segunda-feira, 3 de março de 2008

Crise Latino-Americana

Chamo atenção para a atual crise que envolve a Venezuela, Equador e a Colômbia. Em um mundo no qual os países estão cada vez mais internacionalizados, em que formam-se blocos de atuação política poderosos como a União Européia, a América-Latina parece ainda dominada por ideologias de meados do século XX, ideologias essas que acabam por produzir pontos de tensão e alinhamentos perigosos, acabam também criando uma visão maniqueista da política, formando um campo fértil para o surgimento de conflitos.
A falta de uma percepção que governe a interdependência conforme alerta Antônio Negri pode levar os países latino-americanos a um isolacionismo perigoso que nem mesmo os mais poderos Estados da atualidade globalizada se dão ao luxo de sustentar, dada sua lógica inviabilidade.

4 comentários:

Flávio disse...

Caro Alexandre,
Você afirma que as ideologias reinantes no conflito citado são ultrapassadas. Gostaria que informasse qual é a ideologia que considera atual. Se for aquela baseada na lógica do predomínio do poder desregulado dos grandes capitais em detrimento dos valores humanos mais básicos. Acho melhor repensarmos nossa posição a fim de uma esperança de futuro melhor.
A interdependência é importante é necessário hoje. No entanto, o que é necessário saber é qual o tipo de interdependência. Na lógica da simples subserviência acho que já estamos bastante acostumados com ela. Pensemos sim na integração latino americana dos povos, e nao simplesmene a econômica.

Saudações,
Flávio Sueth Nunes

Luciane disse...

Lendo a mensagem postada pelo Alexandre fiquei me perguntando se temos algum ponto de consenso sobre América Latina.
Fiquei pensando se esta não é uma das razões de nossa dispersão. Penso que as vezes um grupo de 4 pessoas pode ser muito coeso, dependendo de seus objetivos, enquanto um grupo de 11 pessoas pode ser disperso. Talvez nosso enquadramento seja no segundo caso.
Digo isto pois tenho acompanhado o caso da Venezuela, assim como o caso de fábricas ocupadas em Santa Catarina e em São Paulo. Como lembrava Paola, na defesa de Marcus, não sei se assistimos a tamanha modificação das realidades econômicas nacionais. É certo que a União Européia realinha o poder mundial, assim como é certo que existem identidades se alterando em função da globalização e das novas tecnologias, bem como dos processos migratórios, que não são nada novos, já nos disse Hobsbawn.
Mas a questão na Venezuela tem uma complexidade interessante. Devemos como pesquisadores tomar uma posição que nos leva a dois caminhos possíveis: do ponto de vista da análise sociológica, o documentário “Não volveran” mostra a organização dos operários e a cultura local de organização. A estatização da SIDOR este ano, coloca uma questão nova: até onde a organização social pode levar Chavez?
É claro que sua posição (em função do petróleo) produz alinhamentos e antagonismos. Mas de forma alguma acho que podemos falar em “ideologia de meados do século XX”. Em primeiro lugar seria preciso argumentar que ideologias seriam estas. Se (e apenas imagino que seja isto), refere-se ao socialismo do século XXI, então seria necessário ser mais exato, uma vez que ideologia é categoria essencial na sociologia, no direito. Como categoria, nunca está vazia no espaço, ideologia sempre é de algum grupo, partido político, sempre envolve alguma relação de poder. E melhor análise é aquela que consegue dissecar as relações de grupos, pois mesmo na União Européia, não temos em absoluto, UMA posição. A UE é um processo em curso, relativamente estável quanto a sua integração econômica, o que não exclui um punhado de tensões (a questão do mercado de trabalho que leva portugueses, belgas, espanhóis para França, é uma delas)
O que interessa ao pesquisador, capaz de compreender o seu tempo, não é, penso eu, ocupar-se com prescrição sobre a forma de certos regimes políticos Estado é uma questão muito trabalhada por Max Weber ao falar de ciência como vocação Este complicado exercício da neutralidade científica. Nos casos que despertam mais paixão, como é este, envolvendo nossos alinhamentos políticos de simpatia ou antipatia ao processo latino-americano encabeçado por Chavez, penso que a receita de Weber é bem vinda. É preciso esclarecer o momento da fala para que nosso discurso não seja o resultante de nossa paixão. É certo que deve existir o momento de expressão deste sentimento, mas na construção textual é importante apresentar de forma clara quem fala? O pesquisador ou o homem político? E se os dois falam ao mesmo tempo, o que ocorre quase sempre, então é necessário dar ao leitor as condições para análise que não obscureçam a visão.
Mas na emissão de um JULGAMENTO POLÍTICO SOBRE OS FATOS, então é bom que se afirme de que ponto de vista falamos dentro do quadro ideológico.

Alexandre disse...
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Alexandre de Oliveira Demidoff disse...

Concordo que a mensagem deveria ser mais clara e creio que temos que debater mais a respeito dessa questão latino americana. Queria ressaltar(e acabei fazendo de forma meio apaixonada) que nossa esquerda parece que não evoluiu, estamos em um mundo no qual acima de tudo o inimigo é o grande capital, este não tem pátria, e de maneira alguma pode ser combatido dentro das estruturas do Estado-Nação. A própria União Europeia é uma experiência que deve ser observada de perto. lá como você citou ocorre uma integração econômica que vai as mil maravilhas, mas se esta integração não gerar mecanismos políticos de controle supranacional e de garantias democrático sociais, tende a destruir o que ainda há de mais avançado no mundo de hoje em termos de direitos sociais. As políticas de esquerda que tem se manifestado no continente latino americano, se utilizam constantemente de suas relações internacionais como forma de angariar apoio político interno, isto acaba por gerar fortes pontos de tensão, de forma alguma se mostra viável a efetivação da democracia em um ambiente conflitivo, no qual o outro, é um instrumento de política interna. É lógico que nos países latino-americanos existem inumeros fatores a serem analisados(os quais necessitariam de um estudo mais apurado), porém partindo de algumas premissas, e o extraordinário poder das transnacionais compõe uma delas, é viável realizar alguma ponderação política. As realidades nacionais tornaram-se reféns da grande flexibilização das empresas, mesmo um autor como Negri que foi citado por mim, e que tem na sua biografia ter sido ativo militante do partido comunista, apenas vê como viável um controle a partir de uma ação articulada da multidão(conceito que vem a superar o conceito de classe), outros como Habermas e Beck seguem a via institucional, mas nenhum destes autores vislumbra a possibilidade de uma ação a partir do modelo clássico do Estado-Nação. Dentro deste molde a atuação será sempre limitada e, creio eu, não eficaz no que concerne a construção da democracia. Mas a crítica foi acertiva no que concerne as motivações emotivas.