segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Operação Condor

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São Paulo, segunda-feira, 25 de janeiro de 2010


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Escavações revelam detalhes da repressão na Operação Condor
Antiga fazenda na fronteira com a Argentina foi um centro de detenção clandestino para opositores de ditaduras nos anos 70

Local passou a ser usado em 1976 para que suspeitos de atuar em grupos de esquerda pudessem ser interrogados, torturados e executados

ANA FLOR
ENVIADA ESPECIAL A URUGUAIANA (RS)

Novas escavações em uma fazenda na fronteira entre Brasil e Argentina trouxeram à tona detalhes das atividades da repressão no fim dos anos 70 na chamada Operação Condor -ação das ditaduras militares dos países da América do Sul.
A Estância La Polaca, a 15 km de Paso de Los Libres (Argentina) e às margens do rio Uruguai, foi um centro de detenção clandestino para onde eram levados opositores das ditaduras. Em dezembro, a Justiça argentina determinou nova busca de corpos no local. Acredita-se que lá possam estar enterrados militantes de esquerda.
Antiga fazenda de gado, La Polaca é um local sem moradores. Sua existência como centro de detenção foi confirmada em 2005, pelo depoimento de um ex-agente de inteligência do Exército argentino, Carlos Waern. O local começou a ser usado em 1976. Para lá eram levadas pessoas suspeitas de pertencer a grupos de resistência que passavam por Uruguaiana -fronteira binacional- para ir a Brasil, Argentina e Uruguai.
Segundo a pesquisadora Sabrina Steinke, da PUC-RS, de 1976 a 1978 várias fazendas foram tomadas por empréstimo na Argentina. Serviam de prisão onde os detidos eram interrogados, torturados e executados. "A prisão clandestina de estrangeiros na Argentina mostra que esses centros não serviam apenas ao governo argentino, mas sua manutenção estava relacionada à Condor."
La Polaca surgiu na contraofensiva da ditadura argentina para deter montoneros, grupo de origem peronista que tentou fazer um levante contra o regime no país no final dos anos 70. Ao menos dois deles foram detidos pela Argentina em Uruguaiana -procedimento ilegal que a Condor tornou rotineiro.
A partir de 1978, a Argentina passou a usar os presos, depois de torturados, como "marcadores". Tornavam-se informantes da repressão e, levados à ponte onde fica a fronteira de Libres e Uruguaiana, delatavam companheiros da esquerda que tentavam cruzar de ônibus.
Lorenzo Ismael Viñas e Jorge Oscar Adur, detidos em Uruguaiana em 26 de junho de 1980, teriam sido identificados por marcadores. O desaparecimento dos dois em solo brasileiro, reconhecido pelo Brasil, é investigado pela Procuradoria da República de Uruguaiana, que pretende denunciar os responsáveis criminalmente.
Segundo depoimentos, Adur teria passado por La Polaca.

Copa
La Polaca e os outros centros podem ter sido usados para esconder do mundo a repressão no país durante a Copa de 1978. Com o campeonato, foi necessário tirar presos ou sessões de interrogação de Buenos Aires.
Em documento obtido pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos de Porto Alegre, a polícia argentina pede ajuda ao Brasil para "localizar e deter montoneros" que eram uma ameaça para a "tranquilidade" da Copa do Mundo. "A busca dessas pessoas, consideradas inimigas do governo, era feita em conjunto e sistematicamente", afirma Jair Krischke, presidente do movimento.

domingo, 24 de janeiro de 2010

"Davos deveria decretar sua falência intelectual", diz idealizador do Fórum Social Mundial

Empresário brasileiro Oded Grajew, um dos mentores do Fórum Social Mundial, conta como a iniciativa surgiu há dez anos e avalia a repercussão dessa rede de movimentos sociais sobre a política internacional desde então.

Deutsche Welle: Dez anos após a realização do primeiro Fórum Social Mundial (FSM), em 2001, como o senhor – um dos mentores desse espaço de reflexão e reivindicação paralelo à política institucional e a estruturas governamentais – avaliaria o impacto da iniciativa desde então? Haveria conquistas que o senhor atribuiria inequivocamente à influência do FSM?

Oded Grajew: Em 2000, a ideologia neoliberal estava no auge, a ponto de muitos cientistas sociais considerarem que havíamos chegado ao fim da história. O mercado, liberado de qualquer controle social, iria levar a humanidade à prosperidade e à justiça social. Carlos Menem (o presidente argentino que levou seu país à bancarrota) era recebido com honras em Davos e sua política considerada como modelo para países emergentes.

O Fórum Social Mundial surgiu para denunciar os riscos do modelo liberal e abrir um espaço onde pessoas, lideranças e organizações da sociedade civil, de forma auto-organizada, pudessem se encontrar e, seguindo os parâmetros de nossa carta de princípios, se articular para visibilizar experiências e propostas, se articular e se juntar para ações conjuntas.

A partir da realização do primeiro Fórum Social Mundial em 2001, em Porto Alegre, centenas de fóruns locais, nacionais, continentais e temáticos se espalharam pelo mundo. O lema do FSM – "Um outro mundo é possível" – ganhou corações e mentes. De 2001 para cá, o mapa político de vários países mudou completamente, a começar pela América Latina, onde começou o FSM. Muitos frequentadores do FSM desde o seu início são hoje presidentes dos seus países ou ocupam postos importantes de governo.

A delegação norte-americana sempre foi muito grande nos eventos do FSM e vários dos seus componentes tiveram papel decisivo na eleição de Obama. As grandes manifestações mundiais contra a guerra do Iraque foram todas articuladas em Porto Alegre e fizeram a Alemanha e a França desistir de participar daquela guerra. A unanimidade pelo modelo neoliberal ruiu completamente e os países que ainda continuaram a seguir essa ideologia foram aqueles que mais sofreram com a crise financeira de 2008.

Inúmeras redes sociais a nível nacional, continental e mundial se estabeleceram (por exemplo, a rede mundial pela água como bem público), conseguindo importantes avanços nos seus propósitos. Praticamente todas as pressões exercidas nos encontros do Banco Mundial, FMI, G8 e, mais recentemente, em Copenhague, foram articuladas a partir de lideranças e entidades ativas participantes do FSM.

Essas pressões tiveram, por exemplo, a capacidade de barrar o projeto neoliberal da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Enumerar a quantidade de ações geradas a partir do processo FSM esgotaria o espaço desta entrevista. Temos hoje uma sociedade civil global ativa e atuante em todos os assuntos relevantes e o FSM teve uma grande participação nessa construção.

Com o agravamento dos problemas climáticos e os efeitos da crise financeira mundial, algumas reivindicações do FSM se tornaram ainda mais atuais. Até que ponto as estruturas governamentais e internacionais vêm se tornando permeáveis a certas propostas do fórum nesse sentido?

Vários governantes atuais eram frequentadores de primeira hora do FSM. Foram eleitos quando a onda da mudança expressa pelo lema "Um outro mundo é possível" começou a se espalhar na sociedade e colocaram em prática várias idéias e propostas visibilizadas nos encontros do FSM. Vários destes países melhoraram a vida de sua população e não é por acaso que se saíram melhor de que outros na recente crise financeira.

A governança mundial exercida pelo G8 teve que ser ampliada para mais países. As Nações Unidas, sempre muito resistentes a se tornarem mais democráticas, perderam ao longo dos últimos anos uma boa parte de sua credibilidade. O tema ambiental, que sempre esteve muito presente no processo FSM, se tornou um assunto prioritário a nível mundial, mas infelizmente ainda muito longe de se traduzir em ações concretas.

E no caso específico do Brasil, como o senhor descreveria a relação entre a atuação do governo Lula e as estruturas não governamentais associadas ao FMS?


O presidente Lula esteve sempre presente nos encontros do FSM, mesmo antes de ser eleito. Ele incorporou ao seu governo diversas propostas gestadas no FSM e convidou várias lideranças sociais a fazer parte do seu governo. Várias (eu diria a maioria) das iniciativas do seu governo contaram com a simpatia de organizações sociais brasileiras, outras receberam críticas e outras ainda foram julgadas insuficientes.

Mas o fato mais importante é que foram instituídos vários espaços de participação em que sugestões, propostas e críticas puderam se expressar de forma democrática. O processo FSM no Brasil (como, aliás, em todo o mundo) conserva seu caráter não governamental e apartidário, sendo uma iniciativa exclusiva da sociedade civil.

O senhor foi um dos idealizadores do FSM. Qual foi exatamente a sua contribuição pessoal para a criação do fórum na época? O que possibilitou que a ideia fosse viabilizada em 2001?

Em janeiro de 2000, eu estava com a minha mulher, Mara, em Paris. Os meios de comunicação davam um grande destaque às idéias de Davos, dizendo que finalmente encontramos no modelo neoliberal o modelo ideal e que os críticos só sabiam criticar e não tinham nenhuma proposta alternativa. Eu lembrava também de uma conversa recente que havia tido com Klaus Schwab, presidente do Fórum Econômico Mundial, em que notei total insensibilidade com as questões sociais e ambientais. Isso tudo me incomodava enormemente.

Um dia, sentado no quarto do hotel esperando minha mulher se arrumar para sairmos e refletindo sobre o que poderia ser feito para reagir a essa situação, tive a ideia: criar um Fórum Social Mundial em contrapartida ao Fórum Econômico Mundial, a fim de denunciar o modelo neoliberal, mostrar que existem outros modelos alternativos e oferecer um espaço para a sociedade civil se encontrar, se articular e ganhar força para ações conjuntas. Percebi logo que essa ideia tinha sentido e força. Chamei minha mulher e pergunte a ela o que achava. Ela gostou. Resolvi começar a testar a idéia.

Meu amigo Chico Whitaker estava coincidentemente em Paris na mesma época com sua mulher, Estela. Liguei para ele e contei a idéia. Ele também gostou. Propus a ele irmos conversar com Bernard Cassen, do Le Monde Diplomatique, que era nosso conhecido, para continuar a checar a idéia. Fomos com nossas mulheres ao seu escritório. Bernard também gostou e começamos a especular sobre o local. Bernard deu a idéia de Porto Alegre pelo fato de essa cidade ter sido governada vários anos por governos progressistas, proporcionando assim uma chance maior de acolhimento da ideia.

Voltando ao Brasil, telefonei ao prefeito de Porto Alegre e ao governador de Rio Grande do Sul, que já eram meus conhecidos. Os dois gostaram da ideia e se propuseram a apoiá-la. Eu já tinha vários anos de militância na área social, embora minha origem fosse como empresário do setor de brinquedos.

Na época, inclusive, era presidente do Instituto Ethos, que promove a responsabilidade social empresarial. Reuni no meu escritório do Ethos sete amigos e dirigentes de organizações sociais brasileiras para compartilhar a ideia do FSM e todos gostaram. Formamos o grupo de oito organizações brasileiras encarregadas de colocar em pé o primeiro evento. Fomos a Porto Alegre para verificar a infraestrutura. Fui buscar recursos com duas fundações internacionais (tive inclusive de viajar para conseguir esses apoios), o que viabilizou a instalação de um escritório e uma secretaria executiva.

Começamos a articular com organizações sociais internacionais com as quais todos nós tínhamos relações e organizamos o lançamento internacional do FSM num encontro em Genebra, em junho de 2000. Em janeiro de 2001, com a participação de 20 mil pessoas e a realização de 800 atividades (no último FSM, na Amazônia, tivemos a presença de 150 mil pessoas e a realização de 2.500 atividades), foi realizado o primeiro encontro do FSM.

Em breve, o senhor estará em Porto Alegre para o 10º FSM. Ao longo de uma década, o fórum também mudou sua estrutura, tendendo a uma maior descentralização. Dado o caráter de atuação local de grande parte dos movimentos e organizações envolvidos no fórum, como constituir um discurso por assim dizer "global"? Ou isso é dispensável?

O lema do FSM é "Um outro mundo é possível". Desde o seu início, o Fórum Social é mundial e tem a perspectiva da construção de um processo de globalização diferente, que privilegie o desenvolvimento sustentável, os direitos humanos, a justiça social e a democracia participativa. Na metodologia do FSM, dentro da Carta de Princípios, sendo um processo auto-organizado, cada organização desenvolve suas atividades, se manifesta e se articula de forma totalmente livre e independente. Ninguém é mais importante que o outro, nenhum tema exclui a relevância de outros. A valorização da diversidade é um dos pilares dos nossos princípios.

Desta maneira, há um fluxo e ligação permanentes entre assuntos e atividades locais, nacionais, continentais e globais que acabam se realimentando e se fortalecendo mutuamente. Foi por isso que, após três edições do FSM em Porto Alegre, veio a decisão de ir para a Índia e posteriormente para outros países da América Latina, Ásia e África, realizar fóruns nacionais e continentais na Europa, nos Estados Unidos. Com isso, o fórum foi se espalhando em cidades e países de todo o mundo, se articulando em ações locais e globais que não se contrapõem, mas se conectam e se fortalecem mutuamente.

O lema do Fórum Econômico Mundial neste ano é "Melhorar o estado do mundo: repensar, reformular, reconstruir". No entanto, considerando as medidas de combate à crise deliberadas pelo G20 e a falta de um consenso internacional relevante na Cúpula do Clima em Copenhague, o que deveria ser repensado em Davos?

O Fórum Econômico Mundial foi criado e é financiado pelos defensores do modelo neoliberal. Está a serviço de uma ideologia que coloca o mercado liberado de controles e restrições como o grande alavancador do "progresso", que enxerga as restrições ambientais como danosas ao desenvolvimento. Tornou-se uma atividade bastante lucrativa para o seu organizador, e diante dos sucessivos fracassos de suas ideias (em 2000, elegeu Carlos Menem, que levou a Argentina à bancarrota, como seu herói e recomendou que suas políticas fossem um modelo para todos os países da região; menosprezou todas as informações sobre o aquecimento global; nunca se manifestou contra as guerras atuais; não conseguiu prever a recente crise financeira até pouco tempo antes de ela estourar etc etc etc) deveria simplesmente decretar sua falência intelectual e moral e encerrar suas atividades.

Tenta maquiar seus reais interesses, escolhendo títulos pomposos para seus encontros e promovendo atividades filantrópicas (coletando alguns dólares entre seus participantes e achando que com aquilo vai acabar com a pobreza no mundo), para tentar passar a ideia de que se preocupa com questões sociais e ambientais.

As empresas e os governos que chegaram ao poder graças ao financiamento que obtiveram dessas empresas, frequentadores e financiadores de Davos, protagonistas do fracasso de Copenhague, deveriam investir suas energias para fazer uma profunda autocrítica sobre suas responsabilidades na enorme pobreza e desigualdade social em nosso planeta, no acirramento de conflitos e guerras, no eminente desastre ambiental que se aproxima devido às suas políticas e modelo de produção e consumo que colocam em risco a nossa vida, certamente a dos nossos filhos e netos e de toda a espécie humana.

O lema da reunião de fechamento de Davos deveria ser: "mea culpa –onde e como foi que tanto erramos?"

Oded Grajew, 65 anos, empresário e idealizador do Fórum Social Mundial, integra o Movimento Nossa São Paulo e é membro do Conselho Deliberativo e presidente emérito do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.

Entrevista: Simone Lopes

Revisão: Alexandre Schossler


Fonte: http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5136046,00.html

sábado, 23 de janeiro de 2010

O papel das ONGS

Folha de São Paulo, sábado, 23 de janeiro de 2010




Organizações são mal necessário, diz especialista
DE GENEBRA

David Lewis, professor de política social na London School of Economics, avalia que as ONGs estão em baixa, mas são um "mal necessário". Para ele, as entidades pecam por um excesso de desorganização que atrapalha sua eficácia, mas ao mesmo tempo são úteis ao complementar o trabalho do Estado com projetos mais ousados e diversificados.




FOLHA - Qual o problema de coordenação das ONGs?
DAVID LEWIS - Nada de novo. Acho que embora as pessoas que trabalham nas ONGs geralmente sejam movidas pelo altruísmo, as ONGs como instituição são individualistas e autocentradas. Elas competem por fundos quando não estão em campo, e por isso precisam mostrar que estão fazendo um determinado trabalho. Por outro lado, as ONGs têm estruturas e focos diferentes, e podem ousar mais meio que por serem mais amadoras. Dentro disso, a falta de coordenação pode se tornar importante para elas às vezes.

FOLHA - Como assim?
LEWIS - As pessoas costumam pensar "se estou dando US$ 10 a uma ONG, quero ver US$ 10 chegarem às pessoas em necessidade". Elas não querem saber que 20% vai para custos administrativos. Muita gente que doa para as ONGs é pouco realista, e há uma certa pressão para que elas não gastem dinheiro em administração. Muitas vezes as ONGs acabam sendo vítimas das expectativas.

FOLHA - Na lista de doadores no site da ONU, a fração de donativos às ONGs é bem menor que a entregue à ONU ou gerenciada pelos governos doadores. Há desconfiança?
LEWIS - Acho que as ONGs hoje não são mais tão populares. Nos anos 60 e 70, ninguém falava em ONG -claro, tinha algumas, mas elas não eram um ator importante nas ações humanitárias. Aí nos anos 80 foram "descobertas" e passaram a ser consideradas a solução de muitos problemas, pois era a época do neoliberalismo, de enxugar o Estado. Já no fim dos anos 90, elas começaram a sair de moda, em parte porque sua performance não atendia às expectativas, em parte porque os doadores passaram a apoiar mais ações governamentais novamente. Também acho que as pessoas passaram a se preocupar com a falta de prestação de contas. Hoje os sentimentos são contraditórios sobre as ONGs. Elas não são mais consideradas organizações honradas, mas mais como um "mal necessário" na falta de alternativas.

FOLHA - Como elas tentam superar essas limitações?
LEWIS - O que algumas têm feito é adotar um acordo sobre padrões. Hoje o mais conhecido é o Sphere, que estabelece padrões em termos de transparência, qualidade etc. Outra coisa é que emergiram novos tipos de ONG, como os Médicos Sem Fronteiras, mais pragmáticas. Eles vão lá e só querem prestar cuidados médicos, sem se meter em política.

FOLHA - Como escolher para quem doar? Há parâmetros?
LEWIS - Acho que o único parâmetro é que elas prestem contas. Como doador, você tem de pedir que elas abram seus balanços. Mesmo assim é difícil. Você vai procurar quem alimenta mais gente com US$ 100 por dia no Haiti ou vai olhar como as pessoas estarão um ano após o início da ação?

FOLHA - As pequenas ONGs estão atuantes no Haiti?
LEWIS - Há uma mistura. Há umas muito pequenas, semana passada teve um grupo de pessoas que embarcou para o Haiti para tirar gente de escombros. Pode não ser nem uma ONG formal. E na outra ponta há essas ONGs superprofissionais, que parecem corporações.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Imprensa alemã vê disputa colonialista na ajuda ao Haiti

Imprensa alemã vê disputa colonialista na ajuda ao Haiti

Para a imprensa alemã, Haiti se desenvolve como palco de disputa colonialista entre Brasil, EUA, França e Venezuela. Especialista alemão acredita, todavia, que expansão da missão da ONU definirá futuro dos haitianos.

Em artigo publicado nesta segunda-feira (18/01), a versão online do semanário alemãoDer Spiegel comentou que as consequências do terremoto no Haiti ainda não são previsíveis, "no entanto, EUA, França e Brasil já brigam pela hegemonia no país".

Segundo o site, especialistas preveem que nos próximos anos o país deverá se tornar novamente uma espécie de colônia, enquanto o governo haitiano observa a situação de forma impotente.

Hillary Clinton e presidente haitiano René PrévalHillary Clinton e presidente haitiano René PrévalApós o presidente haitiano René Préval haver transferido o controle do aeroporto de Porto Príncipe aos EUA, Brasil e França teriam se queixado oficialmente junto a Washington, já que as tropas norte-americanas passaram a ter preferência nas permissões de aterrissagem e os aviões de muitas organizações de ajuda humanitária tiveram que ser desviados para a República Dominicana. Para o ministro francês do Exterior, Bernard Kouchner, os EUA teriam "anexado" o aeroporto da capital haitiana, escreveu oSpiegel Online.

O site alemão comentou que o Brasil, que chefia a missão de paz da ONU na ilha caribenha, não estaria pensando em "desistir do controle sobre a ilha" e que, segundo o governo brasileiro, a reconstrução do Haiti deverá continuar sendo um projeto latino-americano.

Para o Spiegel Online, no entanto, diferentemente de 1994, quando os EUA marcharam no Haiti com 20 mil soldados e restituíram o então presidente deposto Jean Bertrand Aristide, desta vez, Barack Obama estaria se esforçando em evitar a impressão de uma ocupação. "Não temos a intenção de substituir a liderança haitiana", afirmou uma representante do Departamento de Estado norte-americano, citada pelo site alemão.

Brasileiros benquistos

Em outro artigo, publicado no Zeit Online na semana passada, o site lembrou que os EUA teriam um grande interesse estratégico no Haiti. A ilha se localiza somente a mil quilômetros de Miami e cerca de um milhão de haitianos vivem nos EUA.

Um colapso político e econômico total do Haiti poderia levar a uma violenta onda de refugiados, o que preocuparia o governo de Washington, que ainda luta contra as consequências da crise financeira.

Além disso, afirmou o Zeit Online, o Haiti se desenvolveu como ponto de conexão para o tráfico de drogas, sendo também uma importante peça na disputa regional de influência na América Latina. Opositores dos EUA já teriam enviado um sinal: o primeiro avião que pousou em Porto Príncipe após a catástrofe veio da Venezuela, lembra a página de internet do semanário Die Zeit, referindo-se a Hugo Chávez.

Para o Zeit Online, enquanto a França, antiga força colonial no Haiti, exerceria somente um papel cultural e simbólico, o Brasil ganhou boa reputação entre os haitianos como líder da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti). Sob a liderança brasileira, os capacetes azuis da ONU teriam conseguido conter bandos criminosos em bairros pobres, escreve o site.

Soldados norte-americanos levam suprimentos a vítimas do terremotoSoldados norte-americanos levam suprimentos a vítimas do terremoto












Expansão da Minustah

Para o professor Günther Maihold, vice-diretor do Instituto Alemão de Política Internacional e de Segurança (SWP), de Berlim, os problemas de coordenação da ajuda humanitária no local devem-se à falta de um governo capaz de agir. Segundo ele, isso estaria sendo usado pela mídia para levantar eventuais disputas hegemônicas.

O fato de se estar lidando agora com um país destruído é algo inusitado que levaria a situações novas para a comunidade internacional, opina Maihold. Ele acredita que os EUA estariam bem orientados pela ONU para evitar o que o presidente venezuelano, Hugo Chavez, chamou de "militarização do Caribe".

Maihold reiterou a importância da ajuda à população haitiana para os norte-americanos, como forma de evitar uma onda migratória para a Flórida. Para o especialista do SWP, a expansão da missão de paz da ONU definirá o futuro do Haiti.

Com 1.166 soldados na ilha, o Brasil lidera desde 2004 a missão de paz da ONU no Haiti. Segundo o setor de Comunicação Social do Exército brasileiro, esse número foi estabelecido em acordo entre o governo do Brasil, do Haiti e as Nações Unidas.

Autor: Carlos Albuquerque

Revisão: Roselaine Wandscheer

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Haiti e a democracia

Folha de São Paulo, terça-feira, 19 de janeiro de 2010




O Brasil deve defender a democracia no Haiti
MARK WEISBROT


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Os EUA, ao lado de Canadá e a França, conspiraram abertamente durante quatro anos para derrubar o governo eleito do Haiti
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MUITO TEMPO antes do terremoto, a situação do Haiti já era comparável à de muitos sem-teto nas ruas de grandes cidades dos EUA: pobres demais e negros demais para ter os mesmos direitos concretos que outros cidadãos.
Em 2002, quando um golpe militar que teve o apoio dos EUA afastou temporariamente o governo eleito da Venezuela, a maioria dos governos no hemisfério reagiu rapidamente e ajudou a forçar o retorno do governo democrático. Mas, dois anos mais tarde, quando o presidente haitiano democraticamente eleito, Jean-Bertrand Aristide, foi sequestrado pelos Estados Unidos e levado de avião para o exílio na África, a reação foi fraca.
Diferentemente dos dois séculos de saque e pilhagem do Haiti desde sua fundação graças a uma revolta de escravos em 1804, da ocupação brutal por fuzileiros navais dos EUA entre 1915 e 1934 e das incontáveis atrocidades cometidas sob ditaduras auxiliadas e apoiadas por Washington, o golpe de 2004 não pode ser relegado ao esquecimento, visto como nada mais que "história antiga". Aconteceu há apenas seis anos e é diretamente relacionado ao esforço de ajuda e reconstrução que o presidente Obama está propondo agora.
Os Estados Unidos, ao lado de Canadá e a França, conspiraram abertamente durante quatro anos para derrubar o governo eleito do Haiti, cortando quase toda a ajuda internacional ao país com o objetivo de destruir sua economia e torná-lo ingovernável. Eles conseguiram.
Para aqueles que se indagam por que não existem instituições governamentais haitianas para ajudar com os esforços de socorro e ajuda às vítimas do terremoto, essa é uma das grandes razões. Ou o porquê de haver 3 milhões de pessoas amontoadas na área atingida pelo terremoto.
A política dos EUA ao longo dos anos também ajudou a destruir a agricultura haitiana, por exemplo, ao forçar a importação de arroz americano subsidiado e eliminar milhares de plantadores de arroz haitianos.
O primeiro governo democrático de Aristide foi derrubado após apenas sete meses, em 1991, por oficiais militares e esquadrões da morte que, mais tarde, se descobriu estarem a soldo da Agência Central de Inteligência dos EUA. Agora Aristide quer retornar a seu país, algo que a maioria dos haitianos reivindica desde sua derrubada.
Mas os EUA não o querem ali. E o governo Preval, que é completamente dependente de Washington, decidiu que o partido de Aristide -o maior do Haiti- não será autorizado a concorrer nas próximas eleições (previstas originalmente para fevereiro).
O medo que Washington tem da democracia no Haiti talvez explique o porquê de os Estados Unidos agora estarem enviando 10 mil soldados e priorizando a "segurança", em lugar das necessidades de vida ou morte dos milhares de pessoas que precisam de atendimento médico urgente.
Na manhã de domingo, o mundialmente renomado grupo humanitário Médicos Sem Fronteiras queixou-se que um avião transportando sua unidade hospitalar móvel foi obrigado pelos militares americanos a mudar de rota, passando primeiramente pela República Dominicana. Isso custaria 24 horas cruciais e um número desconhecido de vidas.
Essa ocupação militar por tropas dos EUA vai suscitar outras preocupações no hemisfério, dependendo de quanto tempo elas permanecerem -assim modo como a ampliação recente da presença militar dos Estados Unidos na Colômbia vem sendo recebida com insatisfação e desconfiança consideráveis.
Organizações não governamentais vêm levantando outras questões sobre a reconstrução proposta: compreensivelmente, querem que a dívida remanescente do Haiti seja cancelada e que sejam feitas doações ao país, e não empréstimos (o FMI propôs um empréstimo de US$ 100 milhões). As necessidades da reconstrução chegarão a bilhões de dólares.
Será que Washington vai incentivar o estabelecimento de um governo que funcione? Ou vai impedi-lo, canalizando a assistência por meio de ONGs e assumindo ele próprio várias outras funções, devido a sua oposição de longa data à autonomia do Haiti?
O Brasil não segue a linha de Washington na América do Sul nem, mais recentemente, o fez em Honduras, "quintal" dos Estados Unidos -onde o governo brasileiro defendeu em vão a restauração da democracia após o golpe de 28 de junho, e a administração Obama, não.
Por que não defender a democracia também para o Haiti, mesmo que Washington seja contra?



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MARK WEISBROT, doutor em economia pela Universidade de Michigan, é codiretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington ( www.cepr.net ). Tradução de Clara Allain .

domingo, 17 de janeiro de 2010

Edgar Morin - Metamorfose

Metamorse El Pais 17 de janeiro de 2010
Cuando un sistema es incapaz de resolver sus problemas vitales por sí mismo, se degrada, se desintegra, a no ser que esté en condiciones de originar un metasistema capaz de hacerlo y, entonces, se metamorfosea. El sistema Tierra es incapaz de organizarse para tratar sus problemas vitales: el peligro nuclear, agravado por la diseminación y, tal vez, privatización del arma atómica; la degradación de la biosfera; una economía mundial carente de verdadera regulación; el retorno de las hambrunas; los conflictos étnico-político-religiosos que tienden a degenerar en guerras de civilización... La ampliación y aceleración de todos esos procesos pueden considerarse el desencadenante de un formidable feed-back negativo, capaz de desintegrar irremediablemente un sistema.

Una conciencia de que la Tierra es la patria común no es contraria al vigor de las colectividades locales
Lo probable es la desintegración. Lo improbable, aunque posible, la metamorfosis. ¿Qué es una metamorfosis? El reino animal aporta ejemplos. La oruga que se encierra en una crisálida comienza así un proceso de autodestrucción y autorreconstrucción al mismo tiempo, adopta la organización y la forma de la mariposa, distinta a la de la oruga, pero sigue siendo ella misma. El nacimiento de la vida puede concebirse como la metamorfosis de una organización físico-química que, alcanzado un punto de saturación, crea una metaorganización viviente, la cual, aun con los mismos constituyentes físico-químicos, produce cualidades nuevas.

La formación de las sociedades históricas, en Oriente Medio, India, China, México o Perú, constituye una metamorfosis a partir de un conglomerado de sociedades arcaicas de cazadores-recolectores que produjo las ciudades, el Estado, las clases sociales, la especialización del trabajo, las religiones, la arquitectura, las artes, la literatura, la filosofía... Y también cosas mucho peores, como la guerra y la esclavitud.

A partir del siglo XXI, se plantea el problema de la metamorfosis de las sociedades históricas en una sociedad-mundo de un tipo nuevo, que englobaría a los Estados-nación sin suprimirlos. Pues la continuación de la historia, es decir, de las guerras, por unos Estados con armas de destrucción masiva conduce a la cuasi-destrucción de la humanidad.

La idea de metamorfosis, más rica que la de revolución, contiene la radicalidad transformadora de ésta, pero vinculada a la conservación (de la vida o de la herencia de las culturas). ¿Cómo cambiar de vía para ir hacia la metamorfosis? Aunque parece posible corregir ciertos males, es imposible frenar la oleada técnico-científico-económico-civilizatoria que conduce al planeta al desastre. Y sin embargo, la historia humana ha cambiado de vía a menudo. Todo comienza siempre con una innovación, un nuevo mensaje rupturista, marginal, modesto, a menudo invisible para sus contemporáneos. Así comenzaron las grandes religiones: budismo, cristianismo, islam. El capitalismo se desarrolló parasitando a las sociedades feudales para alzar el vuelo y desintegrarlas.

La ciencia moderna se formó a partir de algunas mentes rupturistas dispersas, como Galileo, Bacon o Descartes; luego, creó sus redes y sus asociaciones; en el siglo XIX, se introdujo en las universidades y, en el XX, en las economías de los Estados, para convertirse en uno de los cuatro poderosos motores del bajel espacial llamado Tierra. El socialismo nació en algunas mentes autodidactas y marginalizadas del siglo XIX, para convertirse en una formidable fuerza histórica en el XX. Hoy, hay que volver a pensarlo todo. Hay que comenzar de nuevo.

De hecho, todo ha recomenzado, pero sin que nos hayamos dado cuenta. Estamos en los comienzos, modestos, invisibles, marginales, dispersos. Pues ya existe, en todos los continentes, una efervescencia creativa, una multitud de iniciativas locales en el sentido de la regeneración económica, social, política, cognitiva, educativa, étnica, o de la reforma de vida.

Estas iniciativas no se conocen unas a otras; ninguna Administración las enumera, ningún partido se da por enterado. Pero son el vivero del futuro. Se trata de reconocerlas, de censarlas, de compararlas, de catalogarlas y de conjugarlas en una pluralidad de caminos reformadores. Son estas vías múltiples las que, al desarrollarse conjuntamente, se conjugarán para formar la vía nueva que podría conducirnos hacia la todavía invisible e inconcebible metamorfosis. Para elaborar las vías que confluirán en la Vía, tenemos que deshacernos de las alternativas reductoras a las que nos obliga el mundo de conocimiento y pensamiento hegemónico. Así es necesario, al mismo tiempo, mundializar y desmundializar, crecer y decrecer, desplegar y replegar.

La orientación mundialización-desmundialización significa que, si bien hay que multiplicar los procesos de comunicación y "planetarización" culturales, si bien necesitamos que se constituya una conciencia de "Tierra-patria", también hay que promover, de manera desmundializadora, la alimentación de proximidad, los artesanos de proximidad, los comercios de proximidad, las huertas periurbanas, las comunidades locales y regionales.

La orientación crecimiento-decrecimiento significa que hay que potenciar los servicios, las energías verdes, los transportes públicos, la economía plural -y por tanto la economía social y solidaria-, las disposiciones para la humanización de las megalópolis, las agriculturas y ganaderías biológicas, y reducir los excesos consumistas, la comida industrializada, la producción de objetos desechables y no reparables, el tráfico de automóviles y de camiones en beneficio del ferrocarril.

La orientación despliegue-repliegue significa que el objetivo ya no es fundamentalmente el desarrollo de los bienes materiales, la eficacia, la rentabilidad y lo calculable, sino el retorno de cada uno a sus necesidades interiores, el gran regreso a la vida interior y a la primacía de la comprensión del prójimo, el amor y la amistad.

Ya no basta con denunciar, hace falta enunciar. No basta con recordar la urgencia, hay que comenzar a definir las vías que conducen a la Vía. ¿Hay razones para la esperanza? Podemos formular cinco:

1. El surgimiento de lo improbable. La victoriosa resistencia, en dos ocasiones, de la pequeña Atenas frente al poderío persa era altamente improbable, pero permitió el nacimiento de la democracia y la filosofía. También fue inesperado el frenazo de la ofensiva alemana ante Moscú, en el otoño de 1941, e improbable la contraofensiva victoriosa de Zhúkov, iniciada el 5 de diciembre, que vendría seguida, el 8, por el ataque de Pearl Harbour y la entrada de Estados Unidos en la guerra.

2. Las virtudes generadoras-creadoras inherentes a la humanidad. Al igual que en todo organismo humano adulto existen células madre dotadas de aptitudes polivalentes (totipotentes) propias de las células embrionarias, pero desactivadas, en todo ser humano, y en toda sociedad humana, existen virtudes regeneradoras, generadoras y creadoras durmientes o inhibidas.

3. Las virtudes de la crisis. Al tiempo que las fuerzas regresivas o desintegradoras, las generadoras y creadoras despiertan en la crisis planetaria de la humanidad.

4. Las virtudes del peligro. "Allá donde crece el peligro, crece también lo que nos salva". La dicha suprema es inseparable del riesgo supremo.

5. La aspiración multimilenaria de la humanidad hacia la armonía (paraíso, luego utopías, después ideologías libertaria/socialista/comunista, más tarde aspiraciones y revueltas juveniles de los años sesenta). Esta aspiración renace en el hervidero de iniciativas múltiples y dispersas que podrán alimentar las vías reformadoras destinadas a confluir en la vía nueva.

Las viejas generaciones están desengañadas de tantas falsas esperanzas. A las jóvenes les entristece que no haya una causa común como la de nuestra resistencia durante la II Guerra Mundial. Pero nuestra causa llevaba en sí misma su contrario. Como decía Vassili Grossman de Estalingrado, la mayor victoria de la humanidad fue también su mayor derrota, puesto que el totalismo estalinista salió victorioso de ella. Hoy, la causa es inequívoca, sublime: se trata de salvar a la humanidad.

La verdadera esperanza sabe que no es certeza. Es una esperanza no en el mejor de los mundos, sino en un mundo mejor. "El origen está delante de nosotros", decía Heidegger. La metamorfosis sería, efectivamente, un nuevo origen.

Breve solidariedade

Texto do Caderno mais da Folha de São Paulo de 17/01/2010

Breve solidariedade

Comoção mundial provocada pelo terremoto no Haiti, na terça, não irá se transformar em programa político para tirar o país da miséria

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI
COLUNISTA DA FOLHA

Há comportamentos humanos que nos lavam a alma. Um dos mais belos é a solidariedade. Ficamos comovidos quando as pessoas se mobilizam para ajudar o próximo, ou melhor, fazer do outro um próximo, alguém com o qual compartilhamos nosso destino.
Quanto maior a tragédia, quase sempre maior é a reação solidária. O terremoto que destruiu o Haiti desde logo mobilizou todo mundo e ficamos orgulhosos de nossas tropas lá estacionadas. Esquecemo-nos de que a missão tem um cunho político e nos demoramos nos elogios de sua bravura.
O retrato de cada perda foi desenhado, cada soldado morto foi enaltecido e a grandeza dos trabalhos da Pastoral da Criança foi divulgada aos quatro ventos. Todos nos irmanamos num mesmo sentimento. Alguns escritores mais politizados lembraram as mazelas de uma nação que nasceu de uma revolta de escravos, mas que, talvez por isso mesmo, tenha sido neutralizada, coibida no seu desenvolvimento, para que não servisse de exemplo para a América Latina.
No Brasil escravocrata, muitos temeram que uma maioria de escravos pudesse, num golpe violento, se liberar de seus ferros. Mas no momento da grande catástrofe natural tudo isso se olvida. Vale a reafirmação de nossa humanidade, de nossa espiritualidade.
Não somos como as placas tectônicas que se chocam sem levar em conta os estragos na vida daqueles que vivem sobre elas. Não somos como os outros seres vivos que se entredevoram, com as raras exceções daquelas espécies que entram em simbiose ou daqueles animais que, pelo menos, caçam conjuntamente.
Abrimo-nos para estarmos juntos e nos abrimos para irmos além de nós mesmos, para a transcendência.

Vingança da natureza
A presença da morte nos une por laços que vão além daqueles já institucionalizados. Nem sempre essa presença nos articula, em geral tratamos de esquecê-la, como se não passasse de um acidente inesperado. Se o homem é aquele ser que fala e sabe que morre, também aprendeu a dizer sem falar e a morrer sem saber. A morte no hospital quase sempre não se transforma num incidente de uma biografia que haveria de durar para sempre?
Quando a natureza interrompe essas fronteiras pacificadoras -o terremoto, o tsunami, a erupção vulcânica e outros horrores-, é como se ela se vingasse. É como se o lado negro do espírito acuasse seu lado luminoso.
Nas guerras das estrelas, esse conflito não comparece como se desdobrasse duas forças, de tal modo transformadas pela técnica que se resolvem numa luta entre o espírito do mal contra o espírito do bem?
A noção de espírito anda meio desmoralizada entre os filósofos profissionais. É quase impossível depurá-la de seu ranço romântico, da exaltação a que foi submetida pelos idealistas alemães, como Hegel e Schelling. Este, no início do século 19, teve enorme sucesso pregando que a natureza, no fundo, seguia os caminhos traçados pelo espírito. Hegel o define como a ideia efetiva que se sabe para si mesma. Um saber que junta o teórico e o prático e que, por isso mesmo, pratica a verdade da natureza, mostra que essa natureza é apenas a passagem de uma verdade superior.

Crise ambiental
O terremoto de Lisboa, de 1755, foi sempre uma pedra no sapato desses otimistas. Igualmente, a crise ambiental em nosso século mostra os limites físicos muito palpáveis de um capital que se apresentou como espírito puro. Seja como for, há momentos na história em que as pessoas se tomam como cidadãos de um mundo do espírito, tecendo entre si fortes laços de solidariedade.
Essa trama admirável, porém, dura pouco, a não ser que se institucionalize como "Pastoral da Criança", "Comunidade Solidária" e tantos outros institutos. No entanto cabe perguntar: como uma instituição pode se manter solidária quando só pode subsistir enfrentando a rotina e os percalços da burocratização?
Às vezes se costuma afirmar que no maior perigo se encontra a salvação. Que não se faça desse enunciado uma fórmula, mas me parece que existe uma atividade humana que entremeia o maior perigo com a semente da salvação. Não é ela a política? Muito diferente, por certo, da atividade cotidiana do político, chata e repetitiva, que, particularmente no Brasil, dificilmente escapa da corrupção. Mas aquelas ações refundadoras do Estado, instauradoras do novo e que, por isso mesmo, escapam de qualquer análise científica.
Nunca me canso de citar o pensamento de Maquiavel afirmando que o estadista pode perder sua alma para salvar o Estado. Há momentos em que alguns homens abrem o espaço onde se tecem novas formas de sociabilidade.
O marquês de Pombal reconstruindo Lisboa. Robespierre levando o terror ao limite e, assim, criando um paradigma da destruição da própria política. Abraham Lincoln conferindo nova unidade aos EUA. Até que ponto o nosso Getúlio Vargas não criou igualmente um novo Estado brasileiro a despeito dos desastres do Estado Novo?
A política, no seu limite, é uma guerra das estrelas desdobrando-se nas fronteiras da Terra. O desastre do Haiti nos mostra a possibilidade de uma solidariedade capaz de capturar toda a população da América Latina.

Rotina de pobreza
Mas não vejo nela muitas forças capazes de transformar essa solidariedade numa política. Da mesma forma que estamos passando por uma grande crise sem aproveitar as chances de cortar certas raízes da desordem capitalista, tudo indica que, depois da tempestade, o Haiti voltará à sua rotina de miséria, como tantos outros povos do globo.
E os políticos muito seguros voltarão a se ocupar de suas almas -ou melhor, da alma de suas finanças. Tristes tempos.