Folha de São Paulo, terça-feira, 21 de setembro de 2010
ENTREVISTA
MANUEL CASTELLS
Se um país não quer mudar, não é a rede que irá mudá-lo
SOCIÓLOGO, QUE VÊ A INTERNET COMO AMPLIFICAÇÃO DA SOCIEDADE, DIZ QUE NO CASO DO BRASIL NÃO HÁ QUALQUER DESEJO DE MUDANÇA
ALEC DUARTE
EDITOR-ADJUNTO DE PODER
Quem esperava que a internet fosse revolucionar o processo eleitoral brasileiro se decepcionou com o tímido papel que a rede exibe na campanha. O sociólogo espanhol Manuel Castells, porém, não se surpreendeu com isso.
Um dos mais relevantes pesquisadores da web, Castells esteve no Brasil a convite do recém-inaugurado Centro Ruth Cardoso e achou normal a ausência da esperada revolução nas eleições.
"Quando há estabilidade, não se pode esperar que a internet produza uma mudança que as pessoas não querem", disse à Folha. Leia trechos da entrevista.
Por que a internet amedronta o poder político?
Manuel Castells - Porque o poder sempre esteve baseado no controle e, às vezes, na manipulação da informação.
O grau de autonomia das pessoas para se comunicar, informar e organizar suas próprias redes de sociabilidade é muito mais potente com a internet. Ela é a construção da autonomia da sociedade civil. Os governos sempre tiveram horror a isso.
A internet é incontrolável, mas os governos sempre tentam exercer algum controle. Não é um trabalho em vão?
Por mais que queiram controlar, não podem controlar. Nem a China pode controlar.
Isso mostra a desconfiança dos governos e dos políticos com respeito a seus próprios cidadãos. Não lhes agrada que se organizem e que sejam autônomos. Aos políticos só interessa o poder.
A única maneira de controlar a internet é desconectá-la totalmente. E isso hoje em dia é um preço que nenhum país pode pagar porque, além de livre expressão, a rede é educação, economia, negócios... é a eletricidade de nossa sociedade.
É impossível para um governo, hoje, não tentar recorrer a esse tipo de expediente?
Os governos tiveram que entrar nesse mesmo espaço de comunicação. Antes, não havia debate, havia monopólio. Isso acabou. O fato de que um governo ou grandes empresas tenham que fazer blogs como a gente nivelou relativamente o espaço da comunicação em que se enfrentam interesses distintos.
O avanço tecnológico permitiu também que os cidadãos vigiem os governantes...
Os poderosos vigiavam os demais porque tinham os meios e a capacidade de fazê-lo. Mas agora as pessoas também podem vigiar os poderosos. Qualquer jovem com um celular, se vê uma personalidade política fazendo algo inconveniente, pode imediatamente difundir a cena. Hoje os poderosos têm que se esconder, sua vida é mais transparente, mas não há um controle, apenas vigilância.
A vida em rede mudou o comportamento dos governos?
Ainda não totalmente, mas o poder político sabe que não pode mentir nem manipular sem ter cuidado ao fazê-lo. Quando as pessoas descobrem, o choque é muito potente. Foi o que ocorreu na Espanha, em 2004, quando o governo de [José María] Aznar mentiu sobre a autoria do atentado terrorista em Madri. As pessoas ficaram indignadas porque Aznar disse que autoria era do [grupo separatista que atua na Espanha] ETA, quando se tratava da Al Qaeda.
Houve controle da informação e manipulação. A descoberta da verdade, na véspera da eleição, foi compartilhada por SMS e levou milhões de jovens às urnas. Isso mudou o resultado da eleição [o socialista José Luis Zapatero venceu Aznar].
Outro exemplo ocorreu no Irã, em 2009, quando houve manifestações contra a reeleição de [Mahmoud] Ahmadinejad. Mesmo num país com controle total da informação, a capacidade de mobilização, sobretudo pelo Twitter, foi fundamental.
Isso também aconteceu na deposição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, quando a internet foi invadida por hashtags de apoio à volta do mandatário, assim como o Twitter ostentou avatares verdes no episódio iraniano. Mas Ahmadinejad segue no poder, e Zelaya jamais foi reconduzido ao cargo. Falando em realpolitik, como essas mobilizações virtuais chegam ao âmbito do real?
As mudanças fundamentais na sociedade são as que se produzem na mente das pessoas. É aí que surge a mudança: quando as pessoas mudam sua forma de pensar e, portanto, de atuar.
As ideias não passam necessariamente pela mudança política, mas sim pelas mudanças que os governos têm de implementar em função da pressão da sociedade.
Hoje quase não há discussão política na internet brasileira, apenas torcidas trocando provocações. E essas discussões não extrapolam a própria rede. O fato de a web não possuir no país uma penetração grande afeta diretamente a repercussão fora dela?
Para que se manifestem fenômenos de utilização da rede nas mudanças de consciência e de informação das pessoas, é preciso haver antes de mais nada rede em condições e que também exista interesse das pessoas num sistema político.
No caso específico do Brasil, qual a sua percepção?
O Brasil segue uma dinâmica assistencialista em que da política se esperam subsídios e favores, mais do que políticas. A situação econômica do país melhorou consideravelmente. O que mudou a política aqui é que os dois últimos presidentes, FHC e Lula, eram influentes e controlavam seus partidos muito mais do que eram controlados por ele. Duvido que o país continue a ter essa boa sorte, qualquer que seja o resultado das eleições.
A renovação do sistema político exige que as pessoas queiram uma mudança, e isso normalmente ocorre quando existem crises. A internet serve para amplificar e articular os movimentos autônomos da sociedade. Ora, se essa sociedade não quer mudar, a internet servirá para que não mude.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Missão pode gerar neocolonialismo
Folha de São Paulo, segunda-feira, 20 de setembro de 2010
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Missão pode gerar neocolonialismo, diz especialista
DE SÃO PAULO
A proliferação das missões de paz das Nações Unidas protagonizadas por países em desenvolvimento pode dar origem a situações de neocolonialismo, na opinião do professor Matias Spektor, coordenador do Centro de Estudos sobre Relações Internacionais da FGV-Rio.
Porém, segundo ele, isso não significa que as missões não devam ser realizadas.
Nos últimos nove anos, o número de tropas internacionais em missões de paz subiu de 47 mil para os atuais 100 mil, divididas em 16 missões.
Segundo ele, as missões de hoje são diferentes daquelas realizadas na década de 90 na medida em que a ONU exerce cada vez mais poder sobre as nações onde realiza suas operações.
"Há especialistas que acreditam que a missão do Timor Leste, na qual o [brasileiro] Sérgio Vieira de Mello [1948-2003] exerceu o cargo de administrador de transição, era uma forma de neoprotetorado, em que a autoridade política estabelecida pela ONU terminava determinando a maneira de governar a vida de um país", explica.
Segundo Spektor, esse risco inerente das missões de paz está presente também no caso do Haiti.
"Mas isso não quer dizer que não se deva fazer essas intervenções, só é preciso ficar atento para que elas não escondam novas formas de colonialismo", diz.
LÍBANO
O Brasil participa de missões de paz das Nações Unidas desde 1947 e já esteve em Suez, Angola, Moçambique, República Dominicana e em países do Oriente Médio, entre outros lugares do mundo.
Os planos futuros do governo brasileiro envolviam uma retirada gradual de tropas do Haiti a partir do ano que vem e negociações para o envio de militares para a Unifil, a missão de paz no Líbano -devido ao foco da política externa brasileira no Oriente Médio.
Porém, com o terremoto de 12 de janeiro, que devastou o país, o compromisso de presença das tropas brasileiras no Haiti deve ser estendido.
O novo prazo para a saída do Haiti ainda não está definido, mas, segundo diplomatas brasileiros envolvidos com o assunto, as negociações para a ida ao Líbano não foram paralisadas. (LK)
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Missão pode gerar neocolonialismo, diz especialista
DE SÃO PAULO
A proliferação das missões de paz das Nações Unidas protagonizadas por países em desenvolvimento pode dar origem a situações de neocolonialismo, na opinião do professor Matias Spektor, coordenador do Centro de Estudos sobre Relações Internacionais da FGV-Rio.
Porém, segundo ele, isso não significa que as missões não devam ser realizadas.
Nos últimos nove anos, o número de tropas internacionais em missões de paz subiu de 47 mil para os atuais 100 mil, divididas em 16 missões.
Segundo ele, as missões de hoje são diferentes daquelas realizadas na década de 90 na medida em que a ONU exerce cada vez mais poder sobre as nações onde realiza suas operações.
"Há especialistas que acreditam que a missão do Timor Leste, na qual o [brasileiro] Sérgio Vieira de Mello [1948-2003] exerceu o cargo de administrador de transição, era uma forma de neoprotetorado, em que a autoridade política estabelecida pela ONU terminava determinando a maneira de governar a vida de um país", explica.
Segundo Spektor, esse risco inerente das missões de paz está presente também no caso do Haiti.
"Mas isso não quer dizer que não se deva fazer essas intervenções, só é preciso ficar atento para que elas não escondam novas formas de colonialismo", diz.
LÍBANO
O Brasil participa de missões de paz das Nações Unidas desde 1947 e já esteve em Suez, Angola, Moçambique, República Dominicana e em países do Oriente Médio, entre outros lugares do mundo.
Os planos futuros do governo brasileiro envolviam uma retirada gradual de tropas do Haiti a partir do ano que vem e negociações para o envio de militares para a Unifil, a missão de paz no Líbano -devido ao foco da política externa brasileira no Oriente Médio.
Porém, com o terremoto de 12 de janeiro, que devastou o país, o compromisso de presença das tropas brasileiras no Haiti deve ser estendido.
O novo prazo para a saída do Haiti ainda não está definido, mas, segundo diplomatas brasileiros envolvidos com o assunto, as negociações para a ida ao Líbano não foram paralisadas. (LK)
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Harvard
FORMOU MAIS DE 320 MIL PESSOAS ESPALHADAS POR 191 PAÍSES
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GUSTAVO ROMANO
ESPECIAL PARA A FOLHA 16 de setembro de 2010
"Vocês só estão aqui porque foram os melhores de onde quer que vocês vieram. Mas não se esqueçam: aqui, vocês são todos iguais. E isso vai deprimi-los."
Foi brincando assim que o reitor nos recepcionou no primeiro dia de aula em 2000. Éramos 150 alunos de mestrado vindos de 60 países. Na minha mesa, havia o filho de um juiz da Suprema Corte indiana, o filho de um dos homens mais ricos da Arábia Saudita, um sul-africano preso 32 vezes durante o apartheid e um alemão que depois foi fazer dois doutorados simultaneamente. Aqueles dois minutos foram uma boa aula do que é estudar em Harvard.
Primeira lição: você está em uma máquina de ensinar bem azeitada que já formou mais de 320 mil pessoas espalhadas por 191 países.
Fundada em 1817, a faculdade é a escola de direito mais antiga dos EUA. Lá se formaram seis dos atuais nove juízes da Suprema Corte norte-americana, além de outros tantos procuradores-gerais e presidentes, incluindo Obama e Kennedy.
Em Harvard, você é apenas um grão de areia em boa companhia.
INFERIORIDADE
Segunda lição: você vai estudar com pessoas muito mais inteligentes que você -e isso é uma situação inédita para a maioria. Para compensar esse recém-adquirido sentimento de inferioridade, você acaba estudando o tempo todo. São mais de 260 matérias eletivas com alguns dos maiores juristas do mundo. Com 16 milhões de livros espalhados por 70 prédios, as bibliotecas vivem lotadas.
Terceira lição: apesar da competição, em um ambiente tão intenso você cria relações de amizade que perduram para o resto da vida. No futuro, esses amigos acabam se tornando sua rede de contatos profissionais.
Quarta lição: Harvard atrai pessoas bem conectadas, mas só conexão não basta. Como cartas de recomendação são um critério importante para a admissão, ser filho de um ministro ou dono de uma multinacional ajuda, mas o verdadeiro critério de admissão é saber o que você fez com as oportunidades que teve. Em Harvard a moeda corrente são suas notas. Pouco importa seu pedigree.
Última lição: ninguém se leva muito a sério. Ao contrário do estereótipo, os estudantes e professores estão sempre brincando. Talvez para aliviar a tensão, talvez por saberem que tiveram uma oportunidade única.
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GUSTAVO ROMANO
ESPECIAL PARA A FOLHA 16 de setembro de 2010
"Vocês só estão aqui porque foram os melhores de onde quer que vocês vieram. Mas não se esqueçam: aqui, vocês são todos iguais. E isso vai deprimi-los."
Foi brincando assim que o reitor nos recepcionou no primeiro dia de aula em 2000. Éramos 150 alunos de mestrado vindos de 60 países. Na minha mesa, havia o filho de um juiz da Suprema Corte indiana, o filho de um dos homens mais ricos da Arábia Saudita, um sul-africano preso 32 vezes durante o apartheid e um alemão que depois foi fazer dois doutorados simultaneamente. Aqueles dois minutos foram uma boa aula do que é estudar em Harvard.
Primeira lição: você está em uma máquina de ensinar bem azeitada que já formou mais de 320 mil pessoas espalhadas por 191 países.
Fundada em 1817, a faculdade é a escola de direito mais antiga dos EUA. Lá se formaram seis dos atuais nove juízes da Suprema Corte norte-americana, além de outros tantos procuradores-gerais e presidentes, incluindo Obama e Kennedy.
Em Harvard, você é apenas um grão de areia em boa companhia.
INFERIORIDADE
Segunda lição: você vai estudar com pessoas muito mais inteligentes que você -e isso é uma situação inédita para a maioria. Para compensar esse recém-adquirido sentimento de inferioridade, você acaba estudando o tempo todo. São mais de 260 matérias eletivas com alguns dos maiores juristas do mundo. Com 16 milhões de livros espalhados por 70 prédios, as bibliotecas vivem lotadas.
Terceira lição: apesar da competição, em um ambiente tão intenso você cria relações de amizade que perduram para o resto da vida. No futuro, esses amigos acabam se tornando sua rede de contatos profissionais.
Quarta lição: Harvard atrai pessoas bem conectadas, mas só conexão não basta. Como cartas de recomendação são um critério importante para a admissão, ser filho de um ministro ou dono de uma multinacional ajuda, mas o verdadeiro critério de admissão é saber o que você fez com as oportunidades que teve. Em Harvard a moeda corrente são suas notas. Pouco importa seu pedigree.
Última lição: ninguém se leva muito a sério. Ao contrário do estereótipo, os estudantes e professores estão sempre brincando. Talvez para aliviar a tensão, talvez por saberem que tiveram uma oportunidade única.
Melhores universidades do mundo
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HARVARD É A MAIS BEM AVALIADA, REVELA RANKING DA BRITÂNICA TIMES HIGHER EDUCATION QUE A FOLHA PUBLICA COM EXCLUSIVIDADE
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Com 29, Reino Unido é 2º; China, com 6, bate Japão na Ásia; América Latina não possui nenhuma instituição
MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO
Não é só mito, mas estatística: Harvard é a melhor universidade do mundo, os EUA, sozinhos, abrigam 15 das 20 melhores instituições de ensino do planeta, e é dinheiro, muito dinheiro, que move essa engrenagem.
Essas são algumas das conclusões do Ranking Mundial de Universidades 2010-11 da Times Higher Education, referência em ensino superior que a Folha publica com exclusividade no Brasil.
A crise financeira de 2008 parece não ter provocado estrago nos campi dos EUA. Entre as 200 instituições que figuram no ranking, mais de um terço é de norte-americanas (72).
A receita é simples, segundo Ann Mroz, editora da THE: "Os EUA investem 3,1% de seu Produto Interno Bruto em educação superior, enquanto os demais países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico investem 1,5%".
FORÇA ASIÁTICA
Em sua sétima edição, o ranking também revela a forte presença das asiáticas. Entre as 50 melhores, o continente possui sete -China (2), Hong Kong (2), Japão, Coreia do Sul e Cingapura- e, nessa faixa, já bate a Europa continental: Suíça (2), França (2), Alemanha e Suécia.
No entanto, se for incluído o Reino Unido, a balança pende para a Europa. A ilha detém quatro das 50 melhores universidades, três delas entre as dez primeiras (Cambridge, Oxford e Imperial College). Levando-se em conta o ranking completo, o Reino Unido (com 29) e Europa continental (com 51) disparam.
No total, as asiáticas somam 27 -China (6), Japão (5), Taiwan e Coreia do Sul (4 cada uma) são os destaques. Já as instituições dos países de língua inglesa, somadas, dominam 120 posições -ou 60% do ranking (Canadá -nove- e Austrália -sete- vêm em seguida). Na Europa continental, a surpresa foi a Alemanha.
Com 14 instituições, o motor econômico da região também lidera o ensino superior.
O país "investiu 18 bilhões em pesquisa nos últimos cinco anos", afirma Mroz. A França decepcionou: figura apenas em quinto.
NOVOS CRITÉRIOS
A versão 2010-11 do ranking da THE passou por ampla reformulação -a começar da compiladora dos dados, que é a Thomson Reuters. Mas a mudança mais radical, segundo Mroz, foi de metodologia: "Usamos hoje 13 indicadores, em vez dos seis usados anteriormente [...] e ouvimos 13.388 acadêmicos altamente qualificados, de todo o mundo".
O critério de reputação também teve seu peso reduzido. "Privilegiamos mais as evidências objetivas -e não as subjetivas
HARVARD É A MAIS BEM AVALIADA, REVELA RANKING DA BRITÂNICA TIMES HIGHER EDUCATION QUE A FOLHA PUBLICA COM EXCLUSIVIDADE
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Com 29, Reino Unido é 2º; China, com 6, bate Japão na Ásia; América Latina não possui nenhuma instituição
MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO
Não é só mito, mas estatística: Harvard é a melhor universidade do mundo, os EUA, sozinhos, abrigam 15 das 20 melhores instituições de ensino do planeta, e é dinheiro, muito dinheiro, que move essa engrenagem.
Essas são algumas das conclusões do Ranking Mundial de Universidades 2010-11 da Times Higher Education, referência em ensino superior que a Folha publica com exclusividade no Brasil.
A crise financeira de 2008 parece não ter provocado estrago nos campi dos EUA. Entre as 200 instituições que figuram no ranking, mais de um terço é de norte-americanas (72).
A receita é simples, segundo Ann Mroz, editora da THE: "Os EUA investem 3,1% de seu Produto Interno Bruto em educação superior, enquanto os demais países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico investem 1,5%".
FORÇA ASIÁTICA
Em sua sétima edição, o ranking também revela a forte presença das asiáticas. Entre as 50 melhores, o continente possui sete -China (2), Hong Kong (2), Japão, Coreia do Sul e Cingapura- e, nessa faixa, já bate a Europa continental: Suíça (2), França (2), Alemanha e Suécia.
No entanto, se for incluído o Reino Unido, a balança pende para a Europa. A ilha detém quatro das 50 melhores universidades, três delas entre as dez primeiras (Cambridge, Oxford e Imperial College). Levando-se em conta o ranking completo, o Reino Unido (com 29) e Europa continental (com 51) disparam.
No total, as asiáticas somam 27 -China (6), Japão (5), Taiwan e Coreia do Sul (4 cada uma) são os destaques. Já as instituições dos países de língua inglesa, somadas, dominam 120 posições -ou 60% do ranking (Canadá -nove- e Austrália -sete- vêm em seguida). Na Europa continental, a surpresa foi a Alemanha.
Com 14 instituições, o motor econômico da região também lidera o ensino superior.
O país "investiu 18 bilhões em pesquisa nos últimos cinco anos", afirma Mroz. A França decepcionou: figura apenas em quinto.
NOVOS CRITÉRIOS
A versão 2010-11 do ranking da THE passou por ampla reformulação -a começar da compiladora dos dados, que é a Thomson Reuters. Mas a mudança mais radical, segundo Mroz, foi de metodologia: "Usamos hoje 13 indicadores, em vez dos seis usados anteriormente [...] e ouvimos 13.388 acadêmicos altamente qualificados, de todo o mundo".
O critério de reputação também teve seu peso reduzido. "Privilegiamos mais as evidências objetivas -e não as subjetivas
O 15 de setembro de 2010
Valor Economico 15.09.2010
Por que o 15/9, a quebra do Lehman Brothers, mudou o mundo mais que o 11/9
Gideon Rachman | Financial Times
Os EUA comemoram dois aniversários amargos neste mês: 11/9 e 15/9. Passaram-se dez anos desde que aviões sequestrados se chocaram contra as torres gêmeas, matando quase 3 mil pessoas e transformando as relações do país com o mundo. Passaram-se dois anos desde que o colapso do Lehman Brothers desencadeou uma crise financeira global e gerou o temor de uma nova Grande Depressão.
Os dois incidentes aconteceram a poucos quilômetros de distância, em Manhattan. Cada um deles mudou o mundo profundamente. Mas, quando os livros de história forem escritos, qual será visto como o mais importante?
Meu palpite é que a crise financeira acabará parecendo mais relevante. Isso pode parecer uma opinião estranha. Para muitos americanos, o 11 de setembro marcou definitivamente o fim de uma era. Foi uma década de bons tempos e ostentação à la Gatsby, delimitada entre o colapso da União Soviética e o ataque aos EUA, que teve um fim terrível. Duas guerras, no Afeganistão e no Iraque, foram decorrência direta do 11 de setembro. Os EUA se lançaram numa luta contra o islamismo militante e na "guerra contra o terror" que continua até hoje.
Em contraste, os piores temores provocados pela quebra do Lehman Brothers não se concretizaram. Não houve uma nova Grande Depressão. A economia voltou a crescer. A globalização - a megatendência dos últimos 30 anos - não entrou em marcha à ré. De qualquer forma, acredito que a crise financeira acabará se revelando um ponto de inflexão maior, e não apenas em termos econômicos, mas também geopolíticos. Isso porque foi o 15 de setembro, e não o 11 de setembro, a data que realmente marcou o fim de um "momento unipolar".
Os ataques contra Nova York e Washington em 2001, mesmo terríveis como foram, não sacudiram o domínio dos EUA sobre o sistema econômico e político mundial. Ao contrário, levaram a uma reafirmação dramática do poder americano. Dois governos do outro lado do mundo foram derrubados em pouco tempo. Na esteira imediata das guerras contra o Iraque e Afeganistão, a Casa Branca de George W. Bush e seus defensores sentiram-se mais confiantes do que nunca quanto ao poder dos EUA. Charles Krauthammer, o colunista conservador que cunhou a expressão "o momento unipolar", recebeu a vitória no Iraque saudando um "mundo dominado por uma única superpotência não limitada por nenhum rival".
Em 2008, ficou claro que as vitórias militares iniciais no Iraque e no Afeganistão haviam dado lugar a algo bem mais frustrante e inconclusivo. Mas o poderio econômico dos EUA ainda parecia proporcionar uma base confiável para a posição política global do país.
A crise financeira mudou essa suposição, possivelmente para sempre. Após as consequências da crise, os EUA estão muito mais conscientes dos limites de seu próprio poder. O presidente dos EUA, Barack Obama, mesmo quando anunciou o envio de mais soldados ao Afeganistão, já procurava ressaltar: "Simplesmente não podemos nos permitir ignorar o preço dessas guerras". Cortes no setor de defesa estão por vir.
Os EUA não estão apenas mais conscientes dos limites de seu próprio poder. Também estão muito mais conscientes das forças de seus possíveis rivais. Nos primeiros meses da crise econômica, a visão convencional era de que o mundo deslizaria em uma retração econômica sincronizada. No entanto, a China e a Ásia emergente se recupe-raram com muito mais rapidez do que os EUA e o mundo ocidental.
A crise financeira fez os americanos perceberem que o "desafio da China" não é algo para o futuro distante; está ocorrendo aqui e agora. Embora ainda faltem 15 anos ou mais para a economia chinesa superar a dos EUA, em alguns aspectos importantes a China já se sobressai. Possui as maiores reservas internacionais do mundo. É o maior exportador do mundo. É o maior produtor de aço e gases causadores do efeito estufa. Possui o maior mercado de veículos a motor. É o maior parceiro comercial de outras economias emergentes importantes, como a Índia e o Brasil.
Por enquanto, os EUA continuam sendo a potência dominante, mesmo no "quintal" da China, no Pacífico. Mas nos próximos anos provavelmente surgirão contestações da China à hegemonia dos EUA no Pacífico. Essa nova percepção de rivalidade já aumenta as tensões entre EUA e China - basta ver os atuais esforços para aprovar leis protecionistas no Congresso.
As convulsões provocadas pelo 11 de setembro e pelo 15 de setembro revelaram tipos diferentes de desafios à potência americana.
A militância islâmica violenta ainda tem potencial para provocar danos enormes. Mas a ideia de que a grande tendência geopolítica dos próximos cem anos será a criação de um califado islâmico global é uma fantasia, mesmo que isso seja uma noção popular no Waziristão e nos programas de rádio americanos. É difícil imaginar uma filosofia que seja mais mal adaptada para lidar com a modernidade que o fundamentalismo de Osama bin Laden. Na verdade, uma consequência irônica do 11 de setembro é que pode ter persuadido os EUA a passar uma década vital despejando recursos para combater a ameaça errada.
Em contraste, parece inteiramente plausível que, assim como o século XX foi o século americano, o século XXI seja o século asiático. A transformação econômica que sustenta essa mudança de poder estava mais do que encaminhada antes da crise financeira mundial. A crise, porém, deverá ficar na história tanto como o momento que revelou como o que acelerou a erosão do domínio ocidental. É por isso que o 15 de setembro, no fim das contas, deverá importar mais que o 11 de setembro.
Por que o 15/9, a quebra do Lehman Brothers, mudou o mundo mais que o 11/9
Gideon Rachman | Financial Times
Os EUA comemoram dois aniversários amargos neste mês: 11/9 e 15/9. Passaram-se dez anos desde que aviões sequestrados se chocaram contra as torres gêmeas, matando quase 3 mil pessoas e transformando as relações do país com o mundo. Passaram-se dois anos desde que o colapso do Lehman Brothers desencadeou uma crise financeira global e gerou o temor de uma nova Grande Depressão.
Os dois incidentes aconteceram a poucos quilômetros de distância, em Manhattan. Cada um deles mudou o mundo profundamente. Mas, quando os livros de história forem escritos, qual será visto como o mais importante?
Meu palpite é que a crise financeira acabará parecendo mais relevante. Isso pode parecer uma opinião estranha. Para muitos americanos, o 11 de setembro marcou definitivamente o fim de uma era. Foi uma década de bons tempos e ostentação à la Gatsby, delimitada entre o colapso da União Soviética e o ataque aos EUA, que teve um fim terrível. Duas guerras, no Afeganistão e no Iraque, foram decorrência direta do 11 de setembro. Os EUA se lançaram numa luta contra o islamismo militante e na "guerra contra o terror" que continua até hoje.
Em contraste, os piores temores provocados pela quebra do Lehman Brothers não se concretizaram. Não houve uma nova Grande Depressão. A economia voltou a crescer. A globalização - a megatendência dos últimos 30 anos - não entrou em marcha à ré. De qualquer forma, acredito que a crise financeira acabará se revelando um ponto de inflexão maior, e não apenas em termos econômicos, mas também geopolíticos. Isso porque foi o 15 de setembro, e não o 11 de setembro, a data que realmente marcou o fim de um "momento unipolar".
Os ataques contra Nova York e Washington em 2001, mesmo terríveis como foram, não sacudiram o domínio dos EUA sobre o sistema econômico e político mundial. Ao contrário, levaram a uma reafirmação dramática do poder americano. Dois governos do outro lado do mundo foram derrubados em pouco tempo. Na esteira imediata das guerras contra o Iraque e Afeganistão, a Casa Branca de George W. Bush e seus defensores sentiram-se mais confiantes do que nunca quanto ao poder dos EUA. Charles Krauthammer, o colunista conservador que cunhou a expressão "o momento unipolar", recebeu a vitória no Iraque saudando um "mundo dominado por uma única superpotência não limitada por nenhum rival".
Em 2008, ficou claro que as vitórias militares iniciais no Iraque e no Afeganistão haviam dado lugar a algo bem mais frustrante e inconclusivo. Mas o poderio econômico dos EUA ainda parecia proporcionar uma base confiável para a posição política global do país.
A crise financeira mudou essa suposição, possivelmente para sempre. Após as consequências da crise, os EUA estão muito mais conscientes dos limites de seu próprio poder. O presidente dos EUA, Barack Obama, mesmo quando anunciou o envio de mais soldados ao Afeganistão, já procurava ressaltar: "Simplesmente não podemos nos permitir ignorar o preço dessas guerras". Cortes no setor de defesa estão por vir.
Os EUA não estão apenas mais conscientes dos limites de seu próprio poder. Também estão muito mais conscientes das forças de seus possíveis rivais. Nos primeiros meses da crise econômica, a visão convencional era de que o mundo deslizaria em uma retração econômica sincronizada. No entanto, a China e a Ásia emergente se recupe-raram com muito mais rapidez do que os EUA e o mundo ocidental.
A crise financeira fez os americanos perceberem que o "desafio da China" não é algo para o futuro distante; está ocorrendo aqui e agora. Embora ainda faltem 15 anos ou mais para a economia chinesa superar a dos EUA, em alguns aspectos importantes a China já se sobressai. Possui as maiores reservas internacionais do mundo. É o maior exportador do mundo. É o maior produtor de aço e gases causadores do efeito estufa. Possui o maior mercado de veículos a motor. É o maior parceiro comercial de outras economias emergentes importantes, como a Índia e o Brasil.
Por enquanto, os EUA continuam sendo a potência dominante, mesmo no "quintal" da China, no Pacífico. Mas nos próximos anos provavelmente surgirão contestações da China à hegemonia dos EUA no Pacífico. Essa nova percepção de rivalidade já aumenta as tensões entre EUA e China - basta ver os atuais esforços para aprovar leis protecionistas no Congresso.
As convulsões provocadas pelo 11 de setembro e pelo 15 de setembro revelaram tipos diferentes de desafios à potência americana.
A militância islâmica violenta ainda tem potencial para provocar danos enormes. Mas a ideia de que a grande tendência geopolítica dos próximos cem anos será a criação de um califado islâmico global é uma fantasia, mesmo que isso seja uma noção popular no Waziristão e nos programas de rádio americanos. É difícil imaginar uma filosofia que seja mais mal adaptada para lidar com a modernidade que o fundamentalismo de Osama bin Laden. Na verdade, uma consequência irônica do 11 de setembro é que pode ter persuadido os EUA a passar uma década vital despejando recursos para combater a ameaça errada.
Em contraste, parece inteiramente plausível que, assim como o século XX foi o século americano, o século XXI seja o século asiático. A transformação econômica que sustenta essa mudança de poder estava mais do que encaminhada antes da crise financeira mundial. A crise, porém, deverá ficar na história tanto como o momento que revelou como o que acelerou a erosão do domínio ocidental. É por isso que o 15 de setembro, no fim das contas, deverá importar mais que o 11 de setembro.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
UE e a xenofobia
15 de setembro de 2010
Folha de São Paulo
UE ameaça punir França por xenofobia
Bloco pode multar país por expulsar ciganos; no mesmo dia, proibição de véu islâmico é aprovada por Senado
Vadim Ghirda/Associated Press
Ciganos romenos chegam à capital, Bucareste; grupo é parte de contingente de cerca de 200 pessoas enviadas ontem de volta ao país em voo fretado
Burca e outras vestes do islã passariam a sofrer veto em espaço público, outra ação considerada xenófoba por opositores
VAGUINALDO MARINHEIRO
DE LONDRES
No mesmo dia em que a Comissão Europeia afirmou que a França viola as leis do continente por expulsar ciganos, o Senado do país aprovou projeto que proíbe o uso do véu islâmico em lugares públicos, o que muitos consideram uma violação do direito à liberdade religiosa.
A comissária de Justiça da Comissão Europeia, Viviane Reding, classificou como uma "desgraça" a expulsão dos ciganos promovida pelo governo francês.
"Pensava que a Europa não precisaria testemunhar mais uma vez uma situação como esta após a Segunda Guerra Mundial", disse Reding. Referia-se à perseguição sofrida pelos ciganos na Alemanha nazista.
A comissária pedirá abertura de processo contra a França porque, segundo ela, o país viola as leis da União Europeia que determinam a livre circulação de pessoas pelos países-membros.
A comissão é o corpo executivo da UE. Ela pode solicitar ações contra qualquer um dos 27 países-membros. O processo é conduzido pela Corte de Justiça. Se condenada, a França pode ter de pagar multa. Neste ano, a França mandou de volta para seus países de origem (principalmente Romênia e Bulgária) cerca de mil ciganos.
O governo conservador do presidente Nicolas Sarkozy afirma que não se trata de expulsão, mas de "saída voluntária". Cada um recebe 300 (equivalente a cerca de R$ 660) para deixar o país.
A justificativa oficial é que os ciganos não têm emprego, não pagam impostos, oneram os sistemas públicos de saúde e educação e aumentam a violência nas cidades. O Ministério das Relações Exteriores da França disse que as declarações de Reding não ajudam a causa dos ciganos e que não é hora de polêmicas, mas de ajudá-los.
BURCA
Com a pendenga já armada com grupos de apoio a minorias, a França dá mais um passo para criar outra, agora com os muçulmanos.
Por 246 votos a 1, o Senado aprovou a proibição nos lugares públicos do uso dos véus que cobrem o rosto das mulheres. Partidos de esquerda se abstiveram. Não há menção a religião, mas o alvo são os niqabs (que só deixam os olhos descobertos) e as burcas (que cobrem todo o rosto) usados por muçulmanas.
O projeto, já aprovado pela Assembleia Nacional, deve ser analisado pelo Conselho Constitucional, que irá dizer se a nova lei fere a Constituição do país e o direito à liberdade religiosa. Se considerada constitucional e sancionada pelo presidente Sarkozy (que sempre apoiou o projeto), a proibição entrará em vigor dentro de seis meses.
A França passará então a ser o primeiro país a vetar o véu em lugares públicos. A mulher que portá-lo poderá ser multada em 150 (R$ 330). A pena é maior para o pai ou marido que obrigar seu uso: 30 mil (R$ 66 mil) e até um ano de prisão.
Os defensores da proibição dizem que o véu avilta as mulheres, vai contra a laicidade do Estado e é um risco para a segurança, uma vez que dificulta a identificação de quem está por trás dele.
Folha de São Paulo
UE ameaça punir França por xenofobia
Bloco pode multar país por expulsar ciganos; no mesmo dia, proibição de véu islâmico é aprovada por Senado
Vadim Ghirda/Associated Press
Ciganos romenos chegam à capital, Bucareste; grupo é parte de contingente de cerca de 200 pessoas enviadas ontem de volta ao país em voo fretado
Burca e outras vestes do islã passariam a sofrer veto em espaço público, outra ação considerada xenófoba por opositores
VAGUINALDO MARINHEIRO
DE LONDRES
No mesmo dia em que a Comissão Europeia afirmou que a França viola as leis do continente por expulsar ciganos, o Senado do país aprovou projeto que proíbe o uso do véu islâmico em lugares públicos, o que muitos consideram uma violação do direito à liberdade religiosa.
A comissária de Justiça da Comissão Europeia, Viviane Reding, classificou como uma "desgraça" a expulsão dos ciganos promovida pelo governo francês.
"Pensava que a Europa não precisaria testemunhar mais uma vez uma situação como esta após a Segunda Guerra Mundial", disse Reding. Referia-se à perseguição sofrida pelos ciganos na Alemanha nazista.
A comissária pedirá abertura de processo contra a França porque, segundo ela, o país viola as leis da União Europeia que determinam a livre circulação de pessoas pelos países-membros.
A comissão é o corpo executivo da UE. Ela pode solicitar ações contra qualquer um dos 27 países-membros. O processo é conduzido pela Corte de Justiça. Se condenada, a França pode ter de pagar multa. Neste ano, a França mandou de volta para seus países de origem (principalmente Romênia e Bulgária) cerca de mil ciganos.
O governo conservador do presidente Nicolas Sarkozy afirma que não se trata de expulsão, mas de "saída voluntária". Cada um recebe 300 (equivalente a cerca de R$ 660) para deixar o país.
A justificativa oficial é que os ciganos não têm emprego, não pagam impostos, oneram os sistemas públicos de saúde e educação e aumentam a violência nas cidades. O Ministério das Relações Exteriores da França disse que as declarações de Reding não ajudam a causa dos ciganos e que não é hora de polêmicas, mas de ajudá-los.
BURCA
Com a pendenga já armada com grupos de apoio a minorias, a França dá mais um passo para criar outra, agora com os muçulmanos.
Por 246 votos a 1, o Senado aprovou a proibição nos lugares públicos do uso dos véus que cobrem o rosto das mulheres. Partidos de esquerda se abstiveram. Não há menção a religião, mas o alvo são os niqabs (que só deixam os olhos descobertos) e as burcas (que cobrem todo o rosto) usados por muçulmanas.
O projeto, já aprovado pela Assembleia Nacional, deve ser analisado pelo Conselho Constitucional, que irá dizer se a nova lei fere a Constituição do país e o direito à liberdade religiosa. Se considerada constitucional e sancionada pelo presidente Sarkozy (que sempre apoiou o projeto), a proibição entrará em vigor dentro de seis meses.
A França passará então a ser o primeiro país a vetar o véu em lugares públicos. A mulher que portá-lo poderá ser multada em 150 (R$ 330). A pena é maior para o pai ou marido que obrigar seu uso: 30 mil (R$ 66 mil) e até um ano de prisão.
Os defensores da proibição dizem que o véu avilta as mulheres, vai contra a laicidade do Estado e é um risco para a segurança, uma vez que dificulta a identificação de quem está por trás dele.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Corrupção e a Policia Federal
Folha de São Paulo
São Paulo, segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Corrupção é o crime mais combatido por PF, diz estudo
De 600 operações analisadas, 22% tinham como objetivo atacar a prática
Prisão mais comum nas ações é de funcionários públicos que atuam na ponta do sistema, como servidores da Receita
Erich Macias -10.set.2010/Folhapress
Agentes da PF durante operação que prendeu governador do Amapá; segundo estudo, maioria das ações do órgão visa combater corrupção pública
UIRÁ MACHADO
DE SÃO PAULO
O escândalo da Receita Federal revela o descontrole do Estado sobre os balcões de serviços e mostra como a corrupção está espalhada na franja do sistema, afirma Rogério Arantes, professor de ciência política da USP.
Autor do estudo "Corrupção e Instituições Políticas", apresentado no 7º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, em agosto, Arantes diz que as notícias sobre venda de dados fiscais sigilosos de contribuintes não o surpreendem.
"Estamos habituados a pensar a corrupção no interior da classe política e olhamos pouco para o crime que se apropria do "balcão de serviço", justamente na ponta mais próxima do cidadão. O meu estudo chama a atenção para essa corrupção mais periférica, descentralizada."
Arantes analisou 600 operações da Polícia Federal realizadas de 2003 a 2008. Seu trabalho mostra que a prática criminosa mais combatida é a corrupção pública (22,7%).
A recente operação Mãos Limpas, que levou à prisão o governador do Amapá e outras 17 pessoas, é um dos frequentes exemplos.
Em segundo lugar no ranking das operações da PF aparece o tráfico de drogas (15,2%) e, em terceiro, os crimes de contrabando e descaminho (9,8%).
O estudo mostra também que as operações da PF prendem principalmente funcionários públicos que atuam na ponta do sistema ("street level bureaucracy").
Os servidores federais, como os funcionários da Receita e do INSS, estavam envolvidos em 34% das operações que resultaram na prisão de agentes públicos (de um total de 238 nas quais foi possível identificar o agente preso).
Depois vêm policiais civis e militares (22,3%) e, em terceiro lugar, servidores públicos estaduais (12,6%). A primeira categoria de políticos aparece em sexto lugar: prefeitos (3,8% das operações).
"Esses dados mostram que há muita gente interessada em fazer dinheiro ilegalmente. Quando se diz, por exemplo, que informações protegidas por sigilo "vazam por todos os lados facilmente", é porque tem gente miúda tentando fazer dinheiro miúdo com isso", diz Arantes.
Segundo ele, essa difusão da corrupção explica a dificuldade de enquadramento dos crimes cometidos no escândalo da Receita, como o acesso a dados sigilosos de pessoas ligadas ao PSDB.
"Ora o crime aparece como eleitoral, ora como político, ora como crime comum. Essa disputa em torno da qualificação do caso talvez seja inevitável neste momento, mas não ajuda na sua elucidação. Agora cabe à PF investigar e esclarecer."
A pesquisa de Arantes sugere ainda que as interpretações sociológicas sobre o caráter endêmico da corrupção estatal no Brasil encontram, até hoje, respaldo nos dados.
Além das operações que flagraram a corrupção pública como crime principal, outras direcionadas a crimes comuns, como contrabando, tráfico de drogas ou crime ambiental, também revelaram a coparticipação de funcionários do Estado.
"Concessão de benefícios, emissão de documentos e fiscalização de atividades são tarefas suscetíveis à corrupção, e as operações da PF têm flagrado pessoas dispostas a vendê-las e a comprá-las -nos dois lados do balcão do Estado", afirma Arantes.
São Paulo, segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Corrupção é o crime mais combatido por PF, diz estudo
De 600 operações analisadas, 22% tinham como objetivo atacar a prática
Prisão mais comum nas ações é de funcionários públicos que atuam na ponta do sistema, como servidores da Receita
Erich Macias -10.set.2010/Folhapress
Agentes da PF durante operação que prendeu governador do Amapá; segundo estudo, maioria das ações do órgão visa combater corrupção pública
UIRÁ MACHADO
DE SÃO PAULO
O escândalo da Receita Federal revela o descontrole do Estado sobre os balcões de serviços e mostra como a corrupção está espalhada na franja do sistema, afirma Rogério Arantes, professor de ciência política da USP.
Autor do estudo "Corrupção e Instituições Políticas", apresentado no 7º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, em agosto, Arantes diz que as notícias sobre venda de dados fiscais sigilosos de contribuintes não o surpreendem.
"Estamos habituados a pensar a corrupção no interior da classe política e olhamos pouco para o crime que se apropria do "balcão de serviço", justamente na ponta mais próxima do cidadão. O meu estudo chama a atenção para essa corrupção mais periférica, descentralizada."
Arantes analisou 600 operações da Polícia Federal realizadas de 2003 a 2008. Seu trabalho mostra que a prática criminosa mais combatida é a corrupção pública (22,7%).
A recente operação Mãos Limpas, que levou à prisão o governador do Amapá e outras 17 pessoas, é um dos frequentes exemplos.
Em segundo lugar no ranking das operações da PF aparece o tráfico de drogas (15,2%) e, em terceiro, os crimes de contrabando e descaminho (9,8%).
O estudo mostra também que as operações da PF prendem principalmente funcionários públicos que atuam na ponta do sistema ("street level bureaucracy").
Os servidores federais, como os funcionários da Receita e do INSS, estavam envolvidos em 34% das operações que resultaram na prisão de agentes públicos (de um total de 238 nas quais foi possível identificar o agente preso).
Depois vêm policiais civis e militares (22,3%) e, em terceiro lugar, servidores públicos estaduais (12,6%). A primeira categoria de políticos aparece em sexto lugar: prefeitos (3,8% das operações).
"Esses dados mostram que há muita gente interessada em fazer dinheiro ilegalmente. Quando se diz, por exemplo, que informações protegidas por sigilo "vazam por todos os lados facilmente", é porque tem gente miúda tentando fazer dinheiro miúdo com isso", diz Arantes.
Segundo ele, essa difusão da corrupção explica a dificuldade de enquadramento dos crimes cometidos no escândalo da Receita, como o acesso a dados sigilosos de pessoas ligadas ao PSDB.
"Ora o crime aparece como eleitoral, ora como político, ora como crime comum. Essa disputa em torno da qualificação do caso talvez seja inevitável neste momento, mas não ajuda na sua elucidação. Agora cabe à PF investigar e esclarecer."
A pesquisa de Arantes sugere ainda que as interpretações sociológicas sobre o caráter endêmico da corrupção estatal no Brasil encontram, até hoje, respaldo nos dados.
Além das operações que flagraram a corrupção pública como crime principal, outras direcionadas a crimes comuns, como contrabando, tráfico de drogas ou crime ambiental, também revelaram a coparticipação de funcionários do Estado.
"Concessão de benefícios, emissão de documentos e fiscalização de atividades são tarefas suscetíveis à corrupção, e as operações da PF têm flagrado pessoas dispostas a vendê-las e a comprá-las -nos dois lados do balcão do Estado", afirma Arantes.
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