quarta-feira, 27 de junho de 2012
Pensamento social latino americano
http://www.iesp.uerj.br/pos-graduacao/arquivos/ementas/2012/Teoria%20Social%20Latino-Americana.pdf
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Estado de exceção na Itália
http://www.ijpl.eu/assets/files/pdf/2011_volume_2/IJPL_volume%202_2011.pdf
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Entrevista de Rafael Correa
===========================================================
“Estamos diante de uma guerra não convencional”Em uma entrevista especial
concedida à Carta Maior e aos jornais Página/12, da Argentina, e La
Jornada, do México, o presidente do Equador, Rafael Correa analisa o que
considera ser um dos principais problemas do mundo hoje: o poder das
grandes corporações de mídia que agem como um verdadeiro partido político
contra governos que não rezam pela sua cartilha. “Essa é a luta, não há
luta maior. Estamos diante de uma guerra não convencional, mas guerra, de
conspiração, desestabilização e desgaste”.
Carta Maior, La Jornada e Página/12
*Rio de Janeiro* - Representante de uma nova geração de líderes políticos
da esquerda latinoamericana, o presidente do Equador, Rafael Correa, foi
lançado para a linha de frente do cenário político mundial com o pedido de
asilo político feito, em Londres, pelo fundador do Wikileaks, Julian
Assange. Há poucas semanas, Assange entrevistou Correa e os dois
conversaram, entre coisas, sobre um tema de interesse de ambos: as
operações de manipulação conduzidas pelas grandes corporações midiáticas.
Agora, durante sua passagem pela Rio+20, Rafael Correa voltou com força ao
tema.
Em uma entrevista especial concedida à Carta Maior e aos jornais Página/12,
da Argentina, e La Jornada, do México, analisa este que considera ser um
dos principais problemas do mundo hoje: o poder das grandes corporações de
mídia que, na América Latina, agem como um verdadeiro partido político
contra governos que não rezam pela cartilha desses grupos. “Essa é a luta,
não há luta maior. Estamos diante de uma guerra não convencional, mas
guerra, de conspiração, desestabilização e desgaste”.
Na entrevista, Correa fala sobre o pedido de asilo de Assange, relata o
debate sobre uma nova lei de comunicações no Equador e faz um balanço
pessimista sobre os resultados da Rio+20.
*Há um argumento segundo o qual a liberdade de imprensa é propriedade dos
meios de comunicação empresariais. Imagino que essa não seja a sua opinião.*
*Correa*: Não nos enganemos. Desde que se inventou a impressora a liberdade
de imprensa, entre aspas, responde à vontade, ao capricho e à má fé do dono
da impressora. Devemos lutar para inaugurar a verdadeira liberdade de
imprensa que é parte de um conceito maior e um direito de todos os
cidadãos, que é a liberdade de expressão, que defendemos radicalmente. No
entanto, o poder midiático que faz negócios com o objetivo de ter lucro,
até isso quer privatizar. Então, se eles têm tanta vocação para comunicar,
como dizem, que o façam sem finalidades lucrativas, porque para mim isso é
uma contradição.
Este é um grande problema na América Latina e também em nível planetário.
Tenho tomado conhecimento que existem posições semelhantes às nossas, mas
houve um tempo em que nos sentíamos muito sozinhos, quando fomos vítimas de
um ataque tremendo por não abaixar a cabeça diante de um negócio muitas
vezes corrupto e encoberto sob a capa da liberdade de expressão. Essa é a
luta, não há luta maior.
*Presidente, nestes dias foram divulgados telegramas pelo Wikileaks onde
apareceram jornalistas equatorianos que eram considerados informantes pela
embaixada dos Estados Unidos. Isso confirma as hipóteses levantadas quando
você foi vítima de um golpe de Estado.*
*Correa*: As mentiras deles sempre acabam sendo derrubadas. Entidades que
financiam esses empórios midiáticos, certas organizações que, em nome da
sociedade civil, nos denunciam ante a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, a SIP, ante todos os lados. Agora vemos que esses senhores são
identificados via Wikileaks como informantes da embaixada (estadunidense).
Wikileaks que nunca é publicado pela maioria da imprensa comercial. Não é
só isso. Essa gente é financiada pela USAID, que vocês conhecem. A USAID
financiou com 4,5 milhões de dólares a estes supostos defensores da
liberdade de expressão, supostamente para fortalecer a democracia e a ação
cívica. Na verdade, para fortalecer a oposição aos governos progressistas
da América Latina e os povos da região tem que reagir contra esse tipo de
prática.
Independentemente da solicitação do senhor Assange – ele solicitou asilo
político -, ele disse que quer vir para o Equador para seguir cumprindo sua
missão em defesa da liberdade de expressão sem limites, porque o Equador é
um território de paz comprometido com a justiça e a verdade. Isso que o
senhor Assange disse é mais próximo da realidade do Equador do que as
porcarias que o poder midiático publica todos os dias.
*Sabemos que o senhor ainda não tomou uma decisão sobre a situação que está
atravessando alguém que revelou informações secretas sobre conspirações dos
Estados Unidos e está pagando com a prisão por ter trabalhado pela
liberdade de imprensa.*
*Correa*: Se, no Equador, alguém tivesse passado a centésima parte do que
passou Assange, nós seríamos chamados de ditadores e repressores, mas como
o que Assange divulgou afeta as grandes potências e isso evidencia uma
moral dupla e como os Estados nos tratam por meio de suas embaixadas, então
é preciso aplicar todo o peso da lei contra Assange. E o chamam de violador.
Eu não quero antecipar minha decisão. Recebemos o pedido de asilo,
analisaremos as causas desse pedido e tomaremos uma decisão quando for
pertinente. Ele está em nossa em nossa embaixada em Londres sob a proteção
do Estado equatoriano.
É claro que há aqui uma dupla moral, uma para os poderosos e outra para os
débeis, uma para os que querem manter o status quo e para sua imprensa, e
outra para os governos que querem mudar esse status quo e para a imprensa
alternativa. Todos os dias há julgamentos em países desenvolvidos contra
jornais. Neste caso não há problema, porque isso é civilização, mas,
processar em nosso país um jornal ou um jornalista é qualificado como
barbárie. E não é verdade que nós criminalizamos a opinião, pois em nosso
país todos os dias publicam tudo, todos os dias publicam que há falta de
liberdade de expressão. Qualquer um pode dizer que o governo é bom ou mau,
que é competente ou incompetente. Mas o que não pode se dizer em um meio de
comunicação é que o presidente, ou qualquer cidadão, é um criminoso de lesa
humanidade e que ele disparou sem aviso prévio contra um hospital, porque
isso é difamação, isso é delito em qualquer país.
*O caso Assange pode dar origem a uma tensão diplomática entre Equador e
Grã-Bretanha?*
*Correa*: Isso é a última coisa que queremos, mas nós não vamos pedir
permissão a nenhum país para tomar decisões soberanas. O Equador não tem
mais alma de colônia nem alma de vassalo. Se dar asilo, refúgio ou
residência a fugitivos da justiça provocasse deterioração, a relação da
América Latina com os Estados Unidos estaria deterioradíssima. Porque,
provavelmente, Argentina, Brasil, México e outros países não devem estar de
acordo que qualquer fugitivo que viole a justiça. Esse não é o caso do
senhor Assange, mas sim de corruptos como os banqueiros que quebraram o
Equador em 99 e fugiram para os Estados Unidos, onde gozam hoje de uma vida
bastante cômoda.
*Vocês têm um Murdoch no Equador?*
*Correa*: No Equador, temos seis famílias que representam heranças
familiares, não é propriedade democrática, um capitalismo popular onde há
10 mil acionistas em um empório. Os meios de comunicação no Equador são
manejados por meia dúzia de famílias, que decidem o que os equatorianos
devem saber e conhecer. Vocês se dão conta da vulnerabilidade que temos
como sociedade? A informação depende dos interesses e dos caprichos de meia
dúzia de famílias. Mas se um governo soberano e digno não as chama para
consultar sobre o nome dos ministros ou sobre a indicação de embaixadores,
como ocorria antes, vão com tudo para cima desse governo porque ele não se
submete aos seus caprichos. É um problema mundial, mas em outros países é
atenuado com participação, profissionalismo muito profundo, uma ética muito
forte, tudo o que brilha por sua ausência aqui no Equador.
*Presidente, um funcionário da Usaid acaba de dizer que eles estão ajudando
as oposições a estes governos.*
*Correa*: Franqueza anglo-saxã.
*Impunidade?*
*Correa*: Impunidade e arrogância.
*Essa ideia nos fala de um tempo da informação como arma de guerra e a
América Latina sofre uma verdadeira invasão dessas fundações como a USAID,
a NED, o IRI. Isso não torna muito perigosa a nossa situação? A presença
das ONGs destas fundações não é perigosa para o Equador?*
*Correa*: Oxalá consigamos despertar os povos latino-americanos para essa
situação. As direitas, os grupos de poder, sabem que nas urnas não
conseguirão nos derrotar. Daí as campanhas contínuas de desgastes, de
propaganda, de difamação, de enfraquecimento e desestabilização. Nós
vivemos isso desde os primeiros dias de governo. Desde o primeiro dia de
governo. O mesmo ocorre na Venezuela, na Bolívia, na Argentina e em todos
os governos progressistas da região. Sofremos as campanhas desses meios que
são a vanguarda do capitalismo, do status quo dos partidos tradicionais de
direita que se afundaram por seus próprios erros, para difamar, para
distorcer a verdade com a cumplicidade de veículos da mídia internacional.
Essa é a contradição de que fala Ignacio Ramonet. Na Europa hoje há
desemprego, estagnação, resgate de milionários, resgate de bancos e não de
cidadãos, e os jornais dizem que isso é necessário, que é sério, técnico e
correto. Que as pessoas morram de fome, precisamos salvar o capital!
Enquanto isso, em países como o Equador, que é um dos que mais crescem na
América Latina, que reduziu a pobreza, gerou mais emprego, tem a taxa de
desemprego mais baixa da região e da história, todos os dias nos dizem que
isso é populismo e demagogia, que é preciso mudar de governo.
Estamos ante uma campanha propagandística para defender os poderes fáticos
que sempre dominaram nossos países. A direita perdeu as eleições nos
Estados Unidos e agora chegam essas organizações para financiar esses
grupos na América Latina. Estamos diante de uma guerra não convencional,
mas guerra, de conspiração, desestabilização e desgaste.
*Por isso pergunto sobre o tema da informação como arma de guerra, como a
arma letal antes do primeiro disparo.*
*Correa*: Estou convencido disso. Alguns ainda imaginam a imprensa,
sobretudo na América Latina, como o quarto poder nascente, que floresceu
quando chegaram as democracias, quando ocorreram avanços técnicos e se
multiplicaram as publicações, quando se avançou na alfabetização e as
grandes massas passaram a poder ler. Esse poder impediria que o poder
político, o poder do Estado, ultrapasse certos limites. Assim chegou a
desinformação. Lembremos, por exemplo, do affair Dreyfus na França, quando
por racismo e xenofobia se acusou um capitão judeu, como denunciou Emile
Zola em seu famoso editorial “Eu acuso”. Essa imprensa limitava os excessos
do poder político, mas esse vigoroso e ingênuo cachorrinho, bem
intencionado, que lutava pelos interesses dos cidadãos, converteu-se de
repente em um mastim feroz, com um poder ilimitado, raivoso, que não só
tenta encurralar o Estado como também os próprios cidadãos.
O poder midiático na América Latina, como ocorre no Equador, é
frequentemente superior ao poder político. Precisamos tirar certos
estereótipos de cena ou do ambiente de certa burocracia internacional como
alma de ONG, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos que fala de
pobrezinhos jornalistas e de malvados políticos. Isso não é certo. Os
políticos são, muitas vezes, patrióticos. A antipatia que certos
jornalistas alimentam, desfiando seus ódios e amarguras, acaba fazendo com
que se metam inclusive em questões pessoais, com a família, etc. Então,
vejamos a realidade. Trata-se de tabus e nos ensinaram a ter medo de
criticar esses negócios, como se, criticando-os, estaríamos criticando a
liberdade de expressão. Esses são os negócios da má imprensa.
*Presidente, viremos a página e passemos à crise*
*Correa* – É que esse tema (da mídia) me apaixona. É um tema acadêmico que
me apaixona, ao qual dedicarei meu tempo quando sair da presidência.
Pretendo me dedicar a ele, investigar e escrever porque se trata de um
problema gravíssimo, porque estamos nas mãos de um poder midiático que
superou inclusive o poder financeiro e político, e domina o mundo.
*Você resumiu ontem em uma palavra o documento final da Rio+20,
classificando-o como “lírico”...*
*Correa* – É assim. Não há compromisso concreto. Podem verificar. Onde há
um compromisso em cifras, por exemplo, com o limite de emissões de gases,
compensações, acordos, acordos vinculantes como seria uma declaração de
direitos da natureza em um tribunal internacional do meio ambiente, como
propôs o Equador. Não há nada disso. Fala-se de cuidar melhor do planeta,
mas não há um compromisso concreto. O avanço é muito pequeno.
*A que atribui a ausência dos Estados Unidos e da Alemanha? Elas podem ter
contribuído para essa falta de compromissos concretos?*
*Correa* – Vai mais além. O problema não é técnico. Todo mundo sabe qual é
o problema, todo o mundo sabe quais são as respostas. O problema é
político. Quem gera os bens ambientais e quem consome esses bens
ambientais? Se os países ricos ou os países em desenvolvimento podem
consumir gratuitamente um bem que outros geram por que é que vão se
comprometer a compensar e cuidar. Não farão isso a não ser que esteja em
perigo evidente sua própria existência ou seus próprios interesses.
Então, o problema é político, é a relação de poder. Imagine que a situação
fosse a inversa, que a Floresta Amazônica, por exemplo, estivesse nos
Estados Unidos e que eles fossem geradores de bens ambientais e que nós dos
países em desenvolvimento fôssemos os consumidores. Já teriam nos invadido
em nome dos direitos humanos, da justiça, da liberdade, etc., para exigir
compensações. Então, esse é um problema de poder. Enquanto não mudarem as
relações de poder, muito pouco se irá avançar.
*Considera então que o saldo provisório da Rio+20 é um fracasso?*
*Correa* – Sim. Não se conseguiu avançar quase nada. Não há compromisso
concreto, nada concreto. Nem sequer dinheiro. Houve uma reunião do G-20 no
México e a maioria, 80% dos que estavam lá, regressaram para suas casas.
Não vieram para a Rio+20. Não interessa. Apenas alguns poucos vieram para a
Cúpula, sobretudo latino-americanos.
*Houve também a Cúpula dos Povos, um encontro muito interessante.*
*Correa* – Quisemos participar, mas não foi possível, estava muito longe.
Infelizmente foi um problema de logística. Mas vamos ter um evento de
direitos da natureza, paralelo à Cúpula, nos mesmos locais da Cúpula, para
o qual convidamos 400 dirigentes de organizações sociais alternativas,
progressistas de esquerda que buscam a justiça de nossa América e do mundo
inteiro. O presidente Evo Morales também participará dessa conferência.
*Eu queria perguntar-lhe sobre o que representam estas alianças como a do
Pacífico (Colômbia, Chile, Peru e México) e o anúncio feito pelo presidente
Felipe Calderón do Transpacífico, que é algo novo. Isso pode ser visto como
uma ameaça à integração e à unidade da América Latina?*
*Correa* – Bom, o maior problema em essência sobre o tema do cuidado com o
meio ambiente e que também está na base da crise da Europa e dos Estados
Unidos é que tudo foi mercantilizado. Eles não querem ver isso porque afeta
os interesses dominantes. O mercado é uma realidade econômica que não
podemos negar, mas o grande desafio da humanidade é que a sociedade deve
conseguir dominar o mercado. O que temos hoje é o mercado dominando a
sociedade e as pessoas, mercantilizando tudo. Como o mercado só se
interessa pelo que é mercadoria, pelo que tem preços explícitos, não
administra adequadamente bens públicos como o meio ambiente. Por isso pode
consumir irresponsavelmente bens ambientais, bens públicos globais,
depredar a natureza, etc., porque não têm preços explícitos, porque não são
mercadoria.
Então, quanto mais se ampliar essa lógica do mercado, mais esses problemas
se agravarão e os perigos serão ainda maiores para a conservação do
planeta. Eu diria que nós somos muito críticos destes tratados de livre
comércio, somos muito críticos da mercantilização da vida e da humanidade
em geral. Esse é um dos grandes desafios que enfrentamos. Insisto, o
mercado é um fenômeno econômico irrefutável, mas o grande desafio é fazer
com que as sociedades dominem o mercado e não o contrário.
*Senhor presidente, que medidas os países da América Latina deveriam tomar
para não perder o rumo da histórica na direção de uma integração regional
soberana e progressista. Como vê os avanços no Mercosul, na Unasul e na
Comunidade Andina de Nações (CAN)?*
*Correa* – Avançou-se como nunca antes. Isso não quer dizer que estejamos
bem. Teremos que avançar muito mais rápido. Creio que há uma vocação
concreta e uma posição integracionista sincera, não uma integração
mercantilista como havia antes. O Mercosul nasceu na noite neoliberal dos
anos 90. A CAN nasceu a todo vapor e depois diminuiu. A integração
mercantilista não quer fazer grandes sociedades de nações, mas sim grandes
mercados, não fazer cidadãos de nossa América, mas sim consumidores. A
concepção da Unasul é diferente. Nós temos uma concepção integral, onde uma
parte é comercial, que sempre é importante, mas não é o mais importante, e
as outras partes tem a ver com conectividade, nova arquitetura financeira
regional, harmonização de políticas, políticas de defesa. Oxalá consigamos
avançar também em políticas trabalhistas para que nunca mais caiamos na
América Latina na armadilha de competir para atrair investimentos,
deteriorando e precarizando as forças de trabalho. Ao invés de atrair
capitais na base do suor e das lágrimas de nossos trabalhadores, pensamos
em outro mundo. Como disse, creio que avançamos, mas precisamos ir muito
mais rápido.
*O senhor tocou de passagem o tema do Conselho de Defesa Sulamericano, que
está objetivamente estancado, e seu país sofreu um ataque estrangeiro em
2008. Na sua avaliação, com a chegada do presidente Santos na Colômbia, a
hipótese de tensões entre Colômbia e Equador está completamente dissipada?*
*Correa *- As relações bilaterais entre Equador e Colômbia gozam de um
extraordinário momento. Há uma grande coordenação com o governo do
presidente Santos. A Colômbia sempre foi o vizinho com o qual tivemos a
melhor relação em nossa história. Infelizmente, essa história, séculos de
irmandade, foi rompida pela traição de um presidente como Uribe. Mas,
graças a deus, com o governo do presidente Santos isso foi superado e creio
que ele também tem uma vocação integracionista muito profunda e apoia – de
fato, tem apoiado – a proposta do Conselho de Defesa.
*O Conselho de Defesa teve seus primeiros estremecimentos com o anúncio da
radicação de tropas dos Estados Unidos na Colômbia. Essa possível radicação
de tropas norte-americanas na Colômbia está definitivamente abortada?*
*Correa* – Não tenho maiores conhecimentos a respeito desse assunto. Até
onde sei há uma estreita colaboração norteamericana com o pretexto da luta
antidrogas e oxalá que a ajuda se concentre aí. Mas temos que fazer um
esforço de bastante ingenuidade para nos convencermos disso porque muitas
vezes se fazem outras coisas com essas supostas ajudas, sobretudo com
governos que não sigam a linha de Washington.
*A pergunta anterior está associada a outras situações graves como a
remilitarização com novas bases no Panamá e outros três centros
operacionais do comando Sul , uma base nova no Chile e nas Malvinas o
grande problema é a base britânica ali instalada. Toda esta expansão dos
Estados Unidos não é ameaçadora para a região?*
*Correa* - Nós queremos nos convencer que com Barack Obama, que acreditamos
ser uma boa pessoa, a política internacional dos EUA mudou, mas as
evidências nos mostram que não é assim, que tudo continua lamentavelmente
igual, sobretudo no que diz respeito à América Latina, cujos governos
comprometidos com justiça, dignidade e soberania passaram a ser vistos como
uma ameaça para seus interesses. Devemos estar muito atentos a essa
presença das forças armadas norte-americanas em nossa América e a esse
processo de rearmamentismo que está ocorrendo nesta época tão difícil e
complexa.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20436
Anexados:
untitled-[2] 30 k [ text/html ] baixar
Ver
>
sábado, 2 de junho de 2012
OEA e Direitos Humanos
Folha de São Paulo 2 de junho de 2012
Na Bolívia, OEA discute direitos humanos
ONGs acusam países, Brasil incluído, de defender reformas para enfraquecer sistema
DE SÃO PAULO
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Cochabamba, na Bolívia, recebe a partir de amanhã a anual Assembleia Geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), que terá como tema central a segurança alimentar no hemisfério.
Um debate mais sensível, porém, coopta atenções: uma possível reforma do sistema interamericano de direitos humanos, que inclui a Comissão de Direitos Humanos (CIDH) e a corte, autônoma.
Desde o ano passado, quando um grupo de trabalho foi criado sobre a questão no âmbito da OEA, ONGs do continente acusam governos da região como Venezuela, Colômbia, Equador e Peru -mas também o Brasil- de estimularem mudanças no sistema para enfraquecer os instrumentos em vigência.
Nesta semana, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, defendeu reformas, e o México propôs prazo de um ano para mais discussões.
O tema, porém, chega aberto a Cochabamba. Daí o barulho das ONGs que dizem temer que acordos de última para modificações em pontos caros, como as medidas cautelares, instrumentos de proteção a vítimas em situação de emergência em casos levados à CIDH. Outro foco sob ataque é a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da comissão, vista por Caracas e Quito como politicamente parcial.
O Itamaraty rebate as acusações. Diz que há ajustes a serem feitos para fortalecer o sistema interamericano, e não debilitá-lo, de modo a evitar que instâncias "extrapolem" seus mandatos.
A mensagem remete à medida cautelar aprovada pela CIDH em 2011 para barrar as obras da usina de Belo Monte. A decisão enfureceu o Brasil, que retirou Ruy Casaes, embaixador na OEA, do posto. Desde então, o país é representado no órgão por diplomatas de menor escalão.
"Não é só Belo Monte. O Brasil está incomodado com casos que chegam à Corte de Direitos Humanos. Está jogando o bebê e a água do banho fora", diz Beatriz Affonso, da ONG Cejil no Brasil.
--------------------------------------------------------------------------------
Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação
Na Bolívia, OEA discute direitos humanos
ONGs acusam países, Brasil incluído, de defender reformas para enfraquecer sistema
DE SÃO PAULO
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
Cochabamba, na Bolívia, recebe a partir de amanhã a anual Assembleia Geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), que terá como tema central a segurança alimentar no hemisfério.
Um debate mais sensível, porém, coopta atenções: uma possível reforma do sistema interamericano de direitos humanos, que inclui a Comissão de Direitos Humanos (CIDH) e a corte, autônoma.
Desde o ano passado, quando um grupo de trabalho foi criado sobre a questão no âmbito da OEA, ONGs do continente acusam governos da região como Venezuela, Colômbia, Equador e Peru -mas também o Brasil- de estimularem mudanças no sistema para enfraquecer os instrumentos em vigência.
Nesta semana, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, defendeu reformas, e o México propôs prazo de um ano para mais discussões.
O tema, porém, chega aberto a Cochabamba. Daí o barulho das ONGs que dizem temer que acordos de última para modificações em pontos caros, como as medidas cautelares, instrumentos de proteção a vítimas em situação de emergência em casos levados à CIDH. Outro foco sob ataque é a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da comissão, vista por Caracas e Quito como politicamente parcial.
O Itamaraty rebate as acusações. Diz que há ajustes a serem feitos para fortalecer o sistema interamericano, e não debilitá-lo, de modo a evitar que instâncias "extrapolem" seus mandatos.
A mensagem remete à medida cautelar aprovada pela CIDH em 2011 para barrar as obras da usina de Belo Monte. A decisão enfureceu o Brasil, que retirou Ruy Casaes, embaixador na OEA, do posto. Desde então, o país é representado no órgão por diplomatas de menor escalão.
"Não é só Belo Monte. O Brasil está incomodado com casos que chegam à Corte de Direitos Humanos. Está jogando o bebê e a água do banho fora", diz Beatriz Affonso, da ONG Cejil no Brasil.
--------------------------------------------------------------------------------
Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Texto de Habermas
Los dilemas de Europa y de la democracia
jürgen habermas - 9 de mayo de 2012
En un reciente ensayoi, el filósofo Jürgen Habermas reflexiona sobre la crisis política de la Unión Europea y los dilemas de la democracia actual, prolongando así los trabajos recogidos en su libro La constitución de Europa, que ahora publica Editorial Trotta. Ofrecemos aquí la primera parte de este texto inédito, que en breve será seguida por su segunda entrega.
Durante las cuatro, ya casi cinco décadas de su carrera académica activa, Claus Offe ha abordado con sistemática dedicación la teoría democrática desde el punto de vista del Estado, esto es, tomando en consideración a los encargados de formular la política nacional en las democracias capitalistas. Su interés se dirige principalmente a los límites estructurales del campo de acción de estos responsables políticos: a la manera como consiguen evitar choques deslegitimadores entre los requisitos sistémicos del crecimiento económico y las reivindicaciones de los ciudadanos democráticos. Planteado el problema de este modo, Offe parte de dos supuestos básicos: primero, que los gobiernos liberales dependen de los impuestos tanto como de los votos y que, en consecuencia, deben satisfacer tanto los requisitos legales, infraestructurales y fiscales, a fin de realizar inversiones rentables, como también las reivindicaciones ciudadanas de libertades iguales, justicia social, seguridad de estatus y prestación de servicios necesarios y bienes públicos; segundo, que no existe un mecanismo para lograr el equilibrio entre estas exigencias, que se hallan en mutua competencia e incluso resultan incompatibles en tiempos de crisis.
Valga como ejemplo la crisis presente de la Unión Económica y Monetaria europea (UEM), que Offe ha analizado en términos de un triángulo de constricciones: por un lado, está la necesidad de salir al rescate de instituciones financieras en quiebra cuyos clientes preferenciales son, a su vez, los mismos gobiernos que salvan a los bancos; por otro lado, está la imposibilidad de subir los impuestos —con la consiguiente carga para los inversores de la economía «real», productora de valor— recortando al mismo tiempo el gasto público a costa de la seguridad social o de los bienes y servicios públicos. Contrariamente a un modelo marxiano de funcionalismo, este enfoque no prejuzga la dirección de los flujos causales. Para las democracias capitalistas es una cuestión empírica la de saber si y hasta qué punto la política o bien puede determinar las condiciones marco del sistema económico o bien tiene que adaptarse a sus imperativos funcionales.
Los gestores políticos ocupan una posición especial en el sistema político, aparte de las posiciones de otros actores diversos. Pero solo en contadas ocasiones pueden actuar en el papel diferente y más inclusivo de exponentes del sistema político como un todo, por ejemplo, cuando buscan extender el alcance del poder político dentro de la sociedad más amplia. Un caso relevante son los fallidos intentos por regular los mercados globales financieros con el fin de volver a poner bajo control las operaciones destructivas del sistema bancario (por ejemplo, la introducción de un impuesto europeo sobre las transacciones financieras). El mayor obstáculo para tales intentos es la fragmentación política, esto es, la competición entre los Estados nacionales. Los Estados, que guardan celosamente sus prerrogativas, se resisten a construir nuevas competencias supranacionales para la acción política a costa de una transferencia de derechos soberanos.
Este hecho tiene un impacto inmediato en los dilemas de la democracia, puesto que solo el poder político, y no los mercados, puede ser sometido al control democrático. Sin embargo, no cualquier acumulación de poder en los niveles superiores de un sistema político sirve a la democracia. En la primera parte de este texto quisiera recordar los pasos dados recientemente por el Consejo Europeo hacia una cooperación más estrecha entre los Estados miembros, pasos que conducen a un aumento del poder ejecutivo europeo al servicio de un régimen de la Unión Europea conformador de los mercados y a expensas de la autonomía de los parlamentos nacionales. En la segunda parte, quisiera discutir la viabilidad de una improbable alternativa democrática, que requeriría superar el obstáculo de un ulterior proceso constitucional.
Numerosos expertos coinciden en las causas económicas de la presente crisis fiscal. Dado que la devaluación de la moneda no es una opción viable, y debido a la falta de mecanismos compensatorios tales como la movilidad de la fuerza de trabajo a través de las fronteras nacionales o un régimen común en la política social, la diferencia en los niveles de competitividad entre los Estados miembros ha generado en el pasado desequilibrios económicos a lo largo y ancho de la Eurozona, y continuará haciéndolo de forma creciente en el futuro. Estos desequilibrios solo pueden eliminarse mediante una armonización diferenciada de las políticas económica, fiscal y social de cada nación. En una respuesta tangencial a esta necesidad, el gobierno alemán ha presionado con éxito para lograr un acuerdo sobre los esfuerzos conjuntos en la aplicación de políticas de austeridad nacional, sobre los procedimientos para una supervisión conjunta de su implementación y sobre los mecanismos sancionadores en caso de violaciones. Sin entrar en los detalles de los numerosos y más bien redundantes acuerdos alcanzados desde marzo de 2011, me permito simplemente resumir tres errores de importancia:
— La imposición de políticas de austeridad repite el error estratégico de apostar ante todo por la estabilidad fiscal. Este tipo de coordinación política está cortada a la medida para lograr un traslado más efectivo de imperativos sistémicos a los canales de la política nacional. La estrategia no solo es errónea por razones económicas, al par que desastrosa a la vista de sus consecuencias sociales; es, además, contraproducente cuando se trata del objetivo de tener de nuevo el control político sobre los desenfrenados mercados financieros.
— El paso en la dirección de una gobernanza supranacional por medio de la coordinación de la gestión política nacional conforme a las mismas reglas no es capaz de eliminar las causas estructurales de los ciclos económicos destructivos. La idea de que «un sistema de reglas vale para todo» no responde a la necesidad de programas públicos diferenciados en niveles diferentes de desarrollo económico y en el contexto de culturas económicas diferentes. La Ordnungspolitik (política de orden) no es un sustituto de las intervenciones flexibles por parte de un gobierno económico europeo que ha de obtener la libertad de acción para disponer de un presupuesto propio, por limitado que este sea.
— El pacto fiscal sella definitivamente el modo intergubernamental de regular y supervisar políticas nacionales paralelas. La arquitectura tecnocrática de un modo de gobernanza ejercido informalmente por los dirigentes de los Estados miembros de la Unión Monetaria ya fue introducida por el Pacto del Euro Plus el 25 de marzo de 2011 (y no es un daño colateral de la posterior carrera en solitario británica). Con este documento el Consejo Europeo se arroga el derecho, primero, de determinar objetivos específicos para todo el campo de las políticas que afectan a la competitividad de una economía nacional (medida en costes laborales unitarios); y segundo, de supervisar cómo la Comisión controla su implementación temporal. La retórica no puede disimular la práctica que se pretende: basándose en acuerdos informales, los dirigentes de los gobiernos implicados —valiéndose de un claroscuro de presiones y de una sumisión quiérase o no— imponen su voluntad sobre cada uno de los parlamentos nacionales.
En caso de que logre evitarse el crac, deberemos probablemente esperar que la política europea continúe en la dirección posdemocrática de un federalismo ejecutivoii . Si mi análisis se sostiene, este curso de los acontecimientos agravará más bien que aliviará los desequilibrios económicos dentro de la Eurozona, mientras sirva al miope interés de las élites dirigentes consistente en desvincular los acuerdos europeos complejos y de largo alcance de los sospechosos públicos domésticos. Hoy día Europa parece estar atrapada en el dilema de la simultánea necesidad e imposibilidad de una profundización democrática de sus institucionesiii.
--------------------------------------------------------------------------------
i Presentado en el «Symposium for Claus Offe», Hertie School of Governance, el 22 de marzo de 2012, bajo el título «Dilemmas of Democracy — The Example of the Present EU Crisis».
ii El resultado bien podría ser la diferenciación institucional entre miembros y no-miembros de la UEM, dado que pueden invocarse diversas opciones para una «cooperación más intensa» con vistas a desarrollar una «Unión de dos velocidades» dentro del marco legal establecido por los tratados europeos existentes. Véase Jean Claude Piris, The Future of Europe, Cambridge UP, Cambridge (RU), 2012, pp. 61-105.
iii Véase el diagnóstico de Mark Leonhard (Four Scenarios for the Reinvention of Europe, European Council on Foreign Relations (ecfr.eu): «Los líderes europeos han venido avanzando hacia un acuerdo siguiendo los pasos necesarios para salvar el euro. Pero, mientras que reconocen la necesidad de ‘más Europa’, no saben cómo persuadir a sus ciudadanos, parlamentos o tribunales para aceptar esto. Esta es la raíz de la crisis política de Europa: la necesidad y la imposibilidad de integración».
jürgen habermas - 9 de mayo de 2012
En un reciente ensayoi, el filósofo Jürgen Habermas reflexiona sobre la crisis política de la Unión Europea y los dilemas de la democracia actual, prolongando así los trabajos recogidos en su libro La constitución de Europa, que ahora publica Editorial Trotta. Ofrecemos aquí la primera parte de este texto inédito, que en breve será seguida por su segunda entrega.
Durante las cuatro, ya casi cinco décadas de su carrera académica activa, Claus Offe ha abordado con sistemática dedicación la teoría democrática desde el punto de vista del Estado, esto es, tomando en consideración a los encargados de formular la política nacional en las democracias capitalistas. Su interés se dirige principalmente a los límites estructurales del campo de acción de estos responsables políticos: a la manera como consiguen evitar choques deslegitimadores entre los requisitos sistémicos del crecimiento económico y las reivindicaciones de los ciudadanos democráticos. Planteado el problema de este modo, Offe parte de dos supuestos básicos: primero, que los gobiernos liberales dependen de los impuestos tanto como de los votos y que, en consecuencia, deben satisfacer tanto los requisitos legales, infraestructurales y fiscales, a fin de realizar inversiones rentables, como también las reivindicaciones ciudadanas de libertades iguales, justicia social, seguridad de estatus y prestación de servicios necesarios y bienes públicos; segundo, que no existe un mecanismo para lograr el equilibrio entre estas exigencias, que se hallan en mutua competencia e incluso resultan incompatibles en tiempos de crisis.
Valga como ejemplo la crisis presente de la Unión Económica y Monetaria europea (UEM), que Offe ha analizado en términos de un triángulo de constricciones: por un lado, está la necesidad de salir al rescate de instituciones financieras en quiebra cuyos clientes preferenciales son, a su vez, los mismos gobiernos que salvan a los bancos; por otro lado, está la imposibilidad de subir los impuestos —con la consiguiente carga para los inversores de la economía «real», productora de valor— recortando al mismo tiempo el gasto público a costa de la seguridad social o de los bienes y servicios públicos. Contrariamente a un modelo marxiano de funcionalismo, este enfoque no prejuzga la dirección de los flujos causales. Para las democracias capitalistas es una cuestión empírica la de saber si y hasta qué punto la política o bien puede determinar las condiciones marco del sistema económico o bien tiene que adaptarse a sus imperativos funcionales.
Los gestores políticos ocupan una posición especial en el sistema político, aparte de las posiciones de otros actores diversos. Pero solo en contadas ocasiones pueden actuar en el papel diferente y más inclusivo de exponentes del sistema político como un todo, por ejemplo, cuando buscan extender el alcance del poder político dentro de la sociedad más amplia. Un caso relevante son los fallidos intentos por regular los mercados globales financieros con el fin de volver a poner bajo control las operaciones destructivas del sistema bancario (por ejemplo, la introducción de un impuesto europeo sobre las transacciones financieras). El mayor obstáculo para tales intentos es la fragmentación política, esto es, la competición entre los Estados nacionales. Los Estados, que guardan celosamente sus prerrogativas, se resisten a construir nuevas competencias supranacionales para la acción política a costa de una transferencia de derechos soberanos.
Este hecho tiene un impacto inmediato en los dilemas de la democracia, puesto que solo el poder político, y no los mercados, puede ser sometido al control democrático. Sin embargo, no cualquier acumulación de poder en los niveles superiores de un sistema político sirve a la democracia. En la primera parte de este texto quisiera recordar los pasos dados recientemente por el Consejo Europeo hacia una cooperación más estrecha entre los Estados miembros, pasos que conducen a un aumento del poder ejecutivo europeo al servicio de un régimen de la Unión Europea conformador de los mercados y a expensas de la autonomía de los parlamentos nacionales. En la segunda parte, quisiera discutir la viabilidad de una improbable alternativa democrática, que requeriría superar el obstáculo de un ulterior proceso constitucional.
Numerosos expertos coinciden en las causas económicas de la presente crisis fiscal. Dado que la devaluación de la moneda no es una opción viable, y debido a la falta de mecanismos compensatorios tales como la movilidad de la fuerza de trabajo a través de las fronteras nacionales o un régimen común en la política social, la diferencia en los niveles de competitividad entre los Estados miembros ha generado en el pasado desequilibrios económicos a lo largo y ancho de la Eurozona, y continuará haciéndolo de forma creciente en el futuro. Estos desequilibrios solo pueden eliminarse mediante una armonización diferenciada de las políticas económica, fiscal y social de cada nación. En una respuesta tangencial a esta necesidad, el gobierno alemán ha presionado con éxito para lograr un acuerdo sobre los esfuerzos conjuntos en la aplicación de políticas de austeridad nacional, sobre los procedimientos para una supervisión conjunta de su implementación y sobre los mecanismos sancionadores en caso de violaciones. Sin entrar en los detalles de los numerosos y más bien redundantes acuerdos alcanzados desde marzo de 2011, me permito simplemente resumir tres errores de importancia:
— La imposición de políticas de austeridad repite el error estratégico de apostar ante todo por la estabilidad fiscal. Este tipo de coordinación política está cortada a la medida para lograr un traslado más efectivo de imperativos sistémicos a los canales de la política nacional. La estrategia no solo es errónea por razones económicas, al par que desastrosa a la vista de sus consecuencias sociales; es, además, contraproducente cuando se trata del objetivo de tener de nuevo el control político sobre los desenfrenados mercados financieros.
— El paso en la dirección de una gobernanza supranacional por medio de la coordinación de la gestión política nacional conforme a las mismas reglas no es capaz de eliminar las causas estructurales de los ciclos económicos destructivos. La idea de que «un sistema de reglas vale para todo» no responde a la necesidad de programas públicos diferenciados en niveles diferentes de desarrollo económico y en el contexto de culturas económicas diferentes. La Ordnungspolitik (política de orden) no es un sustituto de las intervenciones flexibles por parte de un gobierno económico europeo que ha de obtener la libertad de acción para disponer de un presupuesto propio, por limitado que este sea.
— El pacto fiscal sella definitivamente el modo intergubernamental de regular y supervisar políticas nacionales paralelas. La arquitectura tecnocrática de un modo de gobernanza ejercido informalmente por los dirigentes de los Estados miembros de la Unión Monetaria ya fue introducida por el Pacto del Euro Plus el 25 de marzo de 2011 (y no es un daño colateral de la posterior carrera en solitario británica). Con este documento el Consejo Europeo se arroga el derecho, primero, de determinar objetivos específicos para todo el campo de las políticas que afectan a la competitividad de una economía nacional (medida en costes laborales unitarios); y segundo, de supervisar cómo la Comisión controla su implementación temporal. La retórica no puede disimular la práctica que se pretende: basándose en acuerdos informales, los dirigentes de los gobiernos implicados —valiéndose de un claroscuro de presiones y de una sumisión quiérase o no— imponen su voluntad sobre cada uno de los parlamentos nacionales.
En caso de que logre evitarse el crac, deberemos probablemente esperar que la política europea continúe en la dirección posdemocrática de un federalismo ejecutivoii . Si mi análisis se sostiene, este curso de los acontecimientos agravará más bien que aliviará los desequilibrios económicos dentro de la Eurozona, mientras sirva al miope interés de las élites dirigentes consistente en desvincular los acuerdos europeos complejos y de largo alcance de los sospechosos públicos domésticos. Hoy día Europa parece estar atrapada en el dilema de la simultánea necesidad e imposibilidad de una profundización democrática de sus institucionesiii.
--------------------------------------------------------------------------------
i Presentado en el «Symposium for Claus Offe», Hertie School of Governance, el 22 de marzo de 2012, bajo el título «Dilemmas of Democracy — The Example of the Present EU Crisis».
ii El resultado bien podría ser la diferenciación institucional entre miembros y no-miembros de la UEM, dado que pueden invocarse diversas opciones para una «cooperación más intensa» con vistas a desarrollar una «Unión de dos velocidades» dentro del marco legal establecido por los tratados europeos existentes. Véase Jean Claude Piris, The Future of Europe, Cambridge UP, Cambridge (RU), 2012, pp. 61-105.
iii Véase el diagnóstico de Mark Leonhard (Four Scenarios for the Reinvention of Europe, European Council on Foreign Relations (ecfr.eu): «Los líderes europeos han venido avanzando hacia un acuerdo siguiendo los pasos necesarios para salvar el euro. Pero, mientras que reconocen la necesidad de ‘más Europa’, no saben cómo persuadir a sus ciudadanos, parlamentos o tribunales para aceptar esto. Esta es la raíz de la crisis política de Europa: la necesidad y la imposibilidad de integración».
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Entrevista com o vice presidente da Bolivia
http://www.outraspalavras.net/2012/04/13/a-bolivia-pelos-olhos-do-vice/
domingo, 8 de abril de 2012
A esquerda hoje
Folha de S.Paulo 8 de abril de 2012
Na defensiva
A esquerda após a crise de 2008
RESUMO Para o sociólogo Göran Therborn, que vem ao Brasil para lançar "Do Marxismo ao Pós-Marxismo?", movimentos como o Occupy e os indignados espanhóis se caracterizam como defensivos, sem virar o jogo político. Aqui, ele analisa economia e política na Europa e nos EUA. Leia a íntegra em folha.com/ilustrissima.
ELEONORA DE LUCENA
A crise financeira não tirou a esquerda da defensiva; a direita derrotou a social-democracia na Europa. Mas a falta de saídas neoliberais deve fazer o pêndulo do ciclo eleitoral mudar de tendência. A avaliação é do sociólogo marxista Göran Therborn, professor emérito aposentado da universidade de Cambridge. Nesta entrevista, concedida por e-mail, Therborn, 70, fala das principais eleições no mundo neste ano, do declínio dos EUA e do individualismo.
Ele estará no Brasil nesta semana para o lançamento de seu livro "Do Marxismo ao Pós-Marxismo?" [trad. Rodrigo Nobile, Boitempo, 160 págs., R$ 39]: na terça (10), fala no Tucarena, em São Paulo; na quarta (11), em Porto Alegre, e na sexta (13) em Belém.
Folha - No seu livro "Do Marxismo ao Pós-Marxismo", de 2008, o sr. diz que a esquerda está na defensiva. Ainda está?
Göran Therborn - No conjunto, sim. O crash financeiro e a aceleração da desigualdade econômica não colocaram a esquerda na ofensiva social em lugar nenhum. Existiram, e ainda existem, alguns movimentos inovadores, como a Democracia Real Ya! e o 15-M, na Espanha, e o Occupy Wall Street. Mas eles não foram capazes de mudar os parâmetros básicos do jogo político nacional. Os grandes protestos na Grécia têm sido claramente lutas defensivas. O movimento estudantil chileno, contra a mercantilização do ensino superior, é uma exceção. Ele foi capaz de se conectar com outras forças sociais e empurrou o arrogante governo Piñera para a defensiva.
Muita coisa mudou de 2008 para 2012: a crise financeira global, a Primavera Árabe. As mudanças o surpreenderam? O seu livro ficou desatualizado por causa delas?
Crises em economias capitalistas não surpreendem um cientista social ou um historiador social, embora prever as datas dos seus surtos seja tão difícil como prever as datas dos verões europeus. Os problemas sociais estavam se acumulando sob as envelhecidas ditaduras e oligarquias árabes, como indico em meu livro. Os incipientes movimentos de protestos foram colocados em um livro que publiquei depois, em dezembro de 2010 - "The World" (ed. Polity). Mas eu não esperava a primavera de revoltas.
É possível dizer que, com essas mudanças, o neoliberalismo está perdendo a hegemonia?
Muitas mudanças estão acontecendo sem uma causa em comum. O crash financeiro do Atlântico Norte não estava conectado com a Primavera Árabe, por exemplo. O crash sacudiu as próprias bases do sistema bancário anglo-saxônico. A crise de 2011 na Eurozona mostrou a capacidade de autodestruição das bolhas de fluxo de capital.
A Primavera Árabe também destacou que a liberalização das economias árabes nada havia conseguido de significativo em relação ao desemprego e às perspectivas sociais dos grandes grupos de jovens. Por enquanto, nenhuma força política está argumentando que a única via para um futuro melhor são mais privatizações e desregulamentações. Por outro lado, nos países mais ricos nenhuma alternativa articulada apareceu.
Alguns pensam que a crise põe a democracia em perigo, como nos anos 1930. O sr. concorda?
A democracia, no seu sentido mais limitado, de eleições livres e competitivas, não está em perigo. O amplo e diversificado estabelecimento do Estado de bem-estar social capitalista significa que os efeitos sociais dos choques econômicos hoje são incomparáveis com a miséria e o desespero criados pela depressão dos anos 1930.
Na Europa Ocidental não há movimentos fascistas com algum significado. O que há são xenófobos, principalmente islamofóbicos. Mas eles não ameaçam a democracia. Na Europa Ocidental, a ameaça à democracia vem da tecnocracia. A crise na Eurozona levou à suspensão de governos democráticos, eleitos, na Grécia e na Itália. Na Europa Oriental a situação é mais incerta.
A social-democracia perdeu credibilidade ao ser parceira do neoliberalismo europeu?
Sim, foi claramente o que aconteceu nas derrotas social-democratas na Grã-Bretanha, na Hungria, em Portugal e na Espanha. Mas, como não há solução liberal, o pêndulo do ciclo eleitoral tende a mudar. A social-democracia alemã está crescendo em pesquisas e nas eleições provinciais, e a vitória do socialista François Hollande na França é ainda uma boa aposta.
Como o sr. analisa as eleições na França, na Grécia e no México?
Hollande está à frente em questões sociais e econômicas. A guerra na Líbia não impulsionou a posição precária de Sarkozy, mas ele agora está ganhando força entre a direita xenófoba. A França é o único grande país capitalista com significativas correntes de extrema esquerda, que ganham entre 10% e 20% dos votos.
A Grécia tem uma esquerda com organização bem mais forte do que a Espanha. Tem chance de se tornar a maior força eleitoral no país. Mas está dividida entre três partidos e outras correntes que não convivem bem entre si. O conservador Nova Democracia pode ganhar por causa da divisão da esquerda. Os social-democratas, que se renderam às pressões da crise, serão os grandes perdedores.
O México tem um habilidoso porta-bandeira da esquerda, López Obrador, que organizou um vasto movimento com raízes nacionais. Mas tem a oposição da mídia e das máquinas do clientelismo. Não é provável que vença.
Qual sua previsão para os EUA?
Obama se revelou um presidente fraco, moderadamente conservador, completamente subserviente aos interesses imperiais dos EUA, o que eu esperava. Está enfrentando uma notável reação da direita. O movimento Tea Party logrou explorar a crise financeira com uma linha de extrema direita, que habilmente deixou de lado questões da crise e da desigualdade econômica. Comparativamente, o movimento Occupy Wall Street é pequeno e pobre. Como as primárias têm demonstrado, o Tea Party e os cristãos fundamentalistas moveram o Partido Republicano de volta para uma era [Barry] Goldwater. Com a incipiente recuperação econômica, é provável que Obama vença, mas certamente não de forma esmagadora como a de Lyndon Johnson em 1964.
Por que o sr. considera a influência dos EUA decadente?
Não considero "decadente", que é um termo moralista, mas em declínio, enfraquecida. O declínio é óbvio. No Egito, os EUA nada puderam fazer para preservar o seu segundo cliente mais caro do mundo (depois de Israel), nem foram capazes de impor um novo regime satélite. Em dezembro, Hugo Chávez lançou uma nova organização latino-americana fora da influência dos EUA, a Celac. Antes de 2000, isso seria impensável.
O declínio da influência norte-americana é acima de tudo geopolítico e ideológico. Suas bases são a ascensão de novos e grandes agentes econômicos (China, Índia, Brasil). Há perda de significado da liderança ideológica dos EUA após o fim da Guerra Fria e a óbvia incapacidade das receitas neoliberais anglo-saxônicas para a nova economia mundial.
A tentativa de substituir a Guerra Fria por uma caçada em grande escala, a guerra ao Terror, nunca foi levada a sério por ninguém fora dos EUA. Cada vez menos pessoas e políticos enxergam os seus interesses como coincidentes com os dos EUA. O risco de ignorar os interesses norte-americanos também diminuiu.
É preciso enfatizar onde não há declínio ou onde ele é muito pequeno. Enquanto a relativa predominância econômica dos EUA decai significativamente, não se deve esquecer que boa parte da vanguarda da economia mundial ainda é norte-americana: Apple, Microsoft, Facebook, Amazon, Boeing. Os EUA ainda são o centro do entretenimento de massa e da pesquisa científica. São a única superpotência militar, e seus gastos militares são mais do que o dobro dos gastos de China, Reino Unido, França, Rússia e Japão juntos.
Como analisa o marxismo hoje?
O marxismo é uma original unidade entre filosofia, análise social e política. Muito dessa unidade foi quebrada. Os políticos comunistas se desvincularam de Marx. Foi decisiva a transformação do capitalismo, com desindustrialização, revolução eletrônica e emergência do capital financeiro.
Tudo isso parou e inverteu a tendência de longo prazo anterior: propriedade coletiva, regulação pública e fortalecimento da classe trabalhadora. A queda da URSS foi um propulsor político, mas, sob uma perspectiva histórica de longo prazo, os impasses do socialismo soviético e da social democracia europeia tiveram as mesmas raízes. O marxismo como identidade coletiva foi seriamente enfraquecido e é improvável que torne a ter a sua força anterior.
Como o sr. analisa a questão do individualismo hoje?
É crucial distinguir entre o individualismo egoísta, fundamentado, do individualismo econômico, do solidário, essencialmente um individualismo existencial. O individualismo egoísta econômico existe no Tea Party. Exemplo. Uma apresentadora de TV protesta contra uma abordagem coletiva para a crise: por que ela deveria pagar a hipoteca do vizinho?
É um individualismo burguês na sua forma extrema, e tanto hoje como historicamente é coabitado com familismo patriarcal. O polo oposto está em movimentos juvenis mais progressistas. É um individualismo existencial, que afirma o direito a um estilo de vida individual, ter cabelo verde, ser bissexual, vegan, punk etc. Mas é capaz de ter empatia com os outros, dando apoio e solidariedade.
Na defensiva
A esquerda após a crise de 2008
RESUMO Para o sociólogo Göran Therborn, que vem ao Brasil para lançar "Do Marxismo ao Pós-Marxismo?", movimentos como o Occupy e os indignados espanhóis se caracterizam como defensivos, sem virar o jogo político. Aqui, ele analisa economia e política na Europa e nos EUA. Leia a íntegra em folha.com/ilustrissima.
ELEONORA DE LUCENA
A crise financeira não tirou a esquerda da defensiva; a direita derrotou a social-democracia na Europa. Mas a falta de saídas neoliberais deve fazer o pêndulo do ciclo eleitoral mudar de tendência. A avaliação é do sociólogo marxista Göran Therborn, professor emérito aposentado da universidade de Cambridge. Nesta entrevista, concedida por e-mail, Therborn, 70, fala das principais eleições no mundo neste ano, do declínio dos EUA e do individualismo.
Ele estará no Brasil nesta semana para o lançamento de seu livro "Do Marxismo ao Pós-Marxismo?" [trad. Rodrigo Nobile, Boitempo, 160 págs., R$ 39]: na terça (10), fala no Tucarena, em São Paulo; na quarta (11), em Porto Alegre, e na sexta (13) em Belém.
Folha - No seu livro "Do Marxismo ao Pós-Marxismo", de 2008, o sr. diz que a esquerda está na defensiva. Ainda está?
Göran Therborn - No conjunto, sim. O crash financeiro e a aceleração da desigualdade econômica não colocaram a esquerda na ofensiva social em lugar nenhum. Existiram, e ainda existem, alguns movimentos inovadores, como a Democracia Real Ya! e o 15-M, na Espanha, e o Occupy Wall Street. Mas eles não foram capazes de mudar os parâmetros básicos do jogo político nacional. Os grandes protestos na Grécia têm sido claramente lutas defensivas. O movimento estudantil chileno, contra a mercantilização do ensino superior, é uma exceção. Ele foi capaz de se conectar com outras forças sociais e empurrou o arrogante governo Piñera para a defensiva.
Muita coisa mudou de 2008 para 2012: a crise financeira global, a Primavera Árabe. As mudanças o surpreenderam? O seu livro ficou desatualizado por causa delas?
Crises em economias capitalistas não surpreendem um cientista social ou um historiador social, embora prever as datas dos seus surtos seja tão difícil como prever as datas dos verões europeus. Os problemas sociais estavam se acumulando sob as envelhecidas ditaduras e oligarquias árabes, como indico em meu livro. Os incipientes movimentos de protestos foram colocados em um livro que publiquei depois, em dezembro de 2010 - "The World" (ed. Polity). Mas eu não esperava a primavera de revoltas.
É possível dizer que, com essas mudanças, o neoliberalismo está perdendo a hegemonia?
Muitas mudanças estão acontecendo sem uma causa em comum. O crash financeiro do Atlântico Norte não estava conectado com a Primavera Árabe, por exemplo. O crash sacudiu as próprias bases do sistema bancário anglo-saxônico. A crise de 2011 na Eurozona mostrou a capacidade de autodestruição das bolhas de fluxo de capital.
A Primavera Árabe também destacou que a liberalização das economias árabes nada havia conseguido de significativo em relação ao desemprego e às perspectivas sociais dos grandes grupos de jovens. Por enquanto, nenhuma força política está argumentando que a única via para um futuro melhor são mais privatizações e desregulamentações. Por outro lado, nos países mais ricos nenhuma alternativa articulada apareceu.
Alguns pensam que a crise põe a democracia em perigo, como nos anos 1930. O sr. concorda?
A democracia, no seu sentido mais limitado, de eleições livres e competitivas, não está em perigo. O amplo e diversificado estabelecimento do Estado de bem-estar social capitalista significa que os efeitos sociais dos choques econômicos hoje são incomparáveis com a miséria e o desespero criados pela depressão dos anos 1930.
Na Europa Ocidental não há movimentos fascistas com algum significado. O que há são xenófobos, principalmente islamofóbicos. Mas eles não ameaçam a democracia. Na Europa Ocidental, a ameaça à democracia vem da tecnocracia. A crise na Eurozona levou à suspensão de governos democráticos, eleitos, na Grécia e na Itália. Na Europa Oriental a situação é mais incerta.
A social-democracia perdeu credibilidade ao ser parceira do neoliberalismo europeu?
Sim, foi claramente o que aconteceu nas derrotas social-democratas na Grã-Bretanha, na Hungria, em Portugal e na Espanha. Mas, como não há solução liberal, o pêndulo do ciclo eleitoral tende a mudar. A social-democracia alemã está crescendo em pesquisas e nas eleições provinciais, e a vitória do socialista François Hollande na França é ainda uma boa aposta.
Como o sr. analisa as eleições na França, na Grécia e no México?
Hollande está à frente em questões sociais e econômicas. A guerra na Líbia não impulsionou a posição precária de Sarkozy, mas ele agora está ganhando força entre a direita xenófoba. A França é o único grande país capitalista com significativas correntes de extrema esquerda, que ganham entre 10% e 20% dos votos.
A Grécia tem uma esquerda com organização bem mais forte do que a Espanha. Tem chance de se tornar a maior força eleitoral no país. Mas está dividida entre três partidos e outras correntes que não convivem bem entre si. O conservador Nova Democracia pode ganhar por causa da divisão da esquerda. Os social-democratas, que se renderam às pressões da crise, serão os grandes perdedores.
O México tem um habilidoso porta-bandeira da esquerda, López Obrador, que organizou um vasto movimento com raízes nacionais. Mas tem a oposição da mídia e das máquinas do clientelismo. Não é provável que vença.
Qual sua previsão para os EUA?
Obama se revelou um presidente fraco, moderadamente conservador, completamente subserviente aos interesses imperiais dos EUA, o que eu esperava. Está enfrentando uma notável reação da direita. O movimento Tea Party logrou explorar a crise financeira com uma linha de extrema direita, que habilmente deixou de lado questões da crise e da desigualdade econômica. Comparativamente, o movimento Occupy Wall Street é pequeno e pobre. Como as primárias têm demonstrado, o Tea Party e os cristãos fundamentalistas moveram o Partido Republicano de volta para uma era [Barry] Goldwater. Com a incipiente recuperação econômica, é provável que Obama vença, mas certamente não de forma esmagadora como a de Lyndon Johnson em 1964.
Por que o sr. considera a influência dos EUA decadente?
Não considero "decadente", que é um termo moralista, mas em declínio, enfraquecida. O declínio é óbvio. No Egito, os EUA nada puderam fazer para preservar o seu segundo cliente mais caro do mundo (depois de Israel), nem foram capazes de impor um novo regime satélite. Em dezembro, Hugo Chávez lançou uma nova organização latino-americana fora da influência dos EUA, a Celac. Antes de 2000, isso seria impensável.
O declínio da influência norte-americana é acima de tudo geopolítico e ideológico. Suas bases são a ascensão de novos e grandes agentes econômicos (China, Índia, Brasil). Há perda de significado da liderança ideológica dos EUA após o fim da Guerra Fria e a óbvia incapacidade das receitas neoliberais anglo-saxônicas para a nova economia mundial.
A tentativa de substituir a Guerra Fria por uma caçada em grande escala, a guerra ao Terror, nunca foi levada a sério por ninguém fora dos EUA. Cada vez menos pessoas e políticos enxergam os seus interesses como coincidentes com os dos EUA. O risco de ignorar os interesses norte-americanos também diminuiu.
É preciso enfatizar onde não há declínio ou onde ele é muito pequeno. Enquanto a relativa predominância econômica dos EUA decai significativamente, não se deve esquecer que boa parte da vanguarda da economia mundial ainda é norte-americana: Apple, Microsoft, Facebook, Amazon, Boeing. Os EUA ainda são o centro do entretenimento de massa e da pesquisa científica. São a única superpotência militar, e seus gastos militares são mais do que o dobro dos gastos de China, Reino Unido, França, Rússia e Japão juntos.
Como analisa o marxismo hoje?
O marxismo é uma original unidade entre filosofia, análise social e política. Muito dessa unidade foi quebrada. Os políticos comunistas se desvincularam de Marx. Foi decisiva a transformação do capitalismo, com desindustrialização, revolução eletrônica e emergência do capital financeiro.
Tudo isso parou e inverteu a tendência de longo prazo anterior: propriedade coletiva, regulação pública e fortalecimento da classe trabalhadora. A queda da URSS foi um propulsor político, mas, sob uma perspectiva histórica de longo prazo, os impasses do socialismo soviético e da social democracia europeia tiveram as mesmas raízes. O marxismo como identidade coletiva foi seriamente enfraquecido e é improvável que torne a ter a sua força anterior.
Como o sr. analisa a questão do individualismo hoje?
É crucial distinguir entre o individualismo egoísta, fundamentado, do individualismo econômico, do solidário, essencialmente um individualismo existencial. O individualismo egoísta econômico existe no Tea Party. Exemplo. Uma apresentadora de TV protesta contra uma abordagem coletiva para a crise: por que ela deveria pagar a hipoteca do vizinho?
É um individualismo burguês na sua forma extrema, e tanto hoje como historicamente é coabitado com familismo patriarcal. O polo oposto está em movimentos juvenis mais progressistas. É um individualismo existencial, que afirma o direito a um estilo de vida individual, ter cabelo verde, ser bissexual, vegan, punk etc. Mas é capaz de ter empatia com os outros, dando apoio e solidariedade.
Assinar:
Postagens (Atom)