualmente copiar.
O poder muda de mãos
João Villaverde | De São Paulo
20/05/2011
Para Nye, assassinato de Bin Laden contribui para "esvaziar o mito de invencibilidade usado por ele desde o 11 de Setembro"A China vai alcançar os EUA, em termos econômicos, em algum momento desta década. Mas ainda vai demorar outras três décadas para se equiparar aos americanos na divisão per capita da riqueza produzida pelo país. O problema é que os chineses não desfrutam, como os americanos, de uma capacidade para atingir corações e mentes, o "soft power", aquele poder suave capaz de liderar o mundo no campo das ideias e dos costumes. Essa é a avaliação de Joseph Nye, cientista político, professor da Universidade de Harvard e ex-consultor do Departamento de Estado dos EUA, para quem o Brasil conta com um bônus estratégico na correlação de forças no campo das ideias - o fato de crescer rápido sob um regime democrático, com alternância de poder e eleições livres.
"Imagine o México e o Canadá conspirando com a China para reduzir o poder dos EUA. É exatamente o que ocorre com Japão, Vietnã e Coreia do Sul, que buscam os americanos para contrabalançar o poder chinês na Ásia", afirma Nye, em entrevista, por telefone, ao Valor. "Quando falamos de 'soft power', é isso."
Nye obteve reconhecimento internacional em dois momentos muito distintos. No primeiro, em 1977, o cientista político americano desenvolveu o termo neoliberalismo para denominar os ideias dos economistas da Universidade de Chicago, então proeminentes no debate público americano e cujo líder, Milton Friedman, levara o Prêmio Nobel de Economia em 1976. Segundo Nye, os neoliberais defendiam uma política econômica que perseguia a redução do aparato estatal - dos investimentos às agências públicas, passando pela regulação dos negócios - e viam no mercado, especialmente o financeiro, a saída mais razoável para os problemas econômicos.
Já em 2004, seu livro "Soft Power: The Means to Success in World Politics" (Poder suave: a maneira de fazer sucesso na política global, em tradução livre) trouxe para o debate internacional uma atualização da teoria do italiano Antonio Gramsci (1891-1937), que dividia as nações entre as que exerciam um poder de hegemonia dirigente - no campo da cultura e das ideias - e os que exerciam hegemonia dominante - pela via militar.
"Não vejo o declínio americano. O que há é uma ascensão do resto. Em termos absolutos, os Estados Unidos vão ficar bem"
Para Nye, o "soft power", mais eficaz no domínio de uma nação sobre outras mais pobres, era exercido de maneira exemplar pelos Estados Unidos - de onde emanavam os filmes de Hollywood, as celebridades musicais, os políticos carismáticos. Ao mesmo tempo, o "hard power" americano também era forte - o dólar como moeda universal, o poderio militar, a chefia do grupo dos sete países mais ricos do mundo (G-7) e a influência por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Hoje, o neoliberalismo perdeu força diante da emergência de países onde o Estado tem grande influência - como China, Brasil e Índia, em diferentes escalas - e o "soft power" americano é ameaçado pela crise mundial e pelo vazamento de grampos nas embaixadas americanas por parte do WikiLeaks.
Para Nye, que acaba de publicar o livro "The Future of Power" (O futuro do poder, em tradução livre), o Brasil desenvolveu um modelo exportável para outras nações, ao combinar crescimento e democracia, mas não pode deixar a inflação escapar do controle. Ao mesmo tempo, a ideia de uma teoria para suceder ao neoliberalismo, que alguns economistas chamam de capitalismo de Estado, precisa ser colocada em perspectiva. Tal qual ocorreu com o neoliberalismo, diz Nye, "hoje vivemos outra supersimplificação ideológica na economia, que vê no Estado grande uma solução universal para o capitalismo".
A seguir, trechos da entrevista:
Valor: Em 2004, quando o senhor desenvolveu a teoria do "soft" e do "hard power", o mundo vivia o século americano. A China não era estudada com a mesma intensidade de hoje, eram poucos os governos de esquerda com discurso antiamericano na América Latina e as guerras no Afeganistão e no Iraque tinham grande apoio. Depois da crise de 2008, não apenas passamos a ver países como China, Índia e Brasil ganharem mais espaço no noticiário, como o Estado, antes enxugado, passou a ter predominância nas discussões econômicas. O poder está mudando de mãos?
Ruy Baron/Valor
Dilma Roussef: para o professor de Harvard, presidente dá sinais de que seguirá a trilha do progresso de seus antecessores Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso
Joseph Nye: Definitivamente, os países emergentes estão aumentando seu "soft power" com uma rapidez sem precedentes. Mas há nuanças entre eles. O "soft power" vem de valores e da cultura e de como as políticas de cada governo são percebidas por outros países, isto é, o jeito como os governantes se vendem. Então, há uma certa atração por países como Brasil, Índia e China, que nasce do sucesso recente. Mas acho que Brasil e Índia têm um bônus, pois são democráticos. A China, por exemplo, gastou muito dinheiro, alguns bilhões de dólares, para aumentar seu "soft power", com seus institutos confucianos e exposição da marca China no mundo inteiro, mas, ao mesmo tempo, prendeu Liu Xiaobo [escritor e ativista dos direitos humanos chinês, preso pelo governo e ganhador do Prêmio Nobel da Paz]. Esse tipo de atitude, perante os holofotes globais, corta rapidamente seus investimentos em "soft power". Já o Brasil, com suas eleições democráticas, a troca de pessoas nos governos, atrai muita atenção, como a Índia. Acho que sim, o "soft power" dos emergentes está aumentando, mas penso que a China tem uma tarefa muito mais complexa do que o Brasil em virtude de seu regime autoritário.
Valor: E o "hard power" dos emergentes, cresce mais rápido que o "soft power"?
Nye: Com 10% de crescimento econômico anual e com orçamento militar crescendo ainda mais rápido que o PIB anualmente, o "hard power" da China está crescendo forte e rápido. Mas sempre que o "hard power" de alguma nação cresce forte, ela pode acabar assustando seus vizinhos. E se você assusta seus vizinhos demais - e não tem seu "soft power" para contrabalançar -, podem surgir coalizões contra você. Se olharmos com atenção, as relações atuais da China com Corea do Sul, Japão, Vietnã e Índia estão piores do que estavam há dois anos. Preste atenção: todos esses países querem a presença americana para contrabalançar o poder chinês.
Valor: E os americanos têm disposição ou dinheiro para isso?
Nye: Certamente podem equilibrar o poder chinês desse jeito. O governo americano tem quase 50 mil tropas no Japão, e os japoneses dão muito suporte financeiro a essas expedições. Não há um grande custo para o orçamento americano. O que os americanos têm de repensar em sua estratégia militar é outra coisa. Deveriam seguir o conselho que [Dwight] Einsenhower [presidente dos EUA entre 1953 e 1961] fez 50 anos atrás: "Não se envolva territorialmente na Ásia". Embora a guerra no Afeganistão esteja nos custando algo como US$ 100 bilhões ao ano, manter tropas no Japão não nos custa muito, não sei quanto exatamente, mas é pouco comparativamente. Os americanos podem pagar por essas operações, que aumentam sua influência em terras estrangeiras? Podem, porque os outros nos querem lá. É quando você não é desejado, como no Afeganistão, que fica caro.
Valor: Quer dizer que o incremento no "hard power" chinês acaba sendo positivo para os Estados Unidos?
AP
Barack Obama: discurso do presidente, segundo Nye, propõe uma política externa mais aberta e colaboradora
Nye: Exatamente. Imagine o México e o Canadá conspirando com a China para reduzir o poder dos EUA. É o que ocorre com Japão, Vietnã e Coreia do Sul, que buscam os americanos para contrabalançar o poder chinês na Ásia. A diferença é que os Estados Unidos têm muito "soft power" no Canadá e no México, e a China não tem muito em Tóquio ou em Nova Déli.
Valor: Para o estrategista Michael Mandelbaum, a geração dos "baby boomers" [os nascidos entre 1946 e 1964, nos EUA] está envelhecendo e, ao mesmo tempo, os EUA estão tendo de lidar com a crise. Haverá dinheiro para pagar aposentadorias e recuperar a economia?
Nye: Se olhar a comissão que Barack Obama destacou para debater o futuro da solvência americana, muitas propostas poderiam resolver os problemas de maneira bem razoável. A questão não é se determinada proposta é pagável, mas se politicamente conseguiremos construir um consenso de forma a trabalhar em torno de um objetivo único. Vemos o início dessas discussões, mas os políticos ainda vão demorar cerca de dois anos para determinar um caminho único.
Valor: Por que algum país ficaria atraído pelos americanos no século XXI, após a explosão da crise econômica mundial?
Nye: Em meu novo livro, "The Future of Power", há um capítulo para discutir isso, ou seja, o futuro dos EUA. Argumento que não vejo o declínio americano. O que há é uma ascensão do resto. Em termos absolutos, acho que os americanos vão ficar relativamente bem, mas, em termos relativos, países como China, Índia, Brasil, estão se aproximando dos EUA e continuarão fazendo isso. Não necessariamente eles ultrapassarão os EUA, mas estão chegando perto. Nesse mundo, os americanos vão precisar de uma estratégia de cooperação e colaboração com os outros. Além disso, é um mundo em que muitas questões vão ficar mais sérias. Temas como mudança climática, segurança cibernética, estabilidade financeira, tudo isso requer cooperação, nenhum país sozinho conseguirá resolvê-los. Os americanos vão ficar com uma política externa mais colaboradora, mais aberta, e isso é muito positivo, mas vai demorar um tempo para que atinjamos esse processo. E acho que Obama está dirigindo-se nessa direção.
Valor: Por quê?
Nye: Não sei se ele está efetivamente se dirigindo à maior cooperação, mas certamente seu discurso e sua figura como presidente vão nessa direção.
Valor: O assassinato de Osama Bin Laden pode desarticular o discurso da "guerra antiterrorismo" e, de certa forma, reverter a perda de hegemonia dos EUA?
Nye: O terrorismo depende de drama e narrativa para capturar a atenção da mídia e impor uma agenda mundial, ou seja, não necessariamente americana, mas de praticamente todos os países. O assassinato de Bin Laden contribui para esvaziar o mito de invencibilidade que ele usou para definir a agenda desde o episódio do 11 de Setembro de 2001. Não é o fim do terrorismo, mas o início de uma série de reveses para a Al Qaeda.
Valor: Na América Latina, assistimos à ascensão de governos que renegam o passado recente de seus países, quando a participação americana era muito grande. Vê espaço para os americanos ampliarem seu "soft power" aqui?
Nye: Não acho que Venezuela e Equador são a onda do futuro, sinceramente. Se perguntar aos países do continente se todos querem seguir a risca esses modelos, não tenho certeza que encontrará a maioria respondendo que sim. Acho que o Brasil é, obviamente, mais importante. Temos visto grande progresso no Brasil. Basta verificar o que fizeram [Fernando Henrique] Cardoso, [Luiz Inácio] Lula [da Silva] e agora Dilma [Rousseff], que também segue o mesmo caminho. São com países como o Brasil que os EUA podem trabalhar muito bem.
Valor: A crise de 2008 reduziu o ímpeto da teoria neoliberal e do Consenso de Washington. Com o recrudescimento do papel do Estado, seja absorvendo empresas e bancos falidos nos países ricos, seja ampliando os investimentos e gastos com pessoal nos países emergentes, o senhor vê uma nova teoria econômica surgindo?
Nye: Algumas pessoas denominam esse modelo pós-crise de capitalismo de Estado, dizendo que esta teoria será majoritária no futuro. Isso é simplista. Da mesma forma que o Consenso de Washington era supersimplificado. Não acho que há um tipo de capitalismo, mas vários. Na Europa, é possível encontrar diferentes modelos de capitalismo: o praticado por escandinavos, outro pelos alemães, outro pelos franceses e outro pelos ingleses. As pessoas esquecem que havia discordâncias entre os teóricos que participaram daquela reunião que gerou o Consenso de Washington.
Valor: Poderia haver alguma divisão, mas, ao fim, era um consenso, não?
Nye: O que caracteriza o Consenso de Washington foi uma simplificação grosseira de que os mercados poderiam resolver tudo e que não precisavam do Estado para nada ou muito pouco. Os tempos de mudança, naquela época, permitiram aquilo. Como ocorre agora, não é? Vivemos hoje outra supersimplificação, de que o Estado capitalista resolve tudo. Mas há nuanças entre China, Índia e Brasil, ou a atuação e o tamanho do Estado nesses países é igual? É claro que não.
Valor: Como o senhor vê os países europeus vivendo a atual situação de dívidas enormes e uma economia de fraco crescimento?
Nye: A Europa vive um período diferente em termos de problemas com dívida soberana. Mas quando se olha alguns anos à frente, sem toda essa urgência do momento, penso que os europeus vão se sair bem. Nada é garantido, claro, podemos ver novos problemas ou surpresas no meio do caminho. Mas acho que a União Europeia vai sobreviver, e, ainda que não vejamos crescimento rápido entre os europeus, podemos esperar algum crescimento, o que já seria ótimo. Penso que, em algum momento, deverá haver uma reestruturação de dívida na Grécia, Portugal, Irlanda ou Espanha, que são os mais problemáticos.
Valor: E nos Estados Unidos?
Nye: Vai depender muito se atingirmos um acordo, nos próximos dois ou três anos, em torno do que fazer e dar prioridade no orçamento. Penso que conseguiremos, mas isso passará pela formação de uma grande aliança. Se olhar os fundamentos de nossa economia, ela ainda é razoavelmente forte. Os EUA, de acordo com o mais recente Fórum Econômico Mundial, ainda é a quarta economia mais competitiva do mundo. Isso diz muito, não? A China é a 27ª.
Valor: Os Estados Unidos ainda poderão ser reconhecidos pela inovação e criatividade?
Nye: Se olhar novas tecnologias, como biotecnologia e nanotecnologia, os Estados Unidos estão na primeira fila da inovação. Ainda que tenhamos problemas para pagar pelo comportamento da última década, não somos uma economia em colapso. É bom lembrar que apenas 12 anos atrás, os Estados Unidos tinham superávit orçamentário. Mas Bush concedeu desonerações fiscais aos mais ricos e entrou em duas guerras que não foram pagas. Esse é um problema sério. Se seremos capazes de resolvê-lo, não sei. Isso depende da política. Mas economicamente é plausível.
Valor: O xadrez geopolítico mudou rapidamente: era um, poucos anos atrás, e outro muito distinto hoje, com EUA e Europa em crise, países emergentes ganhando capa de revistas importantes e revoluções populares em antigas ditaduras árabes. Como será esta década?
Nye: Ainda teremos crescimento rápido em países como Índia, Brasil e China. Acho que a economia americana vai melhorar e caminhar para crescimento de 2% a 3% ao ano, além de considerar bem difícil uma crise em "W". O tamanho da economia chinesa será equivalente à americana em algum momento desta década, em termos de PIB. Mas é importante entender que, mesmo tendo certa equivalência no tamanho da economia, não haverá a mesma qualidade na composição desse crescimento. A China ainda conviverá com grandes bolsões de pobreza e ineficiência. Você mede isso pelo PIB per capita. Nesse caso, a China não será equivalente aos EUA pelas próximas duas ou três décadas.
Valor: Vivemos no Brasil algo relativamente parecido com os EUA dos anos 50, só que sem a União Soviética. Quer dizer, formamos uma classe média, que está por trás do crescimento econômico puxado por mercado doméstico aquecido. O senhor considera esse um modelo exportável?
Nye: Se os brasileiros conseguirem manter a inflação sob controle, a resposta é sim. No Brasil, sob FHC, vocês conseguiram manter a inflação sob controle e Lula foi hábil para continuar aquela política fiscal razoavelmente apertada, especialmente no começo. Ao mesmo tempo, Lula lançou mão do Bolsa Família para fazer algo pela desigualdade. Minha impressão é que se o Brasil continuar com essas linhas, com inflação baixa e queda dos indicadores de pobreza, não há dúvidas que vocês terão um modelo que outros países vão admirar, e eventualmente copiar.
terça-feira, 17 de maio de 2011
A revolta arabe
Folha de São Paulo, terça-feira, 17 de maio de 2011
"Morte de Osama ajuda revolta árabe"
Fim do líder terrorista surge na hora em que região mostra aversão a radicalismo, diz analista francês Zaki Laidi
Para diretor do IEP de Paris, potências estão de mãos atadas e não conseguem impedir massacre civil na Síria
SAMY ADGHIRNI
DE SÃO PAULO
A indiferença com a qual a morte de Osama bin Laden foi recebida no mundo árabe prova que as populações da região sabem que o radicalismo violento não leva a nada. A avaliação é do analista Zaiki Laidi, diretor de pesquisa do prestigiado Instituto de Estudos Políticos de Paris. Ele conversou com a Folha, por telefone, na semana passada.
Folha - Qual o efeito da morte de Bin Laden sobre a Primavera Árabe?
Zaki Laidi - É a melhor notícia possível para a Primavera Árabe. É uma coincidência feliz entre um levante que não deve nada ao islamismo [militante], muito menos ao islamismo radical, e a destruição do maior símbolo do radicalismo devastador.
Isso mostra que o jihadismo não leva a resultado tangível. O que os jihadistas conseguiram em 30 anos de ativismo iniciado com o assassinato do [presidente egípcio Anuar] Sadat? Nada, tanto em termos de eficiência política quanto em capacidade de mobilizar as populações em torno do radicalismo.
O radicalismo violento não produziu nada inclusive na questão palestina. Nesse tema, acabamos de ver um exemplo claro de que a opção democrática rende melhor resultado. A reaproximação entre Hamas e Fatah, articulada pelo novo governo egípcio, é o claro desdobramento da mudança de governo no Egito na frente externa.
Ela mostra que um regime democrático árabe pode ter efeito alavancador sobre a questão palestina maior do que um regime não democrático. O atual governo egípcio fez o que [o ex-ditador Hosni Mubarak] jamais conseguiu.
E nenhuma país condenou a iniciativa. Shimon Peres [presidente de Israel] disse que importa o que o Hamas faz, não o que ele diz.
As circunstâncias da morte de Bin Laden não podem prejudicar a relação entre o Ocidente e os muçulmanos?
Não creio. A morte de Bin Laden foi recebida no mundo árabe com indiferença.
Não acho que o jihadismo tenha morrido, mas é o fim de um ciclo. Historicamente, é raro que um movimento sobreviva à queda ou morte de um líder carismático.
Por que há pouca reação aos massacres de civis na Síria?
Primeiro, é difícil para a comunidade internacional e os atores dominantes se mobilizarem intensa e simultaneamente em várias frentes.
A segunda razão é que a questão da Síria foi, sim, levada ao Conselho de Segurança da ONU por alguns países, como França e Reino Unido. Mas se algum país propõe uma resolução muito dura, é certo que ela será vetada por China e Rússia.
Elas sentem que foram passadas para trás com a resolução 1973 [que autorizou um ataque à Líbia] e agora estão decididas a barrar qualquer texto contra a Síria.
O custo de uma intervenção contra o regime sírio é muito elevado, e não há um consenso internacional.
A Primavera Árabe está patinando?
Não. Ela só entrou numa fase mais dura. Os líderes árabes percebem que a pressão popular é muito forte, mas calculam que não têm mais nada a perder e que as potências ocidentais não conseguiriam levar várias operações de front com legitimidade. Os regimes árabes só pensam em sobreviver.
"Morte de Osama ajuda revolta árabe"
Fim do líder terrorista surge na hora em que região mostra aversão a radicalismo, diz analista francês Zaki Laidi
Para diretor do IEP de Paris, potências estão de mãos atadas e não conseguem impedir massacre civil na Síria
SAMY ADGHIRNI
DE SÃO PAULO
A indiferença com a qual a morte de Osama bin Laden foi recebida no mundo árabe prova que as populações da região sabem que o radicalismo violento não leva a nada. A avaliação é do analista Zaiki Laidi, diretor de pesquisa do prestigiado Instituto de Estudos Políticos de Paris. Ele conversou com a Folha, por telefone, na semana passada.
Folha - Qual o efeito da morte de Bin Laden sobre a Primavera Árabe?
Zaki Laidi - É a melhor notícia possível para a Primavera Árabe. É uma coincidência feliz entre um levante que não deve nada ao islamismo [militante], muito menos ao islamismo radical, e a destruição do maior símbolo do radicalismo devastador.
Isso mostra que o jihadismo não leva a resultado tangível. O que os jihadistas conseguiram em 30 anos de ativismo iniciado com o assassinato do [presidente egípcio Anuar] Sadat? Nada, tanto em termos de eficiência política quanto em capacidade de mobilizar as populações em torno do radicalismo.
O radicalismo violento não produziu nada inclusive na questão palestina. Nesse tema, acabamos de ver um exemplo claro de que a opção democrática rende melhor resultado. A reaproximação entre Hamas e Fatah, articulada pelo novo governo egípcio, é o claro desdobramento da mudança de governo no Egito na frente externa.
Ela mostra que um regime democrático árabe pode ter efeito alavancador sobre a questão palestina maior do que um regime não democrático. O atual governo egípcio fez o que [o ex-ditador Hosni Mubarak] jamais conseguiu.
E nenhuma país condenou a iniciativa. Shimon Peres [presidente de Israel] disse que importa o que o Hamas faz, não o que ele diz.
As circunstâncias da morte de Bin Laden não podem prejudicar a relação entre o Ocidente e os muçulmanos?
Não creio. A morte de Bin Laden foi recebida no mundo árabe com indiferença.
Não acho que o jihadismo tenha morrido, mas é o fim de um ciclo. Historicamente, é raro que um movimento sobreviva à queda ou morte de um líder carismático.
Por que há pouca reação aos massacres de civis na Síria?
Primeiro, é difícil para a comunidade internacional e os atores dominantes se mobilizarem intensa e simultaneamente em várias frentes.
A segunda razão é que a questão da Síria foi, sim, levada ao Conselho de Segurança da ONU por alguns países, como França e Reino Unido. Mas se algum país propõe uma resolução muito dura, é certo que ela será vetada por China e Rússia.
Elas sentem que foram passadas para trás com a resolução 1973 [que autorizou um ataque à Líbia] e agora estão decididas a barrar qualquer texto contra a Síria.
O custo de uma intervenção contra o regime sírio é muito elevado, e não há um consenso internacional.
A Primavera Árabe está patinando?
Não. Ela só entrou numa fase mais dura. Os líderes árabes percebem que a pressão popular é muito forte, mas calculam que não têm mais nada a perder e que as potências ocidentais não conseguiriam levar várias operações de front com legitimidade. Os regimes árabes só pensam em sobreviver.
domingo, 15 de maio de 2011
Ackerman e o caso wikileaks
The New York Review of Books
Private Manning’s HumiliationApril 28, 2011Bruce Ackerman and Yochai BenklerE-mail Print Share Bradley Manning is the soldier charged with leaking US government documents to Wikileaks. He is currently detained under degrading and inhumane conditions that are illegal and immoral.
For nine months, Manning has been confined to his cell for twenty-three hours a day. During his one remaining hour, he can walk in circles in another room, with no other prisoners present. He is not allowed to doze off or relax during the day, but must answer the question “Are you OK?” verbally and in the affirmative every five minutes. At night, he is awakened to be asked again “Are you OK?” every time he turns his back to the cell door or covers his head with a blanket so that the guards cannot see his face. During the past week he was forced to sleep naked and stand naked for inspection in front of his cell, and for the indefinite future must remove his clothes and wear a “smock” under claims of risk to himself that he disputes.
The sum of the treatment that has been widely reported is a violation of the Eighth Amendment’s prohibition of cruel and unusual punishment and the Fifth Amendment’s guarantee against punishment without trial. If continued, it may well amount to a violation of the criminal statute against torture, defined as, among other things, “the administration or application…of… procedures calculated to disrupt profoundly the senses or the personality.”
Private Manning has been designated as an appropriate subject for both Maximum Security and Prevention of Injury (POI) detention. But he asserts that his administrative reports consistently describe him as a well-behaved prisoner who does not fit the requirements for Maximum Security detention. The brig psychiatrist began recommending his removal from Prevention of Injury months ago. These claims have not been publicly contested. In an Orwellian twist, the spokesman for the brig commander refused to explain the forced nudity “because to discuss the details would be a violation of Manning’s privacy.”
The administration has provided no evidence that Manning’s treatment reflects a concern for his own safety or that of other inmates. Unless and until it does so, there is only one reasonable inference: this pattern of degrading treatment aims either to deter future whistleblowers, or to force Manning to implicate Wikileaks founder Julian Assange in a conspiracy, or both.
If Manning is guilty of a crime, let him be tried, convicted, and punished according to law. But his treatment must be consistent with the Constitution and the Bill of Rights. There is no excuse for his degrading and inhumane pretrial punishment. As the State Department’s P.J. Crowley put it recently, they are “counterproductive and stupid.” And yet Crowley has now been forced to resign for speaking the plain truth.
The Wikileaks disclosures have touched every corner of the world. Now the whole world watches America and observes what it does, not what it says.
President Obama was once a professor of constitutional law, and entered the national stage as an eloquent moral leader. The question now, however, is whether his conduct as commander in chief meets fundamental standards of decency. He should not merely assert that Manning’s confinement is “appropriate and meet[s] our basic standards,” as he did recently. He should require the Pentagon publicly to document the grounds for its extraordinary actions—and immediately end those that cannot withstand the light of day.
Bruce Ackerman
Yale Law School
New Haven, Connecticut
Yochai Benkler
Harvard Law School
Cambridge, Massachusetts
Private Manning’s HumiliationApril 28, 2011Bruce Ackerman and Yochai BenklerE-mail Print Share Bradley Manning is the soldier charged with leaking US government documents to Wikileaks. He is currently detained under degrading and inhumane conditions that are illegal and immoral.
For nine months, Manning has been confined to his cell for twenty-three hours a day. During his one remaining hour, he can walk in circles in another room, with no other prisoners present. He is not allowed to doze off or relax during the day, but must answer the question “Are you OK?” verbally and in the affirmative every five minutes. At night, he is awakened to be asked again “Are you OK?” every time he turns his back to the cell door or covers his head with a blanket so that the guards cannot see his face. During the past week he was forced to sleep naked and stand naked for inspection in front of his cell, and for the indefinite future must remove his clothes and wear a “smock” under claims of risk to himself that he disputes.
The sum of the treatment that has been widely reported is a violation of the Eighth Amendment’s prohibition of cruel and unusual punishment and the Fifth Amendment’s guarantee against punishment without trial. If continued, it may well amount to a violation of the criminal statute against torture, defined as, among other things, “the administration or application…of… procedures calculated to disrupt profoundly the senses or the personality.”
Private Manning has been designated as an appropriate subject for both Maximum Security and Prevention of Injury (POI) detention. But he asserts that his administrative reports consistently describe him as a well-behaved prisoner who does not fit the requirements for Maximum Security detention. The brig psychiatrist began recommending his removal from Prevention of Injury months ago. These claims have not been publicly contested. In an Orwellian twist, the spokesman for the brig commander refused to explain the forced nudity “because to discuss the details would be a violation of Manning’s privacy.”
The administration has provided no evidence that Manning’s treatment reflects a concern for his own safety or that of other inmates. Unless and until it does so, there is only one reasonable inference: this pattern of degrading treatment aims either to deter future whistleblowers, or to force Manning to implicate Wikileaks founder Julian Assange in a conspiracy, or both.
If Manning is guilty of a crime, let him be tried, convicted, and punished according to law. But his treatment must be consistent with the Constitution and the Bill of Rights. There is no excuse for his degrading and inhumane pretrial punishment. As the State Department’s P.J. Crowley put it recently, they are “counterproductive and stupid.” And yet Crowley has now been forced to resign for speaking the plain truth.
The Wikileaks disclosures have touched every corner of the world. Now the whole world watches America and observes what it does, not what it says.
President Obama was once a professor of constitutional law, and entered the national stage as an eloquent moral leader. The question now, however, is whether his conduct as commander in chief meets fundamental standards of decency. He should not merely assert that Manning’s confinement is “appropriate and meet[s] our basic standards,” as he did recently. He should require the Pentagon publicly to document the grounds for its extraordinary actions—and immediately end those that cannot withstand the light of day.
Bruce Ackerman
Yale Law School
New Haven, Connecticut
Yochai Benkler
Harvard Law School
Cambridge, Massachusetts
Assinar:
Postagens (Atom)