quarta-feira, 8 de abril de 2009

Fujimori é condenado por massacres

Folha de São Paulo de 08.04.2009
07/04/2009 - 16h30
Em decisão inédita, Peru condena Fujimori a ficar preso até 2032

O ex-presidente do Peru Alberto Fujimori (1990-2000) foi condenado nesta terça-feira a 25 anos de prisão por violação aos direitos humanos em crimes contra a humanidade e a pagar uma indenização às suas vítimas no valor de US$ 90 mil (quase R$ 200 mil). Depois de ouvir a sentença, a defesa de Fujimori avisou que irá recorrer.

Esta é a primeira vez que um presidente da América Latina que foi democraticamente eleito é considerado culpado, pela Justiça do próprio país, por violação de direitos humanos. Fujimori, que tem 70 anos, já está preso há dois anos, período que deverá ser descontado. Assim, ele só deverá ser solto em 10 de fevereiro de 2032.

Francisco Medina/Reuters

O ex-presidente peruano Alberto Fujimori, condenado por crimes contra humanidade
ONGs de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, consideraram a condenação "exemplar".

Keiko, 33, filha de Fujimori que é deputada federal e potencial candidata à Presidência, disse que a sentença estava cheia de "ódio e vingança". Ela pediu que simpatizantes saíssem, em paz, pelas ruas da capital Lima, para protestar. "O Fujimorismo continuará avançando. Hoje somos os primeiros nas pesquisas, e assim continuaremos."

Na porta da base policial onde ocorreu o julgamento, um grupo pró-Fujimori de cerca de 500 pessoas e 30 familiares de vítimas daquele regime realizaram protestos.

Fujimori é acusado de ter organizado um grupo de extermínio no Exército e, desta forma, orquestrado dois massacres e os sequestros de dois opositores. Ele nega a acusação e diz acreditar que ficará conhecido como o presidente que devolveu a tranquilidade ao Peru. "As quatro acusações estão comprovadas, acima de qualquer dúvida razoável", confirmou o juiz San Martín, nesta terça-feira.

Fujimori contava com altos índices de aprovação por parte dos peruanos por ter controlado a economia daquele país e derrotado o grupo insurgente maoísta chamado Sendero Luminoso. Um escândalo de corrupção, no entanto, prejudicou sua imagem em 2000, ano no qual ele decidiu se exilar no Japão.

Nesta terça-feira, dezenas de simpatizantes de Fujimori compareceram à base policial onde o ex-presidente está preso, em Lima. Nesta segunda-feira (6), famílias de 25 vítimas do grupo de extermínio liderado por Fujimori levaram fotos dos mortos e realizaram uma vigília à luz de velas diante do Palácio da Justiça, também em Lima.

Crimes

O primeiro massacre de que Fujimori é acusado aconteceu no distrito de Barrios Altos, em 1991. O suposto grupo de extermínio liderado pelo presidente, chamado de Colina, invadiu um churrasco e matou a tiros 15 pessoas, inclusive crianças. Mais tarde, revelou-se que o Colina, na verdade, pretendia matar um grupo de simpatizantes do Sendero Luminoso que estava reunido em outro andar, no mesmo prédio.

Outra matança ocorreu sete meses mais tarde, em julho de 1992. Na tentativa de prejudicar o Sendero Luminoso, que realizava ataques quase diariamente, o Colina "desapareceu" com nove estudantes e um professor da Universidade La Cantuta.

Já os sequestros de que Fujimori é acusado são o de um empresário e de um jornalista --na época, correspondente do jornal espanhol "El País"-- que, em 1992, criticaram o fechamento do Congresso e dos tribunais peruanos.

Defesa

Fujimori nega as acusações do Ministério Público e diz ser vítima de perseguição por parte da polícia e dos promotores envolvidos. Ele já questionou a razão pela qual responde a processo enquanto o seu antecessor, o atual presidente peruano, Alan Garcia, sob quem o país entrou em um conflito que matou cerca de 70 mil, não é processado.

Garcia nega ter cometido violação dos direitos humanos durante seu primeiro mandato, que foi de 1985 a 1990, e tem o poder de perdoar Fujimori.

terça-feira, 7 de abril de 2009

América Latina: condenado ex-presidente do Peru


07/04/2009 - 12h32
Folha Online


Decisão inédita condena Fujimori por violação dos direitos humanos

O ex-presidente do Peru Alberto Fujimori (1990-2000) violou os direitos humanos e receberá uma condenação pelos crimes cometidos, anunciou nesta terça-feira o juiz César San Martín, um dos principais responsáveis pelo caso. A pena ainda não foi divulgada, porém o Ministério Público, autor das acusações, havia pedido 30 anos de prisão.
Esta é a primeira vez que um presidente da América Latina que foi democraticamente eleito é considerado culpado, pela Justiça do próprio país, por violação de direitos humanos. O júri de Fujimori, que já dura 15 meses, é conduzido por uma equipe de três juízes.
O ex-presidente do Peru Alberto Fujimori fala durante seu julgamento por dois massacres
Fujimori é acusado de ter organizado um grupo de extermínio no Exército e, desta forma, orquestrado dois massacres e os sequestros de dois opositores. Ele nega a acusação e diz acreditar que ficará conhecido como o presidente que devolveu a tranquilidade ao Peru. "As quatro acusações estão comprovadas, acima de qualquer dúvida razoável", confirmou o juiz San Martín, nesta terça-feira.
Como o ex-presidente tem 70 anos, com a condenação desta terça-feira, é provável que ele passe o resto da vida na prisão.
Fujimori contava com altos índices de aprovação por parte dos peruanos por ter controlado a economia daquele país e derrotado o grupo insurgente maoísta chamado Sendero Luminoso. Um escândalo de corrupção, no entanto, prejudicou sua imagem em 2000, ano no qual ele decidiu se exilar no Japão.
Nesta terça-feira, dezenas de simpatizantes de Fujimori compareceram à base policial onde o ex-presidente está preso, em Lima. Nesta segunda-feira (6), famílias de 25 vítimas do grupo de extermínio liderado por Fujimori levaram fotos dos mortos e realizaram uma vigília à luz de velas diante do Palácio da Justiça, também em Lima.

Fujimori, quando era presidente

Crimes
O primeiro massacre de que Fujimori é acusado aconteceu no distrito de Barrios Altos, em 1991. O suposto grupo de extermínio liderado pelo presidente, chamado de Colina, invadiu um churrasco e matou a tiros 15 pessoas, inclusive crianças. Mais tarde, revelou-se que o Colina, na verdade, pretendia matar um grupo de simpatizantes do Sendero Luminoso que estava reunido em outro andar, no mesmo prédio.
Outra matança ocorreu sete meses mais tarde, em julho de 1992. Na tentativa de prejudicar o Sendero Luminoso, que realizava ataques quase diariamente, o Colina "desapareceu" com nove estudantes e um professor da Universidade La Cantuta.
Já os sequestros de que Fujimori é acusado são o de um empresário e de um jornalista --na época, correspondente do jornal espanhol "El País"-- que, em 1992, criticaram o fechamento do Congresso e dos tribunais peruanos.


Defesa
Fujimori nega as acusações do Ministério Público e diz ser vítima de perseguição por parte da polícia e dos promotores envolvidos. Ele já questionou a razão pela qual responde a processo enquanto o seu antecessor, o atual presidente peruano, Alan Garcia, sob quem o país entrou em um conflito que matou cerca de 70 mil, não é processado.
Garcia nega ter cometido violação dos direitos humanos durante seu primeiro mandato, que foi de 1985 a 1990, e tem o poder de perdoar Fujimori.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A desglobalização e os efeitos da crise econômica

Folha de São Paulo, segunda-feira, 06 de abril de 2009



Crise econômica ameaça era histórica de mobilidade
Para historiador, mundo vive momento mais desafiador em quatro décadas, mas uma desglobalização só é plausível se políticos "estúpidos" ignorarem 30 anos de abertu

As praias mediterrâneas da Líbia foram banhadas por dezenas de corpos dos mais de 200 africanos que naufragaram durante uma precária travessia ilegal em direção à Europa. A milhares de quilômetros dali, no Japão, o governo passou a pagar R$ 6.700 para imigrantes desempregados deixarem o país. Os dois movimentos, ocorridos na última semana, são reflexos distintos de um mesmo e crítico dilema: o que a crise econômica força hoje nos fluxos migratórios globais.
Para o historiador e cientista político Demetrius Papademetriou, apesar do desespero dos que ainda se arriscam, a crise está sufocando o apogeu histórico de mobilidade do século 21, lançando o mundo no "ambiente mais desafiador das últimas quatro décadas". Leia a seguir a entrevista que ele deu à Folha, por telefone, de Washington.



FOLHA - A crise atual é diferente de outras em termos do efeito nos fluxos migratórios?
DEMETRIUS PAPADEMETRIOU - Estudo imigração há quase 40 anos, mas nada do que vi na vida me preparou para o que vivemos hoje. Não só a crise é pior como os fluxos migratórios são muito superiores aos do passado: por isso, as consequências são muito mais importantes. Estamos certamente no ambiente mais desafiador das últimas quatro décadas.
Em 1982 o desemprego nos EUA, por exemplo, era mais alto, mas outros indicadores não estavam nem perto de ser tão ruins. Os choques do petróleo de 1973 não foram nem de longe tão ruins, e a migração nos anos 1970 para os EUA era insignificante. Mas ainda é cedo para ir mais além e fazer comparações com a Grande Depressão nos anos 1930.

FOLHA - Antes da crise, como a última década se encaixava na história dos fluxos migratórios globais?
PAPADEMETRIOU - Estávamos vivendo um recorde. Não seria um exagero dizer que nos primeiros sete anos do século 21 deixávamos a era das migrações e entrávamos na era da mobilidade. É difícil comparar porque existem inúmeras variáveis, como o crescimento da população mundial. Mas, sem contar a imigração forçada, vivíamos o maior fluxo migratório de todos os tempos. Tanto a migração dos altamente qualificados quanto a dos ilegais estavam várias vezes acima do que jamais foram. O único fluxo de pessoas que caiu na última década foi o de refugiados.
A ONU calcula com base em estatísticas nacionais que ao final dos anos 1990 os imigrantes eram 3% da população mundial (cerca de 180 milhões de pessoas). Mas essas estatísticas são bastante inferiores ao número real, pois a maioria dos países nem tenta contabilizar os imigrantes ilegais. E a definição de imigrante de muitas formas é artificial. Na Alemanha, por exemplo, não é considerado imigrante um estrangeiro descendente de alemães.

FOLHA - O que causou esse recorde nos anos 90?
PAPADEMETRIOU - Vários fatores. A demografia dos países ricos os deixou muito mais interessados na imigração, tanto legal quanto ilegal. Os países ricos estão "duplamente espremidos" pelo envelhecimento da população e pela queda na natalidade. Esses países também ficaram de certa forma "ricos demais" e começaram a desprezar certos tipos de trabalho, como a agricultura, que foram preenchidos por imigrantes.
Outro motivo é que a abertura comercial recente criou uma demanda por imigração de fato, principalmente a qualificada. E, por fim, o aumento na conscientização dos direitos humanos provocou redução nos esforços de remoção de ilegais.

FOLHA - O que já vemos de mudança com a crise atual?
PAPADEMETRIOU - Apesar de os dados oficiais estarem pouco consolidados, não há dúvidas de que o fluxo diminuiu. As decisões de imigração são racionais; as pessoas fazem parte de redes sociais bem informadas, é claro que o fluxo acompanharia a queda das oportunidades.
Nos EUA, sabemos que o fluxo de imigração vem caindo desde 2007, mas não há dados que comprovem que o retorno aos países de origem aumentou. A crise vai afetar de forma muito dura os países de origem dos imigrantes ao longo deste ano, desencorajando a volta.
No Reino Unido, temos mais pistas, principalmente sobre imigrantes regularizados. O país tinha, em 2008, 6,6 milhões de imigrantes. Em 2007, 580 mil pessoas chegaram ao país, a maioria delas vinda do Leste Europeu e da Comunidade Britânica. Mas no último trimestre de 2008 houve queda substancial de pedidos de autorização de trabalho. O número de aprovações (cerca de 25 mil) foi 50% menor que no ano anterior e também foi o menor desde o alargamento da UE em 2004. Podemos dizer que há indícios de que não só a imigração já atingiu seu pico como os imigrantes estão mesmo voltando para casa.

FOLHA - Os efeitos da crise na migração serão distintos nos EUA e na Europa?
PAPADEMETRIOU - Sim. Os EUA têm uma proporção muito maior de imigrantes ilegais [um terço]. E a imigração ilegal é a que mais responde ao ciclo econômico. Mas os imigrantes legais também podem ser afetados, pois têm pouco acesso ao sistema de apoio social do governo. Em contraste, em vários países europeus, a rede de proteção social é aplicada igualmente para todos.
É o caso da Espanha, cuja situação econômica é uma das piores entre os países ricos, mas cujo sistema de apoio social é um dos mais generosos do mundo. O governo está oferecendo até 40 mil euros, dependendo da situação, para que imigrantes deixem o país. E não está funcionando. No Reino Unido, a situação é um pouco diferente, porque grande parte dos imigrantes vêm da UE e têm trânsito livre. Eles podem sair sem medo de serem barrados depois.

FOLHA - Quais as consequências econômicas dessas mudanças, se a crise for prolongada?
PAPADEMETRIOU - As novas circunstâncias seriam muito duras com os imigrantes. Se o fluxo de retorno aumentar muito, os países de origem vão sofrer, pois a imigração é sabidamente um forte redutor de pobreza para as famílias do Terceiro Mundo. Nos países de destino, temo que se chegue ao ponto em que imigrantes, particularmente ilegais, se tornarão alvos da população doméstica, como se fossem responsáveis pela falta de empregos. Além disso, quando a prosperidade retornar, a economia dos países ricos sofrerá se demorarem a reconquistar os imigrantes necessários. Os trabalhadores mais flexíveis são os imigrantes, e sua mobilidade geográfica é extremamente importante para os mercados de trabalho.

FOLHA - Então o sr. não crê que a diminuição dos fluxos possa ser permanente?
PAPADEMETRIOU - Não. Esse negócio de "fim da bolha da imigração" é só uma frase de efeito. Não posso dizer que vamos restaurar os mesmos números dos últimos quatro ou cinco anos.
Mas quando a economia começar a se recuperar, o resultado mais provável é o retorno das tendências de antes da recessão. E os primeiros a voltar serão os ilegais, que são os que realmente se movem acoplados à situação econômica.
Conheço dados sobre comércio global, nacionalismo econômico e etc. que sustentam o argumento de uma retração da globalização. Mas daí a dizer que a "desglobalização" está começando a acontecer é prematuro. A chance de "desglobalização" é proporcional à estupidez dos políticos. Se começarem a cancelar acordos e ignorar 30 anos de aberturas, aí ela será possível

domingo, 5 de abril de 2009

A questão urbana no século XVI e em Bauaman

Folha de São Paulo de 05 de abril de 2009

Um lugar pra chamar de seu
DOIS ESTUDOS INVESTIGAM OS SENTIDOS SOCIAL, PSICOLÓGICO E CULTURAL DAS CIDADES NO RENASCIMENTO E NO SÉCULO 21

As cidades estão na ordem do dia, sobretudo as grandes cidades. Qual será a explicação, ou melhor, as explicações para esse protagonismo?
Uma hipótese, entre outras, é que as cidades possuem atributos concretos por meio dos quais é possível avaliar as fortes e abrangentes transformações que estão em andamento em todas as esferas da organização da sociedade.
É no interior das cidades que estão se reorganizando as atividades produtivas, cujas dimensões espaciais, sociais e culturais ganham forma.
Seu caráter intrinsecamente ambivalente e material é, justamente, o tema de dois livros que se situam no interior de um grande arco de tempo que tem o ponto de partida no século 15 e o de chegada na primeira década do século 21.
Estão aí presentes cinco séculos decisivos para a história da cidade.
Nos dois extremos desse percurso situam-se "A Cidade do Primeiro Renascimento", de Donatella Calabi, arquiteta e professora no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, e "Confiança e Medo na Cidade", do sociólogo Zigmunt Bauman.
Professor nas universidades de Leeds e Varsóvia, é um dos mais profícuos autores da atualidade, com 17 livros já publicados no Brasil.

Pontos distintos
Embora muito diferentes nas suas abordagens, ambos se situam em pontos distintos de um processo marcado por mudanças no quadro físico que as cidades experimentaram.
Numa ponta situa-se o período identificado como primeiro Renascimento, patrocinado por príncipes que entenderam e exerceram com energia o poder a partir da edificação de espaços urbanos "mais organizados" no século 15.
Na outra, os espaços da cidade contemporânea, que Bauman aponta como pós-moderna, regidos por príncipes multinacionais e globalizados cujas manifestações iniciais ocorreram no final do século 20.
Enquanto Calabi utiliza instrumentos de análise que destacam a articulação entre os aspectos físicos e ideológicos das operações urbanas praticadas no século 15 europeu, Bauman aponta para a experiência desprovida de urbanidade que caracteriza a vida na cidade contemporânea.
Entretanto, é indiscutível que ambos analisam de forma distinta um mesmo tema: as relações entre cidade e a sociedade. Nos dois casos fica evidente o acerto da análise de Manuel Castells [sociólogo espanhol] quando diz que a cidade não pode nunca ser vista como mero reflexo da sociedade, mas o seu principal instrumento de realização.
Percorrendo os dois livros em sentido cronológico inverso, isto é, do texto de Bauman para o de Calabi, somos obrigados a constatar o malogro no modo de organização e de vida nas cidades.
Os temas atuais abordados por Bauman -o medo, a dificuldade de convívio entre indivíduos diferentes, a mixofobia, entre outros- revelam o considerável fracasso do "modus convivendi" nas cidades contemporâneas. Bauman apoia seus argumentos em importantes contribuições teóricas que procuram apreender a natureza da cidade contemporânea.
Ele apenas aflora conceitos centrais da vida urbana contemporânea, elaborados por autores do porte de Manuel Castells, Richard Sennett, Robert Castel, Peter Hall e muitos outros, produzindo um inteligente texto ensaístico de divulgação.
Calabi segue um modelo distinto para apresentar os elementos que compõem a cidade e o ideário urbano e político utilizado no século 15.
Ela descreve o remanejamento de velhas estruturas medievais e as adaptações que inauguram as manifestações da cidade moderna. Deixa bem claro, embora enfatize a dimensão urbana, o quanto naquele momento a cidade foi "uma razão de Estado", como aponta Walter Benjamin.
Comprometida com uma abordagem acadêmica, Calabi explora os atributos físicos, espaciais, simbólicos e teóricos que presidiram a construção da cidade da primeira fase da Renascença.

Técnicas de construção
Acompanhamos no seu texto a história dos modos de utilização das técnicas construtivas em favor da vida urbana.
No interior do perímetro das muralhas medievais, cuja função se extinguiu com a invenção da pólvora, ganha força um conjunto de transformações físicas que modificavam profundamente a organização urbana.
Retificação e alargamento das tortuosas ruas medievais, abertura de praças e edificação de pontes abrem espaço para a vida coletiva, reorganizam o tecido urbano medieval, buscando torná-lo mais representativo da organização pós-medieval. Isso implicou a criação de uma monumentalidade que colocava toda a cidade em evidência, deixando claro que ela não é apenas a imagem da vontade do príncipe, mas um poderoso instrumento de seu exercício de poder.

Ambivalência
Apesar dos poucos pontos em comum no que se refere ao método de abordagem, nos dois textos há questões que os conduzem a um mesmo objetivo: entender o sentido da urbanidade, concebida como experiência social, psicológica e cultural que nasce dentro do espaço concreto das cidades.
O caráter ambivalente da cidade grafado no título do livro de Bauman nasce justamente da necessidade de colocar a grande cidade no centro do debate sobre o mundo contemporâneo, admitindo todos os seus problemas.
Afinal, a confiança nelas, como defende Bauman, nasce justamente da possibilidade de reestruturá-las como ocorreu no século 15, quando se organizaram as primeiras manifestações da cidade moderna, almejando formas de convívio mais harmônicas

Francisco de Oliveira e a crise econômica

Profa Graça Freitas envia a seguinte noticia




Carta Maior, 05 de Abril de 2009


Carta Maior lança debate: o Marxismo e o Século XXI

A Carta Maior lança a partir de hoje um seminário virtual sobre a obra de Karl Marx
e os problemas que afetam a humanidade neste início do século XXI. Diante da grave
crise econômica, política e social, decorrente das políticas do modelo neoliberal
implementado nas últimas décadas no mundo, o pensamento do autor alemão voltou à
ordem do dia. A nova editoria terá a curadoria do professor Francisco de Oliveira,
que escreverá e convidará, mensalmente, intelectuais para abordar o tema num debate
que se estenderá até o final do ano e procurará ofecerer respostas à pergunta: o que
Marx tem a dizer sobre os problemas do século XXI?

Francisco de Oliveira - Texto de apresentação

O marxismo seguramente foi a doutrina mais importante do século XX, no amplo sentido
de um "campo" (Bourdieu) ou ainda no sentido de ideologia (Gramsci) e não no dos
próprios Marx e Engels.(como doutrina dominante da classe dominante.) A tal ponto
que se pode dizer que o século XX foi o século do marxismo.

A partir das formulações originais da dupla Marx-Engels, o marxismo foi se
constituindo numa concepção de história, numa visão de mundo, numa prática de luta,
numa política, diretamente na crítica ao capitalismo, seu inimigo figadal. Desde o
século XIX, formações partidárias nitidamente operárias criaram-se inspiradas nas
idéias da dupla, tais como o prestigioso Partido Social-Democrata alemão, do qual o
próprio Engels foi militante e dirigente, e o Partido Socialista Operário Espanhol.
Todos os demais partidos de origem operária na Europa Ocidental, e mesmo na Índia,
tinham o marxismo como sua orientação teórico-prática mais consistente.

Deve-se dizer, sem apologia acrítica, que esse vasto campo construiu-se cheio de
contradições, que fizeram sua riqueza, até que a mão pesada do Partido Bolchevique,
vitorioso na Revolução de 1917, em seguida Partido Comunista da URSS, converteu o
marxismo num dogma, e matou, em grande medida, sua capacidade criadora, que requer,
antes de tudo, sua própria autocrítica. O marxismo havia chegado à Rússia pelas mãos
de teóricos do calibre de Plekhanov, e deu origem imediatamente a um movimento
político que tomou explicitamente a forma de partido lutando pela Revolução e pelo
poder, com seus dirigentes que se transformaram em condotiere mundiais, Lênin e
Trotsky, para citar apenas estes.

Todos os partidos de origem operária o tinham como sua referência principal, salvo,
talvez, e ironicamente, o Partido Trabalhista britânico onde o fabianismo e a
rejeição à revolução logo dominaram a cena trabalhista inglesa, na contramão de Marx
que havia pensado que o crescimento do operariado faria aparecer um pensamento e uma
prática revolucionárias. Mas nunca deixou de haver não só uma fração de trabalhistas
ingleses marxistas, como uma tradição teórica sobretudo na área da História, como o
prova até hoje, Hobsbawm, e ontem, Laski, na teoria política. Mas a contribuição do
velho Labour para a formação das políticas do Estado do Bem-Estar talvez tenha sido
a mais importante. Esse vasto movimento chegou até às ex-colônias. O Brasil conheceu
a formação de seu Partido Comunista já em 1922.

Mesmo refluindo das posições revolucionárias, os partidos de origem social-democrata
mais que influenciar, de fato, inseriram as lutas sociais para sempre na política.
Todo o vasto movimento do Estado do Bem-Estar radicou na capacidade de operação dos
partidos de origem operária, a socialização da política a que aludia Gramsci, o que
elevou o nível de vida nos países do Ocidente capitalista a níveis que deixaram o
programa inicial de Lênin como mero exercício teórico. Aliás, o "pequeno grande
sardo" é um dos marxistas mais originais e criativos, que contribuiu poderosamente
para que o próprio marxismo entendesse e explicasse as democracias ocidentais.

Recusando-se a fazer da política uma dedução da economia - o que, infelizmente,
ocorre hoje - Gramsci, nos cárceres do fascismo mussolinista, deu as diretrizes que
tornaram o então Partido Comunista Italiano o mais original e o mais capacitado a
dirigir a nova Itália democrática. Aqui, mais uma vez, a história pregou uma peça: o
progresso italiano, de que o partido de Gramsci foi o avalista em parceria - o
"compromisso histórico" - com os cristãos do Partido da Democracia Cristã, terminou
por solapar as bases sociais de ambos, e o PCI mergulhou numa longa decadência da
qual há apenas vestígios em meio às ruínas das grandezas de Roma.

Mas o marxismo carrega nas costas o pesado fardo do estalinismo e do terror
soviético, sem que os marxistas tenham, até hoje, revelado a capacidade de explicar,
marxisticamente, a tragédia em que desembocou a revolução mais radical da era
moderna. Não é suficiente a explicação materialista-vulgar de que todas as grandes
revoluções comeram seus próprios filhos; tampouco justificar a cruel ditadura do
georgiano - que na verdade já se ensaiava sob Lenin - pelas realizações
técnico-científicas da ex-URSS: todos os marxistas nunca deveriam esquecer a lição
do próprio Marx e dos frankfurtianos de que "progresso e barbárie" sempre formaram
na história universal uma terrível unidade.

A partir de certo momento, ficou muito evidente que o "marxismo soviético" (a
expressão é de Marcuse) não era outra coisa senão uma doutrina de grande potência
arrogantemente usurpadora das tradições marxistas. Mesmo a crítica trotkysta, que
cedo viu a "degeneração burocrática" do Partido, e a também ainda mais precoce
crítica de Rosa Luxemburgo, junto com a postura de Kautsky, não foram suficientes -
nem o poderiam ser, já que o terror estalinista mal havia mostrado suas garras já
sob a criação da temível e terrível Cheka sob Lênin.

Nos fins do século que acabou, talvez nas pegadas da explicação de Perry Anderson
para o que ele chamou de "marxismo ocidental", a combinação da desestruturação
produtiva, com a revolução técnico-científica e paradoxalmente o próprio progresso
levado a cabo pelo Estado do Bem-Estar desbarataram a própria classe operária e seus
partidos social-democratas e comunistas; o "marxismo ocidental" descolou a reflexão
teórica da perspectiva revolucionária. Deixou de influenciar a política e, pois, a
luta de classe organizada, e refugiou-se nos trabalhos acadêmico-científicos. Mesmo
assim, na universidade, que apenas durante um curto período - uns 40 anos , se tanto
- abriu-se para o marxismo, o movimento também refluiu.

Mas, surpreendentemente, a força criadora do marxismo abriu novas fronteiras , mesmo
em terrenos que lhe eram anteriormente hostis e com os quais, ele mesmo, teve
relações conflitivas e lhes dirigiu anátemas dogmáticos. É o caso das religiões-
antes o "ópio do povo", da psicanálise ,-uma ciência do inconsciente da justificação
burguesa dos seus próprios crimes -, da própria literatura (nos caminhos já
originalmente pensados por Lukacs), na critica da cultura e da modernidade - os
frankfurtianos - da hegemonia norte-americana, Gramsci e seu "americanismo e
fordismo". Esses terrenos todos foram imensamente fecundados pelo marxismo, que lhes
ampliou os horizontes.

A pergunta que essa curadoria quer fazer é direta: e o século XXI e no século XXI ?
O que o marxismo pode vir a ser, o que o marxismo tem a dizer? O século abriu-se com
a maior crise econômica, mundial, global, desde os dias da Grande Depressão de
Trinta. Mesmo sobre esta, o que o marxismo disse "no calor da hora" não honrou muito
as tradições da economia política marxista, que é seu terreno e sua certidão de
nascimento. Economistas como Ievguin Varga passaram a certidão de óbito do
capitalismo na crise de 1929. E agora, que crise é esta? François Chesnais tem dado
orientações teóricas muito férteis, sobre a transição para um regime de acumulação à
dominância financeira. E que mais ?

Não há marxismo sem marxistas; estes não são muitos, hoje, no Ocidente. No Brasil,
às vezes tem-se a impressão de que o marxismo floresce sobretudo na universidade, na
área de humanas, e ilumina muitos nichos da crítica. Mas nos partidos de esquerda, o
marxismo é quase sempre um indesejado e no operariado ele é mais, é desconhecido.
Operariado aliás, hoje multifacetado, reduzido nos locais produtivos, abundante nos
locais de serviço, milhões nos trabalhos informais, uma grande classe não-classe.
Será possível combinar reflexão criadora, novas interpretações do mundo, descoladas
do trabalho?

As explorações sobre essas intrigantes questões não se farão com um marxismo
ensimesmado, sectário e doutrinário; mas não se trata de proclamar um ecletismo
despolitizado: as interrogações partem da tomada de posição de que o marxismo pode
ainda alimentar as lutas pela transformação social e política, senão com a
transcendência e abrangência mostradas no século XX, pelo menos com uma postura
crítica que não se deixará seduzir nem pelo apocalipse nem pelo conformismo. Em
suma, um marxismo dialógico e dialético.


Crise financeira?

Teoricamente, temos uma crise clássica na interpretação marxista: é de realização
do valor, mas aqui está sua novidade: a produção do valor se dá na China e sua
realização nos EUA. É no que pode dar a assimetria entre os 10% de crescimento da
China e os modestos 3 a 4% dos EUA. Nos últimos vinte anos, o capitalismo
experimenta uma violentíssima expansão: 800 milhões de trabalhadores foram
transformados em operários entre a Índia e a China, e em todos os países do arco
asiático. Uma ampliação quase sem precedentes na história mundial das fronteiras
da mais-valia. A análise é de Francisco de Oliveira.

Francisco de Oliveira

Tornou-se dominante interpretar a atual crise econômica mundial como financeira,
inclusive nos arraiais marxistas, seguindo-se as indicações elaboradas por
François Chesnais sobre os regimes de acumulação à dominância financeira. E as
evidências empíricas levam água ao moinho dessa explicação, haja visto que foi o
estouro das chamadas hipotecas subprime, que acendeu, finalmente, a luz vermelha
de uma intervenção urgente e profunda. Bush ainda brincou, e deixou o Lehmann
Brothers ir à breca, bem no receituário liberal. Mas o tsunami não perdeu o poder
destrutivo e agora o elegante Barack Obama tenta domá-lo, sem muito êxito, até
aqui.

A crise que aí está é a primeira da globalização, não a primeira global, pois de
há muito todas as crises produzidas no centro do sistema propagam-se
imediatamente. Uma crise da globalização é diferente: ela pode ser gestada nas
periferias do sistema, atingir o centro e daí propagar-se. Teoricamente, ela é uma
crise clássica na interpretação marxista: é de realização do valor, mas aqui está
sua novidade: a produção do valor se dá na China e sua realização nos EUA. É no
que pode dar a assimetria entre os 10% de crescimento da China e os modestos 3 a
4% dos EUA. Nos últimos vinte anos, o capitalismo mundial experimenta uma
violentíssima expansão: 800 milhões de trabalhadores foram transformados em
operários entre a Índia e a China, e em todos os países do vastíssimo arco
asiático. Ficaram de fora nessa verdadeira revolução capitalista, a África, como
sempre, e praticamente toda a América Latina.

Uma ampliação quase sem precedentes na história mundial das fronteiras da
mais-valia. Descentralidade do trabalho? Vade retro! Com certeza, quem escreve e
quem lê estão calçando um tênis e usando um relógio digital produzidos nessa nova
fronteira. Isto quer dizer em teoria do valor que o custo de reprodução da força
de trabalho nos países que importam tais bens de consumo foi drasticamente
reduzido, sem a contrapartida de um aumento do salário monetário das suas classes
trabalhadoras; Robert Kurz já os chamou, faz tempo, "sujeitos monetários sem
dinheiro". Flynt (GM), Dearborn (Ford) e toda Detroit são hoje cidades fantasmas,
casas abandonadas, com desempregos duas vezes superiores à taxa nacional
norte-americana, e uma cena medieval diária, inimaginavel na América das
oportunidades: trabalhadores em filas recebendo refeições; ao invés de Lutero e
Calvino, São Francisco de Assis..

Atenção: esta revolução nos mercados de trabalho mundiais não poderia ter sido
feita sem uma pesada mudança técnico-científica nos métodos e produtos. O relógio
digital que se descarta é banal porque produzido por uma enorme infra-estrutura
técnico-científica que tornou as imensas reservas de mão-de-obra baratíssimas. A
China hoje tem mais estudantes de curso universitário que os EUA, e mais
pós-graduandos que o total de estudantes universitários do Brasil.

Nos EUA isto significou que a não-contrapartida em salário monetário deixou um
buraco nas contas dos consumidores e das famílias, que no boom da especulação
imobiliária tinham adquirido a casa dos seus sonhos. Cujos empréstimos os
norte-americanos imediatamente deixam de pagar, abandonam as casas e vão morar nos
trailers de seus carrões, estacionados à noite nos parkings, onde dormem. E os
bancos e financeiras hipotecárias deixaram até de cobrar, porque o crédito novo,
obtido através do FED e dos empréstimos chineses, era mais barato do que cobrar
dos inadimplentes.

A oferta de dinheiro barato, as subprimes, veio das aplicações chinesas em títulos
do tesouro americano, cujo FED deixou os bancos privados expandirem o crédito para
além de qualquer critério. Já em março de 2005, Ben Bernanke, então importante
economista de Princeton, alertava para o risco da utilização dos empréstimos
chineses para financiar os pesados gastos das famílias norte-americanas, em
hipotecas de casas e carros. Ben é hoje o todo-poderoso presidente do FED, e de
crítico converteu-se em administrador da bancarrota (citado em Mark Landler,
"Somente os bolsos chineses se enchiam" Folha de S.Paulo, 5/jan/2009, artigos
selecionados do The New York Times).

Francisco de Oliveira é Professor Emérito da FFLCH-USP.

Os sindicatos na França e a crise econômica

Folha de São Paulo, domingo, 05 de abril de 2009


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Crise radicaliza ação de sindicatos na França
Desesperados, funcionários de empresas em dificuldades sequestram altos executivos para tentar evitar onda de demissões

Especialista prevê agravamento de tensões; desemprego no país atinge 2,38 milhões de pessoas, ou 8,5% da população ativa

ANA CAROLINA DANI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

Na última terça-feira, cinco executivos de uma filial francesa do grupo norte-americano Caterpillar foram tomados como reféns e passaram a noite retidos nos escritórios da empresa, instalada na região de Grenoble, no sul da França.
Eles não foram vítimas de nenhum comando terrorista e muito menos atacados por sequestradores. Os executivos, entre eles o diretor-geral da fábrica na França, Nicolas Polutnik, foram retidos pelos próprios empregados, que protestavam contra o plano de demissões anunciado pela empresa.
Segundo os sindicatos, a decisão foi tomada porque a direção se negava a negociar as condições de saída e o valor das indenizações que seriam repassadas aos assalariados.
Em janeiro deste ano, o grupo Caterpillar anunciou a supressão de 25 mil postos de trabalho em todo o mundo, sendo 733 na fábrica de Grenoble. Os sindicatos tentavam negociar melhores indenizações e pediam a redução do número de demissões.
O exemplo da Caterpillar, que está longe de ser um caso isolado, ilustra o clima de crescente tensão social que vive o país. Também na última terça-feira, cerca de cem empregados das redes Fnac e Conforama, filiais do grupo PPR, bloquearam por quase uma hora o táxi que transportava o presidente do grupo, François-Henri Pinault.
O empresário, à frente do segundo maior grupo de luxo do mundo, somente pôde seguir viagem após a intervenção da polícia. Os empregados também protestavam contra o plano de restruturação, anunciado no dia 18 de fevereiro, que prevê a redução de 1.200 postos de trabalho nas duas empresas.
Na semana anterior, no dia 25 de março, executivo de uma fábrica de remédios na França, filial do grupo norte-americano 3M, também foi feito refém por mais de 24 horas. Poucas semanas antes, no dia 13 de março, o presidente da Sony no país, Serge Foucher, já havia sido retido por mais de um dia por empregados da fábrica de Pontonx-sur-l'Adour, na região dos Landes, sudoeste da França.
Os assalariados tentavam uma última cartada para evitar o fechamento do local, previsto para o próximo dia 17 de abril.

Tensão
"A multiplicação dos anúncios de supressão de empregos em um contexto de grave crise econômica levou a uma evidente radicalização dos movimentos e das relações sociais", avalia Guy Groux, sociólogo, especialista em movimento sociais e professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris.
Segundo ele, ações radicais como sequestros de empresários, barricadas em estradas ou ocupação de fábricas devem se tornar mais frequentes nos próximos meses.
Desde que a crise financeira mundial se transformou em crise econômica, não se passa uma semana sem que uma empresa na França anuncie planos de reestruturação, muitos deles prevendo demissões.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee), somente nos seis primeiros meses deste ano, 387 mil empregos devem desaparecer no setor privado francês.
Com isso, a taxa nacional de desemprego tem crescido. Somente no mês de fevereiro, cerca de 80 mil pessoas ficaram desempregadas, registrando o segundo mês consecutivo de aumento da desocupação, que atinge 2,384 milhões de pessoas, ou o equivalente a 8,5 % da população ativa.
Para o especialista em relações sociais Hubert Landier, a crise econômica é a principal causa da radicalização das ações dos sindicatos e dos trabalhadores, mas não a única. "Na França, as relações sociais são fundadas muito mais na confrontação do que na busca do compromisso, como é o caso na Alemanha e nos países do norte da Europa", afirma.
Landier também aposta no agravamento da tensão social no país. "Muitas empresas que puderam até o momento resistir com medidas como férias coletivas ou suspensão temporária da produção serão obrigadas a demitir nos próximos meses, o que deve contribuir para novas ações violentas", afirma.
Segundo ele, é necessário evitar comparações simplistas. "São trabalhadores, e não criminosos, que optaram por um tipo de ação radical, por desespero e para chamar a atenção da opinião pública e do governo", conclui.
Desde o inicio deste ano, duas greves paralisaram parcialmente a França. A mais recente, no dia 19 de março, reuniu entre 1,2 milhão e 3 milhões de pessoas, em várias cidades. Ante o aumento do desemprego e da pressão social, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou na semana passada a nomeação de um secretário para a reindustrialização, a fim de coordenar ações do governo nas regiões industriais mais afetadas pela crise.
O governo também decidiu proibir a atribuição de bônus e de opções conversíveis em ações a executivos de empresas ajudadas pelo governo.

sábado, 4 de abril de 2009

Guerra sem fim

Otan mandará mais 5 mil soldados ao Afeganistão, diz Obama
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da Folha Online

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, confirmou neste domingo que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) ofereceu cerca de 5 mil soldados extras para enviar ao Afeganistão.

"Durante tempo demais nossos esforços no Afeganistão não tiveram os recursos necessários para conseguir nossas metas" nesse país, disse ele em coletiva de imprensa após a cúpula da Otan em Estrasburgo (França), que comemorou os 60 anos da aliança militar.

Durante a reunião, a Otan decidiu manter seus compromissos para apoiar a estabilização do Afeganistão. Desta forma, a aliança segue com tropas no país --o que estava em discussão porque havia a sensação para alguns países-membros de que a medida não estava dando o efeito desejado.

Os EUA, lembrou, já tomaram medidas para se reforçar e enviará cerca de 21 mil soldados a mais além dos 36 mil que já mantém, mas o país "não pode enfrentar este desafio sozinho".

Obama se declarou satisfeito com as ofertas dos aliados --que, segundo informações, inclui o envio de 3 mil soldados para apoiar a segurança diante das eleições de 20 de agosto no Afeganistão.

Além disso, disse, também serão enviados 300 efetivos para ajudar no treinamento das forças afegãs. Os aliados prometeram também um fundo de US$ 100 milhões, dos quais US$ 57 milhões procederão da Alemanha, para custear as tarefas de formação destas forças.

"Esta não era uma conferência de doadores, e, no entanto, recebemos o tipo de compromisso que historicamente não se recebe em conferências como esta", disse Obama, que insistiu em que o valor prometido é "significativo".

Segundo o presidente americano, parte do sucesso obtido ao conseguir o compromisso dos aliados se deve a que "não tentamos passar por cima das dificuldades" da missão.

Neste sentido, reconheceu que o envio de mais soldados ao Afeganistão "representa um esforço da população em um momento muito difícil", devido à crise econômica mundial.


Fonte: Folha de São Paulo